Tô avisando: sai daqui enquanto é tempo!!!

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Segunda-feira, Maio 31, 2004
 

E, se o chefe olhar, vai tomar o livro de você. Pra ler escondido...



 
POIS É...


O hotel Saint Paul, de Sérgio Naya (aquele), foi leiloado hoje no Rio.
O comprador pagou modestos R$ 9 milhões.
Disso tudo a gente tira as seguintes conclusões:
1 - Os castelos de areia têm preço;
2 - Ainda tem gente no mundo que é corajosa o suficiente para comprar uma obra realizada pelo Naya.




Domingo, Maio 30, 2004


Sábado, Maio 29, 2004
 
O novo (novo?) lote de cédulas vem aí...





Sexta-feira, Maio 28, 2004
 


1

Um dia, então, percebemos que tudo nos fora tomado. Nossos empregos, nossas casas, nossas famílias. Nossos carros, nosso dinheiro. Nosso orgulho. A única coisa que nos havia sobrado era a fome. (Restou-nos também uma bruta indignação, que foi se desgastando e, por fim, desapareceu.)
Nesse dia encontramos um livro. Nada mais havia para ser encontrado, mas ainda assim encontramos um livro. Antigo, sujo, mas completo.
- O que podemos fazer com ele?, perguntei.
- Comê-lo!, foi a resposta.
Eu protestei, romanticamente. Livros devem ser devorados, sim, mas de outra maneira. São alimento, sim, mas da alma. Devem ser tratados com respeito.
- Respeito os livros - ele disse. - Mas respeito muito mais o meu estômago.
Lembrei-me dos bons tempos, outros tempos: a última coisa que um homem pensaria em comer era um livro. Por diversas razões, mas por uma em especial: os livros eram sagrados.
- Comendo um livro, portanto, estaremos comendo Deus, ele disse.
Achei curiosa a idéia.
- E será que, comendo um livro, que é Deus, conseguiremos nos livrar dessa pindaíba?, eu perguntei.
- Se vamos nos livrar dessa, eu não sei. Mas comendo o livro a gente acaba com a fome. Acho que isso é uma coisa divina.
Concordei, naturalmente, mas ainda assim considerei tudo isso um grande pecado. Protestei, como sempre se espera nessas ocasiões, falei do absurdo que isso representava, xinguei, falei o diabo. Mas, por fim, me rendi:
- Passa o sal!

2

Ousado. Genial. E um dia o engenheiro mundialmente reconhecido foi à TV anunciar sua mais nova obra:
- Um muro de palavras. O maior e mais alto muro de palavras já visto pelo Homem.
A obra gigantesca foi posta em execução: milhares de homens trabalhando, máquinas, e palavras, palavras, palavras.
Volta e meia um jornalista aparecia com a pergunta:
- Quando será concluída a obra?
O engenheiro respondia sempre, cretinamente:
- Esse muro só termina quando me faltarem as palavras.
Durante anos o muro cresceu em direção ao céu. Palavras, quilômetros delas. A impressionante obra já consumira milhares de vidas, homens. Fora até mesmo comparada às pirâmides do Egito, tamanha a sua grandeza.
- E essa porra não acaba nunca? - começaram a perguntar.
Diante do silêncio do engenheiro, o mundo passou a acreditar que o muro estaria pronto em breve. As palavras, afinal, já lhe faltavam. Tudo era uma questão de tempo. Pouco tempo.
Mas as obras do muro, como se constatou, não foram concluídas em uma semana. Nem em um mês. Um ano depois e o muro ainda crescia vertiginosamente, sem previsões de término.
O caos se instalou: jornalistas e autoridades nacionais e estrangeiras falavam coisas sem nexo. Todo mundo tinha uma teoria sobre o muro mas ninguém era capaz de provar. A pirâmide havia se transformado em torre de Babel.

***

Vinte anos depois o muro foi enfim concluído. Não pelo engenheiro, já morto, mas sim por um poeta.
O mundo quis saber:
- Como é que o senhor, poeta, realizou tal proeza?
- O engenheiro que inventou este muro de palavras só entendia de números.
Todos permaneceram calados. O poeta continuou:
- O seu projeto era grandioso, sim, arrojado. Mas ele, o engenheiro, deteve sua atenção somente sobre as palavras, e ignorou que as palavras, assim como os números, também estão condicionadas a certas regras. O engenheiro foi brilhante, sim, mas esqueceu algo que jamais poderia esquecer quando se trabalha com palavras.
- E o que foi que ele esqueceu? - perguntaram.
- Uma coisa que os poetas podem até não utilizar, mas jamais ignoram: o ponto final.




