Domingo agora, os brasileiros estão convocados a elegerem os prefeitos de suas cidades e os vereadores das Câmaras Municipais (executivo e legislativo municipais).
Dois partidos tendem a adquirir predominância nesse pleito: o PT, principal inquilino do Palácio do Planalto, e o PSDB, que se afirma como principal núcleo de oposição à situação federal e que comandou o governo do país durante os oito anos anteriores a Lula.
Até aí, nada. As dúvidas começam a surgir quando se percebe que PT e PSDB têm programas praticamente idênticos. Desde a questão macro econômica até as prioridades para tapar buracos nas ruas, nada difere significativamente de um para outro. Graças a essa semelhança, muitas pessoas reclamam dos políticos. São todos iguais, oportunistas, mudam de posição conforme as conveniências. Etc e tal.
Ocorre que o processo eleitoral é - cada vez mais - interativo. Os partidos fazem pesquisas qualitativas para definirem suas bandeiras de campanha. Ou seja, procuram saber o que a maioria das pessoas quer e - com isso em mente - definem o que propor aos eleitores. Não só as propostas são fruto dos desejos dos eleitores. As imagens dos candidatos são trabalhadas em função dessas mesmas pesquisas. Quem se elegeu em 2.002 para a presidência foi o Lulinha Paz e Amor. O combativo Lula de antes jamais se elegeria.
Resumo: os prefeitos e vereadores eleitos serão expressão muito fiel da feição da maioria da população. Nosso presidente, os governadores, senadores e deputados, todos são imagens especulares de nós mesmos.
Os poucos agrupamentos políticos que defendem idéias próprias (o dr. Enéas e seu PRONA, à direita, o PSTU e o PCO à esquerda, por exemplo) têm raros seguidores. Quase ninguém os leva a sério. Os grandes partidos perseguem o senso comum. Por isso são grandes. São como nós.
O desagradável é que olhamos pra todos eles e dizemos que são horríveis.
Não gostamos de nos olhar ao espelho.
AS PALAVRAS COMUNS E OS SEUS
INSUSPEITOS SIGNIFICADOS
No uso cotidiano, as palavras vêm e vão e nós não temos por hábito prestar muita atenção aos seus múltiplos significados. A velocidade do nosso dia, a necessidade, et cetera, tudo isso nos priva de aproveitar o que as palavras têm de melhor.
Uma palavra como cu, por exemplo, a sílaba cu, numa abordagem mais superficial, significa apenas isso: cu, ânus. Mas debrucemo-nos (ôpa!) sobre o cu: em francês, por exemplo, dizem que cu faz menção ao pescoço. Isso quer dizer o quê? Que em francês o cu está no pescoço? Não conheço nenhum francês, gostaria aliás de conhecer mesmo as francesas, que a lenda diz serem tão calientes quanto as nossas brasileiras - mas daí a dizer que o cu francês fica no pescoço é um absurdo. Suponho que o cu francês fique no mesmo lugar que o cu brasileiro, assim como o português e o australiano, que, embora do outro lado do mundo, deva guardar alguma semelhança anatômica com o nosso querido roscofe.
Roscofe, aliás, é outra palavra que chama atenção. Isso merece aqui um pouco de história: registram os anais (ui!) que, no século XIV, o nobre russo Pièter Pavlov Hoscofiev enlouqueceu de causas naturais e por certo hereditárias. Daí que o nobre se tornou, por conta da doença, um devasso exibicionista, que passava as noites nas tabernas ao lado do namorado, um escritor menor de nome Dostoiévski ou algo assim, exibindo a todos o seu glorioso e no mais das vezes sujo e fedido osório.
