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Quarta-feira, Agosto 27, 2008

A CARTA DE C’AMINHA



Mui Amado e Digníssimo El Rey:




Como já faz um tempão desde que deixei aquele porto porco na galante caravela infestada de insetos & bestas gentilmente cedida pela vossa clemente realeza, já não sei mais o seu atual nome; guardo apenas e muito vagamente o vosso título e vão aqui pela minha cabeça oca algumas supostas e saborosas suspeitas: podes ser agora Dão Manuel O Piedoso, porque as mudanças no trono sucedem sempre súbito, ou ainda Dão Joaquim III, IV ou quinto, Dão Jão D’Alhos e Bugalhos e, com todo o respeito que guardo à Vossa Majestade e à sua augusta família, Dão Orraiquiuspartanostodos ou mais desavergonhadamente falando Dão Aputaquilospariu Lisboa, salve salve, que seja. Digo isso e assim dessa forma, El Rey, porque o Mar-Oceano vai nos turvando os pensamentos de tal maneira que passamos a tomar os peixinhos vivos e crus por refinadas iguarias lisboetas e as estrelas todas do céu adquirem contornos femininos tão palpáveis que não raro homens de fibra e juízo por elas se apaixonam a ponto de perder a razão e não raramente a própria vida. Mas não cabe a mim, que sou homem de letras e de razão, discorrer sobre assuntos competentes à marinharia. Não é disso que trata esta carta, portanto, seja Vossa Majestade esse ou aquele, Dão Rey ou Imperador, de formas tais que vou tratá-lo aqui simplesmente por El Rey, que pode não estar de todo nos conformes mas não lhe falta com o devido respeito. Como é de vosso conhecimento, coube a mim a honrosa tarefa de enviar daqui praí as notícias e sucessos fantásticos deste admirável Mundo Novo que por ora tenho diante dos meus olhos. Como El Rey não os pode ver, não por ser cego, que Deus Nosso Senhor assim o conserve, eu os vejo em seu lugar e registro aqui com a modesta riqueza de detalhes cuja característica foi o que me deu a honra de prestar serviços de qualidade à Corte da qual El Rey é o maior e mais bonito, se me permite a intimidade, representante. Pois vamos então direto aos fatos porque o céu azul daqui é um escândalo de tão belo e não é muito agradável perder um dia de sol e mar pra ficar no abafamento de um escritório dando à pena estas poucas e bem traçadas linhas. Tá certo que o escritório tem ar-condicionado, que é a primeira novidade que trago ao seu conhecimento. E muitas outras virão, se me permite. Ao contrário do que eu mesmo pensava, esta aqui não é uma terra de selvagens nem de ignorantes. Nada disso: aqui tem gente mui civilizada, tanto ou mais que em Portugal e outros sítios da Europa. Se querias, El Rey, notícias de gentios nus, mulheres de quatro peitos ou outras aberrações tão freqüentes nos bestiários, enganou-se. Mulheres têm sim, aos montões, algumas delas quase nuas, mas nem um pouco primitivas. É possível discutir com algumas delas a filosofia de Platão, um pouco de Santo Agostinho, elaborar sofisticadíssimos pontos de vista astronômicos e et cetera. Mas o melhor mesmo que se pode fazer com elas El Rey sabe muito bem, posto que sua vasta família real não brotou do chão como as mandiocas ou as batatas. Outra coisa que muito me chamou a atenção aqui por essas terras foram os homens. El Rey, sabedor que é da minha reputação e conhecedor da minha mulher e filhos, naturais e os nem tanto, sabe muito bem que essa coisa de paneleiro passa mui longe da minha pessoa, que tenho pelo sexo oposto verdadeira adoração religiosa e mais ainda carnal. Pois bem, justificada a minha pujante macheza diante de vós, passo aos fatos: os homens daqui, assim como as mulheres, nada têm de selvagens. Uns & outros, é claro, preferem os socos à filosofia, são estreitos de pensamento e numa disputa entre estes e um asno sou mais o segundo, pela fineza e inteligência natural dos seus instintos. Outros, no entanto, são mais espertos que o próprio demo, são capazes de passar-lhe a perna e vender-lhe a idéia de