Segunda-feira, Maio 24, 2004


Domingo, Maio 23, 2004


Terça-feira, Maio 18, 2004
 

Putzzzz! Quando fiz isso, não pensei que isso fosse tão isso...



Segunda-feira, Maio 17, 2004


Sexta-feira, Maio 14, 2004
 
VARIAÇÕES SOBRE O MESMO TEMA



Dia desses andaram perguntando em Brasília:
- Quem é que o Lula come?
O correspondente do NYT, que tava ali por acaso, respondeu:
- O Lula não come ninguém. Ele só bebe!

***


O presidente bebe. Logo, eu posso beber também.
Se, bebendo, Lula chegou à Presidência, eu, que bebo, também vou ser presidente!

***


Lula, depois do quarto gole, imitando o Jânio:
- Bebo-lo porque qui-lo!


***
Adesivo colado no vidro do carro presidencial:
BEBE A BORDO



Essa história de que o Lula é chegado num copo pegou mal. Tanto que o presidente resolveu mudar seus hábitos: agora, pra evitar comentários e matérias maldosas, toma a saideira logo na entrada.

***
O mundo inteiro sabe que o Lula bebe. Vai ser difícil pra ele se tornar um Alcoólico Anônimo.

***
Por causa do alto teor alcoólico, as propagandas do governo só poderão ser exibidas após as 22 horas.

***
Questão terrível: Lula governa mal porque bebe ou bebe porque governa mal?

***
Recado da assessoria de imprensa do Planalto a Larry Rohter: "Escreva com moderação".

***
O maior problema do Lula não é a bebida. O seu maior problema é o governo.

***
Se o porta-voz do governo fosse o Zeca Pagodinho, nada disso estaria acontecendo.

***
No PT ninguém bebe. Nem governa.

***





Quinta-feira, Maio 13, 2004


 



- Um amigo agora tá vendendo almoço pra comprar a janta.
- Tá desempregado?
- Não. É dono de restaurante!


(Credo...)




Terça-feira, Maio 11, 2004






Domingo, Maio 09, 2004
 


1

De todos os modos de fazer
eu prefiro o fazer de menos.
Não por medo
- que escrever já é uma coragem
mas por preguiça mesmo
essa musa vagabunda
minha parceira
de ócios e ofícios.


2


Antigos amantes, bruxa e inquisidor se encontram no cárcere.
- O fogo libera a tua alma - ele diz.
- E o desejo aprisiona o teu corpo - ela responde.
Mais tarde o Santo Ofício queima a bruxa. Mas quem arde é o inquisidor.


3


Hoje encontro no espelho um rosto de ontem.
Aquilo que fui.
O sorriso que dei.
Ainda bem.
Triste é o espelho que revela o que vai ser.




 
ESCRITO HÁ MUITO, MUITO TEMPO


A minha mãe vem da morte pra me visitar.
Diz que estou magro
que só engordo palavras
solitário demais neste mundo que se faz a dois
que sabe dos meus cigarros
e que lamenta as minhas garrafas.
Essa aí a minha mãe, que ocupa a sua morte com a minha vida.


Nacos de Necas



Sábado, Maio 08, 2004
 
RAPEIDINHA ELEITORAL


PPC: Paulo Maluf, o que é o senhor pode oferecer à cidade de São Paulo, se eleito?
MALUF: Er... Minha conta na Suíça serve?