Pièter Pavlov Hoscofiev, por conta da preguiça natural que os russos têm de falar, acabou se transformando, primeiro, em Hosco. Algum tempo mais tarde, passaram a chamá-lo de Hoscoff, por acharem mais elegante a pronúncia. O tal Dostoiévski, depravado, nessa mesma época escreveu um conto em homenagem ao namorado: Roscoff, O Cu que Apavora San Petersburgo. Desde então, na Rússia, Roscoff virou sinônimo de cu. (Tempos depois inventaram a vodka Smirnoff, que também é um cu, mas em outro sentido que não cabe agora ser analisado.)
A maneira pela qual o cu de Roscoff chegou ao Brasil é um dos muitos mistérios da humanidade. Tropicalizado, canibalizado e caetaneado de norte a sul, o Roscoff russo ganhou cores e pronúncia brasileira: virou Roscofe. Ainda hoje é utilizado, mas por uma parcela pequena da população.
Chama a atenção também a palavra osório, citada logo acima, que no seu uso normal é nome próprio, Osório. Não se pode, por exemplo, dizer que todo Osório é um cu. O contrário, contudo, geralmente é afirmativo: não conheço ninguém que use a palavra osório para designar outra coisa que não seja o cu.
E do osório (não do Osório), naturalmente, chegamos ao peido. O peido, aliás, é a expressão mais natural do osório, é algo que só mesmo o cu pode produzir de maneira eficaz. Muitas foram as maneiras criadas pelo homem para imitar o peido, mas somente o osório é capaz de fazê-lo da maneira como se deve. O peido, assim como o osório, ou cu, tem muitos outros sinônimos. Bufa, por exemplo, é uma palavra que alcança muito bem o seu objetivo: vem de bufo, bufão, palhaço. Quando alguém solta uma bufa, é difícil para aqueles que estão em volta não soltarem ao menos um sorriso. A bufa cumpre então aqui o seu caráter circense: é destinada a fazer rir. A alguns irrita, naturalmente, principalmente quando fede pra caralho, mas no mais das vezes diverte. Cumpre, portanto, a sua função primeira.
Pum eu acho que não pega bem. A maioria das pessoas, aliás, considera que pum não pega bem em ocasião nenhuma, somente aquelas em que estão sozinhas, et cetera. Mas eu digo que não pega bem porque, antes de mais nada, é apenas uma onomatopéia a meu ver de mau gosto (vocês aí poderão dizer que é de mau cheiro, tudo bem...). E também um tanto infantil. Já imaginaram a cena, um homem de 40 anos, dois metros, dizendo que soltou um pum? Homem de verdade não solta pum, peida. Quem solta pum é criança. Ou a namorada da gente no começo do namoro: "Amor, soltei um pum". Tempos depois, já casados, ela costuma peidar e dizer: "Seu filodaputa, pára de peidar na frente das crianças". Pois é, coisas da vida.
Ainda sobre o peido, aliás, que está intimamente ligado ao cu, tenho aqui uma história pitoresca: em inglês, peido é fart. De certa maneira, em algumas empresas brasileiras, quando alguém falta ao trabalho, ou "farta", significa que não veio, ou foi peidar. Fulano de tal não veio ao trabalho, ficou em casa peidando - isso é coisa muito comum de se ouvir por aí. Mas não é bem disso que eu quero falar. A etimologia inglesa liga, de maneira curiosa, o peido ao ataque do coração. Sim, é isso mesmo. Segundo o First British Etimologic Dictionary, editado por William Shakespeare em 1654, a palavra "infart" nada mais é do que o peido do coração. Faz sentido: "In", dentro; "fart", peido. Numa tradução grosseira: peido dentro. O dentro aqui, neste caso, é do coração, que não tem por onde liberar os gases produzidos pelo fart, que mantém tudo in, sob pressão. No Brasil se fala infarto, mas se alguém sugerir que isso é um peido do coração...
Como vocês puderam ler, uma vez debruçados sobre a sílaba cu, tudo isso pudemos extrair. E muito mais ainda se pode extrair do cu, embora não seja agora o momento. A história da humanidade passa, de certa forma, por aí. Entrando ou saindo, não importa. Mas passa.