que em troca de alguns dinheiros a ele darão o céu mais o trono do Senhor com vista pro mar. Muitos homens aqui são assim, e suspeito desde já que esta terra terá um destino bem diverso daquele que Vossa Alteza imagina e deseja. São esses mesmos homens, no entanto, também os responsáveis pelos prodígios que nem em sonho eu imaginava. Saiba aí o senhor El Rey que enquanto engatinhamos na fina arte da navegação, aqui eles já possuem uma máquina muito engenhosa que anda por baixo d’água. Isso mesmo, El Rey, por baixo d’água! A ela chamam de submarino e juro pelo sagrado coração de Nosso Senhor Jesus Cristo que funciona perfeitamente, com um infinito de botões e funções e luzes pisca-pisca, pois já andei num deles. Abrigam também armas mui poderosas que suplantam bem uns mil dos nossos canhões. Com uma só dessas engenhocas, El Rey, dominaríamos toda a Europa, as Índias, mundos conhecidos e outros ainda por conhecer. Arrisco que até mesmo o Reino do Nosso Senhor, ao qual temo e respeito na fé em que fui criado, mesmo esse cairia diante de uma armada portuguesa composta por esses ditos submarinos. Mas essas coisas celestiais são assuntos de papas e cardeais, eles lá é que cuidem disso e não me tomem por herege, que problemas eu já os tenho por demais. Não bastasse isso de dominar os mares, também os céus estão sob o seu controle. Controle dos homens, é o que eu digo, que os papas e seus pares, embora o seu discurso aponte para o alto, a sua prática cotidiana está mais ligada às coisas aqui desta terra, contaminada que está pela sordidez da luxúria e pelo brilho fugaz e entorpecente das moedas de ouro. Deus me livre, portanto, do contato com esses senhores de saia. As minhas picaretagens eu as justifico em nome de El Rey, que represento com zelo e dedicação, o senhor sabe e aprova, creio eu. Jamais cometeria ato vil em nome de Deus Nosso Senhor como esses senhores da Igreja. Mas acho melhor me calar mais uma vez a respeito desses assuntos. As sacristias portuguesas têm ouvidos no além-mar, talvez aqui mesmo haja um representante da Igreja na encolha, sem batina, comendo e bebendo vinho na minha companhia com gargalhadas e saudações e, no escuro das sombras, ao lume das velas, redigindo o meu atestado de óbito. Como já disse antes, não quero ser tomado como herege por meus pensamentos, que são vastos e variados e nem sempre estão de acordo com aquilo que por tradição está acordado desde o começo dos tempos. Volto, pois, a falar dos céus, que também aqui estão sob o controle dos homens. Os aviões, que El Rey certamente ainda não conhece, são algo assim como grandes urubus de metal, cruzam os céus de lá pra cá, fazem um barulho dos diabos e, enquanto em nossas caravelas os tripulantes se matam uns aos outros por causa da estreiteza de espaço e aperto, nos aviões cabem folgadamente pra mais de cem homens, alguns viajam deitados e fumando charutos, são servidas cachaças e vinhos de primeira qualidade e as raparigas de bordo, que eles chamam de comissárias, cheiram melhor que a melhor galinha cozida da sua cozinha real. Mas em verdade não é do céu nem do mar que quero lhe falar, El Rey. É esta terra mesmo que é impressionante; a natureza, embora um tanto vilipendiada por interesses mesquinhos, ainda guarda muito da sua pujança – que eu esperava bem mais avantajada e intocada pela mão dos homens. Mas é assim, sabemos nós, basta ver o exemplo de Portugal e Espanha: não é o membro viril do homem, o pau do qual ele tanto se orgulha, é a sua mão que fode tudo o que encontra pela frente. Ou por trás, que seja. Vejo aqui então, El Rey, já que os seus belíssimos olhos não podem ver, uma terra cheia de promessas mas mais cheia ainda de descaso e exploração desmedida. As matas são densas e verdejantes de doer os olhos, mas aqui & ali se enxergam clareiras quilométricas feitas pelos homens e dentro delas edifícios que medem coisa de dez sobrados uns sobre os outros, que aqui eles