Sexta-feira, Maio 07, 2004
 
AINDA SEM TÍTULO DEFINIDO 04



Gostei da determinação do rapaz. Pode não ser muito, a mulher não é lá essas coisas, principalmente agora depois de tantos anos de casamento, mas a sua atitude mostra um homem que ainda vai atrás dos seus objetivos. Boa sorte, pensei. Você vai precisar...
Nesse momento, enquanto eu me ocupava desses pensamentos inúteis, um desconhecido abriu a porta do carro e se sentou ao meu lado. Era baixo, gordinho, uma barba bem cuidada. As unhas pintadas com esmalte transparente. Camisa branca bem passada, os sapatos brilhando. Um homem que se cuidava, portanto.
Fiquei ali, calado, olhando o cara. De vez em quando ele olhava pra mim e sorria. Aí voltava para seus pensamentos e seu rosto se apagava. Parecia refletir profundamente sobre um assunto grave. A morte da bezerra, talvez. O Apocalipse. Qualquer coisa nesse estilo.
Pensei em dizer algo, cumprimentá-lo, perguntar o seu nome. Mas a sua cara cheia de pensamentos me impediu. Seria uma grande indelicadeza arrancá-lo de suas reflexões somente para satisfazer a minha curiosidade. Era um bom homem, sim, limpo e distinto, com as unhas feitas. Não é sempre que encontramos homens assim. Não é sempre que homens assim nos encontram. Por isso deixei-o em paz, calado, quieto feito uma múmia. Era algo que ele certamente necessitava muito. Ninguém melhor do que eu para saber que o mundo lá fora nos impede de pensar.
Pense, amigo, pense - eu pensei. E pensando adormeci. Sonhei que minhas pernas se transformavam em rodas. Foi doloroso, o sonho. No começo. Depois experimentei uma sensação de extrema liberdade. Agora, enfim, as minhas tão sonhadas rodas!
- Vamos, vamos! - elas disseram.
- Não quero ir pra lugar algum - eu respondi.
- Mas nós servimos para rodar - elas disseram.
- Não quero rodar - respondi. - Estou bem aqui, parado.
As rodas, percebi, ficaram chateadas. Azar delas, pensei. Agora quem manda na porra da minha vida sou eu! Ninguém, nem mesmo as minhas próprias rodas, me obrigarão a rodar se eu não quiser. E eu não quero! Quero ficar parado até o fim!
As rodas falaram qualquer coisa mas eu não consegui ouvir. O que ouvi, na verdade, foi a voz do estranho ao meu lado:
- ... e, sendo assim, concordo plenamente com o senhor. De nada valem o sacrifício e a dedicação. Um bando de filosdaputa. Ninguém vê o mundo da nossa perspectiva. Por isso é que homens como o senhor são tão raros. O senhor está muito certo. Tivesse eu a oportunidade e me trancaria também num automóvel. Mas eu não tenho automóvel. Nunca tive a oportunidade de ter um. A única coisa que tive na vida foi dor de dente. Quando tinha dentes. Agora tenho só essa dentadura aqui, e as minhas idéias. Na minha cabeça moram Platão, Sócrates, Descartes, todos os grandes filósofos da humanidade. Estão abrigados e perfeitamente protegidos. Só eu não tenho onde morar. Por isso vivo por aí, no mundo, sem paradeiro. Só descanso um pouco quando encontro homens como o senhor, trancados em automóveis. São raros, já disse. E essa é a razão da minha presença aqui: vim me solidarizar com o senhor. Um dia todos os homens trancados dentro de automóveis serão libertados e será deles o reino da terra!
Eu não quero reino nenhum na terra, pensei. Não quero porra nenhuma. Mas achei melhor não falar, o homem poderia ficar magoado. Outra coisa: como é que ele pode viver no mundo sem paradeiro, com essas roupas tão alinhadas e limpinhas, com essas unhas cintilantes?
- Detalhes importantes, meu caro - ele falou. - O asseio pessoal é a base do bom pensar. O senhor já viu, por exemplo, um porco pensador? Eu nunca vi. E eles ficam a vida toda chafurdando na lama, fedendo feito gambás. São porcos, eu sei, e é por isso que se chamam assim. Um pensador fedido jamais será levado a sério. E eu quero que ouçam as minhas idéias, por isso não fedo.
Não fede e nem cheira, eu pensei. E não cheira mesmo: nem mau hálito o cara tinha. Limpinho demais, delicado demais.
- Mas não tire conclusões precipitadas - ele continuou. - Toda essa minha limpeza às vezes é trocada por uma boa meia dúzia de palavrões que disparo ferozmente com a minha famosíssima boca suja. Sim, por conta de divergências filosóficas e políticas já mandei muito presidente tomar no cu. E sobrevivi a todos eles, como o senhor está vendo. Porque ilimitado é o mandato de um pensador. Os presidentes duram em média quatro anos, e eu penso ativamente desde que me conheço por gente. Pensei muita merda, é verdade, mas ninguém é perfeito. E o senhor sabe disso muito bem.
Fiquei ali olhando o cara. De onde pode ter me surgido tamanho maluco? Homens são de marte, malucos são de onde?
- Somos de toda parte, meu caro. Estamos onde menos se espera, e é essa a nossa função. Não fosse assim e as coisas não teriam graça, e seriam inúteis a vida e os sonhos. E agora, se me permite, preciso partir. Outros homens precisam das minhas palavras. Ainda há muitos como você. Preciso ir, preciso ir.
E se foi o homem, depressa. Parecia ter um compromisso inadiável. Na esquina, parecia flutuar, dois palmos acima do chão. Um homem surpreendente, sem dúvida. Mas, assim como eu, também trancado. Não dentro de um carro, é claro.