ABAIXO, UMA HISTÓRIA DOS TEMPOS EM QUE EU ENLOUQUECIA
Z
1
Agora estou no centro do quarto, exatamente. Não há móveis nem tampouco uma cama: durmo no chão, coberto pela noite. Tenho alguns livros mas já não os leio. Desisti das idéias alheias; as palavras têm um sabor acre. Poupei apenas a letra Z. Assim eu me chamo.
As paredes do meu quarto são o meu mundo. Mudo. Já não falo há séculos e a minha língua é um objeto verde. Não posso afirmar a existência das minhas pernas. Sequer posso afirmar que eu existo. Apenas meus dedos, às vezes, desenham um nome no ar. Eu sorrio por isso - e por isso me vêm as recordações. A memória é um instrumento da dor. E as recordações são flechas que atravessam a alma. Tenho muitas.
2
No meio da rua. Os rostos à minha volta eram todos e um só. Devoravam-se. A pergunta, inevitável: algum nome? A resposta, inevitável: multidão.
Ana me surgiu do meio desse hospício. Seu rosto descolou-se dos outros apenas para que eu o visse. Sua boca derramou um sorriso e depois naufragou nas ondas daquele oceano mudo e célere. Guardei seus traços no coração.
Marianna, Virgínia, Bruna, Thaís. Conheci todas elas. Nenhuma delas me conheceu. Bebi da fenda entre suas coxas. Nenhuma saciou minha sede.
Ana. Por que Ana?
Por que seu rosto surgiu de uma massa informe na qual os rostos não existem, não são admitidos?
Arrastei essas perguntas pelas ruas onde a procurei. Inútil esforço: fui encontrá-la num lugar tão improvável quanto o primeiro: em meu quarto.
- Curioso? - perguntou ela. Trazia um livro, tão delicado quanto suas mãos.
Ofereci-lhe um chá. Ela recusou. Sentei-me então para ouvir. Ver. Para acreditar.
- Isto é pra você - disse ela colocando o livro num canto. - Mas não deve lê-lo nem tocá-lo. É a condição que imponho pra ser sua.
Concordei com a cabeça. Ana sorriu.
- Eu tenho todos os vícios - continuou ela. - O pior deles é crer nos homens reais.
- Meu nome é Z - falei. - Eu não sou real.
Ela riu.
- Eu era o único em casa a comer carne na sexta-feira santa - continuei. - Nos outros dias do ano isso era insuportável pra mim. Mas naquele dia era importante: mamãe insistia em dizer que era o corpo de Cristo. Eu adorava cometer esses pequenos crimes em família.
- Eu - falou Ana -, eu costumo cortar os meus pulsos quando estou feliz. Preciso de um homem para beber o meu sangue.
Foi a minha vez de rir.
- Já li isso num livro - falei.
Ana segurou minha mão. Trazia cicatrizes vermelhas no braço. Fomos então para a rua. Um bar. Ela acariciava minhas pernas sob a mesa.
- Nasci num pequeno quarto e sou antiga - falou ela. - Meu pai me criou e depois entregou meu corpo ao mundo. Conheci muito cedo os homens e os conflitos. Viajei pela terra, vendi minhas pernas e minha alma nos portos onde permaneci algum tempo. Comi poeira. Matei. Morri mil vezes. Apaixonei-me por uma menina e por um padre. Tive dois cães. Li e amei ardorosamente alguns poetas. Fiz de mim o mundo. E chorei e sorri. A figura do meu pai, porém, sempre me pareceu próxima demais. Ela me persegue, é o castigo quando ouso ser feliz. Fui rica algumas vezes, amante de presidentes e esposa de imperadores. No entanto, neles eu encontrava sempre algum traço do meu pai: queriam me usar e exibir, guardar meu corpo num armário para que ele permanecesse jovem e pronto para outra festa. Não eram homens de verdade. Conhaque?
A sua mão estava dentro da minha calça. O garçom nos olhava como se nada visse.