chamam de apartamentos e em alguns casos condomínios. Eu mesmo já comprei dois bem ajeitadinhos de frente para o mar, com as moedas que, confesso agora, tomei de empréstimo ao vosso cofre real. Em tudo aqui há comércio, não pense Vossa Majestade que basta sentar-se sob uma macieira e esperar que a maçã lhe caia à boca. É preciso pagar – e bem -, porque as maçãs que nascem aqui geralmente vêm da Argentina, fenômeno esse que eu não entendi direito até agora (o país nem veio à luz dos descobrimentos ainda, veja o senhor!), é o que eu digo, e vêm as maçãs em caixas muito bem feitas de madeira vagabunda, embrulhadas todas em papel azul tão fino que acho que nem na China se produz algo parecido. A única coisa que uma vez me caiu à boca, de graça, foi uma jaca. Caso El Rey ainda não tenha idéia do que isso significa, é uma fruta do tamanho de um melão, só que bem maior, a casca tal qual um ralador de queijo, pesada que só a porra, se me permite a chuleza da palavra. Tudo isso porque eu tirava uma soneca à sombra da jaqueira, que é a árvore-mãe da jaca, óbvio, e a brisa fresca do fim de tarde acabou se tornando vendaval e chacoalhou a dita jaca, que se despregou das alturas e me caiu não exatamente à boca, mas bem no meio da testa, o que me causou muitos transtornos, um galo do tamanho de um peru e uma dor de cabeça do caralho. Mas vieram prontamente os médicos nativos daqui, que o nosso Santo Ofício com certeza classificaria como bruxos, e me atenderam na hora com uma infinidade de remédios milagrosos, ungüentos perfumados, agulhas espetantes, massagens e outras coisas ditas curativas. Só faltou a enfermeira de lábios vermelhos me beijar o ferimento, mas eles disseram que não, que podia infeccionar, embora eu gostasse de correr o risco de uma infecção causada por boca tão carnuda, que essa coisa de lábios vermelhos o senhor entende até melhor que eu mesmo. De maneiras tais que acabamos, eu, os médicos e a dita enfermeira enfim comendo com muito gosto a tal jaca, melando os dedos os narizes e as bocas com um sabor que El Rey ainda há de conhecer e certamente apreciar. Mas nem tudo aqui são jaqueiras e enfermeiras, é o que eu digo, e aquilo que a princípio a nós pareceu o Paraíso tem seus muitos Infernos e um outro tanto repleto de Purgatórios. Os mosquitos são mais organizados que a esquadra portuguesa e atacam sempre em negras nuvens, o que deixa qualquer cristão furado mais que peneira e abandonado total de qualquer sangue vital. O que tem de português que sucumbiu às picaduras desses diabos alados daria para repovoar dez vezes Lisboa. E tem mais: aqui há cobras como em nenhum outro lugar do mundo, algumas delas medindo pra mais de trinta metros de comprido! Eu, que aqui sirvo como os olhos d’El Rey, gostava mesmo é de não ver mas as vi muitas e muitas vezes, umas menores, outras maiores, mas ainda assim descomunais. Pra quem gosta de cobra comprida e grossa, este é certamente o Paraíso – o que, evidentemente, não é o meu caso e muito menos o de Vossa Alteza, que não pode nem deve ocupar seu precioso tempo com assuntos ofídicos tropicalistas. Deus Nosso Senhor, tenho certeza, quando acabou de criar o mundo se deparou com as sobras da sua criação. Fazer o que com as centenas de rabos extras, escamas e cabeças a mais, chifres excedentes? Pois creio eu que Ele, que é Senhor inclusive das bestas, não pensou duas vezes: juntou tudo e modelou tudo com as partes restantes, sem fazer questão da forma ou do tamanho, e jogou tudo aqui mesmo por essas terras, pois no mundo conhecido não haveria lugar para tamanhas criaturas tão assim, digamos, fora do padrão. Em Portugal não haveria de ser, temos cães e gatos e cavalos e asnos aos milhares, que são animais naturais, como é do conhecimento de Vossa Alteza, que de asno só teve mesmo o finado ministro das Navegações, que Deus o tenha.

(continua)




Terça-feira, Agosto 26, 2008

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