Quinta-feira, Maio 06, 2004


Quarta-feira, Maio 05, 2004


 
AINDA SEM TÍTULO DEFINIDO 03



Não que eu tivesse o costume de explicar alguma coisa. E não explicava porque ela não parecia se importar. Não se importava comigo, melhor dizendo. Se eu tivesse me trancado numa mala, numa jaula, pra ela, tanto faz. O fato de eu estar aqui agora, neste carro, pra ela não significa nada. Ou melhor: deve estar gostando, afinal não ocupo mais espaço na casa, na cama, ao seu lado. Espaço físico, quero dizer, porque outro espaço eu jamais ocupei em sua vida. Eu tentei, séculos atrás. Mas desisti, como desisti de muitas outras coisas. Desisti, por exemplo, do mundo lá fora. Não quero mais saber de falar bom dia, de ser ocupado, de pagar as contas, das minhas obrigações sociais. Desisti de ser homem, essa é a verdade. Quero virar coisa. Quero virar carro, este carro aqui. Quero me integrar a este banco, fazer das janelas os meus olhos. Beber gasolina? Exagero, concordo. E você pode até dizer que exagero é trancar a vida do lado de fora do carro, que exagero é eleger o carro como seu abrigo. Eu não concordo. Exagero é manter a vida FORA do carro! Daqui pra fora tudo é um exagero, um desperdício. A vida, portanto, deveria ser apenas isso: eu, o carro e nada mais.
- Mas um dia você vai precisar sair pra comer - falou Alberto, um vizinho que se aproximou do carro. Um vizinho de bermudas, é bom que se diga. E chinelões.
- Depende - eu retruquei. - Cheguei num estágio da minha vida no qual não preciso de mais nada. O ar que eu respiro e o carro me bastam. São meu alimento.
- Não precisa nem ir ao banheiro?
- Não.
- Fazer xixi, cagar, essas coisas tão humanas?
- Isso é aí com vocês. Estou num processo de coisificação. Estou me transformando.
- E vai virar o quê?
- Vou virar carro. Este carro aqui. Vou me integrar a ele.
- Se vai virar carro, por que é que não sai rodando por aí? Não vejo sentido num carro parado.
- E eu não vejo sentido em pessoas que se movem e não vão pra lugar algum. Pra onde você está indo? Sabe me dizer?
O Alberto parou um segundo, pensou, acendeu um cigarro. E riu.
- Quando é que você vai voltar pra casa? Já tem gente dizendo que você nunca mais vai sair daí.
- Eu não vou mais sair daqui. E não volto mais pra casa.
- Então eu já sei pra onde vou. Sua mulher tá lá?
Ele se afastou e foi em direção à minha casa. Ele e a sua bermuda, seus chinelões. Nem a campainha o sujeito tocou. Eis aí um cara que realmente sabe para onde está indo.