- Não - respondi. - Eu gostava do álcool porque ele me fazia esquecer. Passou o tempo: esqueci-me dele.
Frase inútil. Ana disfarçou com um sorriso mil anos ensaiado.
- Ana. Por que Ana?
- Como sabe?
- Sorte. Acaso, talvez. Aprendi que aqui tudo é possível. Mas agora conheço a sua história. Gostaria de conhecer o seu avesso.
O copo encobriu rapidamente os seus lábios. A luz brilhou no cristal.
- Você já conhece. O avesso de Ana é anA.
Sorrimos. As carícias sob a mesa despertaram o rubor em algumas senhoras. O bar então tremeu: um escritor famoso entrou. Cumprimentou a todos com uma ironia disfarçada e ocupou uma mesa ao nosso lado.
- Meu pai era dessa espécie - falou Ana.
- O meu também - confessei.
Nossos olhares se cruzaram no ar. Ana e eu. Como nos conhecíamos tanto e há tão pouco tempo? Seríamos verdadeiros ou falsos? Eternos? Nomes escritos num caderno e apagados por uma lágrima?
- E por que o seu nome é Z? - perguntou ela.
- Economiza letras. E desgostos. Uma letra só não tem sentido.
Em sua mesa, o escritor sorriu.
- Ou tem muitos - falou Ana.
Deixei algumas moedas sobre a mesa e fomos para a rua. O escritor nos lançou um olhar e uma despedida silenciosa. Algumas senhoras suspiraram, aliviadas. O garçom instalou outro casal em nossa mesa. Contornamos uma praça e em seguida subimos ao meu quarto. Ana sentou-se à janela e a lua se acendeu, amarela e redonda. Eu estava feliz: uma mulher - Ana - e a lua.
- Você existe? - perguntei, rompendo o silêncio.
Ana sorriu, trepidante. Seus seios balançaram com fúria.
- Por que destruir o que pode ser belo com palavras tão estúpidas? - falou ela, irritada.
Palavras. Abracei-a e lambi os seus lábios. Gosto de papel velho, mas quente. Na cama, entre os lençóis, a lua: um convite.
Na madrugada, o livro saltou-me dos sonhos. Por que eu não poderia lê-lo nem tocá-lo?
Encontrei-o esquecido no chão. Ana ainda dormia. Lembrei-me das suas palavras mas não pude resistir à curiosidade. Procurei então a última página e li:
- Ana já sabia, já esperava. Conhecia os homens. Mesmo assim, sentiu-se ferida pela traição de Z e partiu. Nenhuma lágrima. Só dor. Uma dor antiga. A multidão então devorou seu rosto. Mais uma vez.
3
Estou no centro do quarto, exatamente. Sozinho. Um livro morto em minhas mãos. As paredes, que são o meu mundo, me ignoram. O mundo dos homens reais me ignora. Porque eu só existo nestas páginas. Porque eu sou Z. Porque eu sou Ana. Porque eu sou nada.
O ilustríssimo senhor presidente, graças a Deus, acordou de bom humor. Rumores dão conta de que ele até bom dia falou. Para poucos, é claro, mas ainda assim.
O craque de futebol Fenomenal piscou 12 vezes com o olho direito. Com o olho esquerdo, ninguém sabe. Mas fontes seguras informam que ele piscou com o tal olho.
A noiva do craque citado acima, dizem, andou piscando também. Só não se sabe se foi com o olho direito, com o esquerdo ou com o outro.
A primeira-dama do Burza, hoje pela manhã, levantou a mão esquerda. Mas foi um gesto tão rápido e discreto que nenhum fotógrafo conseguiu registrar. Sendo assim, peço desculpas. De repente, como é comum acontecer, é possível que a senhora tenha levantado a mão direita. Ou as duas. Mas esse é mais um dos mistérios da Nação, os quais não posso julgar e muito menos prever. Coisas assim acontecem.
O ilibado ministro da Fazenda apertou a mão do ilibado ministro do Interior. Não sabemos ao certo o que isso significa, mas uma coisa é certa: aí tem.
Duzentos e vinte funcionários do Palácio do Governo almoçaram hoje. Um deles, entrevistado por mim, garantiu: almoçaremos amanhã também. Se Deus e o presidente assim o permitirem.
Os cientistas do Burza garantem que o dia de hoje vai acabar de noite. A margem de acerto, segundo as últimas notas, é de 100%.
O reservatório de oxigênio do Burza acusou hoje um consumo aproximado de 450,000 metros quadrados. Isso é muito bom: em nenhum outro lugar do mundo se respira tanto e com tanta liberdade quanto aqui!
O setor de devolução do ministério da Comunicação registrou a devolução de 514 palavras defeituosas. Entre elas, 314 palavrões cabeludos, 100 com erros ortográficos e outras 100 cuja interpretação não ficou bem clara. Nenhuma palavra de protesto foi devolvida. O governo gostou. Para o ministro das Comunicações, isso significa que o povo está aprovando o novo modelo de governo. Eu tenho cá as minhas dúvidas. Pra mim, o povo do Burza está guardando as palavras de protesto para usar no momento oportuno. Mas essa é apenas a minha opinião - e isso somente a História poderá comprovar.
há tempos
um corpo talhado
a treva e luz
uma voz de pedra
que me escorre
pelas pernas
até o infinito
espelho do céu
que
mudo
nada reflete
exceto a expectativa
do silêncio.
2:-
mãos dadas
com o vento
um sorriso de facas
e um ligeiro
rumor de rosas
em meus ossos.
3:-
viajante
percorro as costas
do sonho
pleno das incertezas
daquele que cavalga
um corcel de nuvens
em terra firme.
4:-
aqui
sem espelhos de sol
aqui me reconheço
nos vãos
da tua lembrança:
fogo imóvel
que me assalta
sem pudor e feroz
dentro da noite
mais antiga.
5:-
o sal
das minhas palavras
os tempos
dos quais já me esqueci
a fúria da carícia
inexistente
tudo isso aponta
para o efêmero
mar do desejo
no qual
náufrago contumaz
me perco como aquele
que veio para ser
e nunca foi.
6:-
e do meu peito estéril
uma única afirmação:
sim, nenhuma mulher.
Anos & anos comendo dormindo respirando literatura. Correndo atrás do próximo texto, do texto melhor, daquele texto difícil que por vezes me escorregava da mão.
Muito tempo, confesso, brigando com as palavras. Extraindo um pouco de luz da escuridão. Efêmera luz, diga-se.
Porque escrever é estar constantemente no escuro. Às vezes pinta um palito de fósforo. E só.
Mesmo assim, continuei. Um louco tentando alcançar as nuvens aos saltos.
Hoje fui colhido por um sentimento nem tão novo assim, algo que volta e meia dá as caras: "Pra que isso?".
Pra que isso? Não paga as minhas contas, não me traz mulher, só um pouco de prazer. Pra que isso?
Desistir de escrever, nessa altura da minha vida, considero difícil. É um vício dos mais antigos; antes do texto acho que veio a punheta. Tudo o mais aconteceu a partir daí. Desistir, portanto, é improvável. Mas vou largar mão de ser besta! Não vou mais ficar correndo atrás. Fazendo força. Se o texto quiser, ele que me procure. Sabe muito bem o meu endereço.
Agora vou ficar por aqui, coçando o saco, esperando. Que venham os textos! Ou não. Foda-se.
(O curioso é que eu preciso escrever um texto pra dizer que não tô mais nem aí com os textos...)
- Conhece aquela situação na qual você não tem mais o que tinha e nem sabe se vai voltar a ter?
- Conheço.
- Sabe quando as pessoas te conhecem pelo número do seu cartão de crédito e não pelo seu nome?
- Sei.
- Já chegou a pensar que procurar emprego é mais difícil do que encontrar agulha em palheiro?