 
AINDA SEM TÍTULO DEFINIDO 02


Sei, por exemplo, que de nada adianta ficar observando essa movimentação dos vizinhos. Talvez dois ou três fiquem constrangidos hoje, um pouco mais amanhã, mas em uma semana eles não vão ligar mais para mim e tudo continuará como antes. Não faço diferença. Dentro desse carro eu não faço a menor diferença. Posso despertar o interesse por algum tempo, algo assim como um grande pássaro dentro de uma gaiola imóvel. Mas vai durar pouco. Vão me esquecer, porque a dinâmica da vida lá fora, fora daqui, deste carro, é outra, implacável, uma máquina que não para de girar só porque uma de suas peças perdeu o entusiasmo.
E eu perdi, mesmo, o entusiasmo? Acho que não, não de todo, pelo menos. Claro que alguma coisa se perdeu, se quebrou: não é todo dia que alguém abandona sua vida e se tranca dentro de um carro. Tenho consciência disso, sei disso, agora sei. Aqui dentro, por outro lado, eu considero, de certa forma, uma segunda chance. Uma maneira completamente nova de observar a vida, uma nova perspectiva. Ilimitadas são as possibilidades à minha volta. O mundo inteiro se move lá fora, e isso vai muito além do entra e sai dos vizinhos. E agora eu posso observar o mundo, aqui, quieto, sem estar diretamente envolvido nesse hospício. E o mundo vai, não para, não para nunca, se devora. E aí eu posso dizer, como nunca tive coragem antes: "Foda-se!!!".
- Tá ficando maluco, é?
Minha mulher. Do lado de fora do carro.
- Mas eu não gritei foda-se - eu disse. - Apenas pensei foda-se.
- Não quero saber o que você pensou ou o que você disse. Só quero saber quando é que você vai trabalhar. O teu chefe já ligou três vezes perguntando de você.
- O chefe que se foda - falei.
- Tá bom. Mas o que é que eu digo pra ele?
- Manda ele se foder.
- Quando é que você vai trabalhar?
- Não vou mais. Nunca mais. Fala isso pra ele.
- Então tá. Mas vai você lá dentro, pega o telefone e fala.
- Não posso.
- Não pode por quê? Não pode sair do carro?
- Não quero sair do carro.
- Nunca mais?
- Nunca mais.
- Então tá.
Ela se afastou, sorriu sensualmente pra dois vizinhos e desapareceu pela porta. Não se surpreendeu com a minha decisão. Ela nunca se surpreendeu com nada, aliás. Melhor assim. Me poupa de dar explicações.




Segunda-feira, Maio 03, 2004
 
AINDA SEM TÍTULO DEFINIDO




Simples assim: me despedi de todos em casa e fui para o carro.
Nenhuma briga, nada. Simplesmente decidi entrar no carro e não sair mais. Nunca mais.
Tudo o que eu precisava, afinal, estava ali: os bancos para dormir, as janelas, uma cortininha vagabunda de tecido xadrez. As chaves do carro, no meu bolso. Chaves que não usei. Ficar aqui parado é melhor. Se eu ligar o carro e sair do estado, do país, pra quê? Pra voltar? Aqui parado eu economizo combustível. E paciência. Esse trânsito maluco acaba com a gente.
Pela primeira vez em muitos anos me dei ao luxo de observar. Vi meus vizinhos, todos, indo para o trabalho. Todos, não. Alguns. E isso foi uma descoberta: pra mim, todos trabalhavam. Mas agora sei que não. Uns dez, pelo menos, nem vão trabalhar. Ficam, como estou vendo agora, de bermuda e chinelão andando pra lá e pra cá. Uns tomando cerveja no buteco. Outros simplesmente deixam suas casas e entram nas casas de outros vizinhos, que estão trabalhando. Visitam, certamente, as mulheres, solitárias, que ficam abandonadas em casa. É um entra e sai danado, a movimentação matinal por aqui é bem intensa. Os gemidos e os beijos estalados disputam espaço com o canto dos passarinhos. Uma curiosa sinfonia essa. E eu, durante anos, nem me dei conta disso. Uma prova de que o trabalho não dignifica o homem porra nenhuma. Cornifica, isso sim.
"Cornificar". Um verbo interessante, do qual eu talvez já tenha sido sujeito passivo. E daí? Diante de tudo o que vivi, que passei, a galharia sem dúvida representa o menor dos meus problemas. E nem certeza absoluta disso eu tenho. Passei a vida trabalhando, sem saber que os vizinhos ficam entrando uns nas casas dos outros tão logo o dia começa. Nunca fiquei por aqui, nunca observei o movimento desta rua que sempre considerei minha. Nunca soube de muita coisa, afinal. Nunca soube das coisas importantes, das coisas que eu deveria saber. E era confortável a vida assim, sem saber. Mas agora eu sei.

(Como o leitor mais atento poderá observar, estou procurando uma história. Ou melhor, a história eu já achei. Só falta agora encontrar uma maneira adequada de contar. Estou procurando, estou procurando...)





Domingo, Maio 02, 2004


Sábado, Maio 01, 2004
 

A propósito, estive hoje no McDonald's com a minha filota.
Resolvi usar a internet deles. A minha surpresa foi a mensagem:
"Conteúdo impróprio para o McDonald's".
O impróprio, no caso, é este PPC!
que você vê agora...
Pode?