- Pensei, sim.
- Já abriu o jornal e chorou?
- Já.
- Tirou seus filhos da escola particular, botou na estadual, depois mudou pra municipal, e agora eles estão trancados em casa porque não podem ir à escola por causa da violência?
- Conheço isso aí.
- Já foi barrado na porta de algum hospital porque não tem plano de saúde?
- Muitas vezes.
- Já saiu de casa com o dinheiro do assaltante separado?
- Hoje mesmo!
- Pois é, sabe como é o nome disso?
- Não.
- Democracia.
- ...e aí? E aquele seu ex?
- Menina, o cara agora só vive metendo o pau em mim. Por trás!
- E aí?
- Uma delícia! Se ele tivesse feito isso antes, acho que a gente nem tinha separado...
Desde muito cedo aprendemos que lá fora é perigoso. O maior medo da nossa infância sempre foi lá fora. Aqui dentro, sempre o medo. Todos os monstros reais e imaginários viviam em lá fora.
Cresci, como os demais, com medo de lá fora. Um medo tão intenso que me impedia até de imaginar o que se escondia nas sombras daquele lugar tão distante e ao mesmo tempo tão próximo.
Mas um dia, sem mais nem menos, durante uma conversa informal, a pergunta me veio inteira:
- Mas será que lá fora é mesmo tão perigosa assim?
Todos se calaram, foram embora, assustados. Fiquei só.
E só estou agora: minha família me abandonou, os amigos me evitam. Estou aqui dentro, é um fato. Mas para todos os outros é como se eu estivesse lá fora.
Hoje foi um amanhecer diferente no Burza: o raiar do sol trouxe uma novidade. Trata-se que uma caravela apareceu repentinamente em cima do telhado da prefeitura. Juntou gente de todos os cantos, até a imprensa internacional compareceu. E o povo todo do Burza constatou, boquiaberto, que as prefeituras, apesar das fantasias que as rodeiam, existem de fato.
O Excelentíssimo Senhor Presidente da República do Burzaquistão cagou ontem normalmente. A Bolsa de Valores fechou em alta. Resta saber se uma coisa guarda relação com a outra.
A seleção olímpica do Burza retornou ontem de mais uma campanha vitoriosa. Os atletas serão recebidos logo mais às 19 horas no Palácio do Governo. As medalhas, principalmente as de ouro, estão guardadas em lugar seguro, graças a Deus. Não é bom facilitar, vocês sabem.
A maior audiência da TV burzaquistanesa foi registrada anteontem: 102.745.123 domicílios ligados na final do terceiro campeonato burzaquistanês de cuspe à distância.
A atriz Marianna Volúbel deu à luz na última segunda-feira. Duas crianças de uma só vez. E um anão de 40cm chamado Igor, poliglota, arquiteto e poeta bissexto.
A Secretaria de Esportes e Turismo do Burza contratou 12 mergulhadores, comprou dois submarinos suecos e está negociando a compra de dois navios de guerra para patrulhar a costa. O detalhe é que em Burza, como todos nós sabemos, não tem costa. Nem oceano. O ministro das Relações Exteriores, que não é nada besta, disse que dá pra importar. Vamos ver.
O sexo anal foi liberado no Burza - desde que praticado entre quatro paredes. A população, aliviada, aprovou a medida. Antes, sexo anal só podia ao ar livre.
A Assessoria da Primeira-Dama do Burza abriu ontem as inscrições para o concurso de Amante Oficial do Estado. São 5 vagas ao todo. Os aprovados terão direito a todos os benefícios da função e mais um abono extra dado pela própria Primeira-Dama. É sabido que uns serão mais abonados que outros, mas essa condição é a garantia da mais plena democracia, o que é, afinal, o objetivo de todos nós.
Se levarmos em conta que o atendimento bancário é péssimo, as taxas, altíssimas, e o desrespeito ao cliente impera como norma, podemos concluir o seguinte: