UMA LONGA HISTÓRIA
Após muitos anos de ensaios exaustivos, o bailarino virou a cabeça para a sala escura do diretor e perguntou:
- Ainda não está na hora do espetáculo?
O diretor, acordado pela voz do bailarino, respondeu sonolento:
- Ainda não. Ensaie, ensaie - e tornou a dormir.
O bailarino permaneceu ensaiando por mais quatro anos, ao fim dos quais repetiu a mesma pergunta. O diretor, outra vez acordado pela voz do bailarino, repetiu também as mesmas ordens e voltou a dormir.
Dez anos mais se passaram. O bailarino, já no auge da sua técnica, perguntou novamente:
- Ainda não está na hora do espetáculo?
- Está quase - disse o diretor, mudando de posição na sala escura. - Não ouve o rumor da platéia do lado de fora?
O bailarino não ouviu rumor nenhum, mas imaginou. Viu, com os olhos fechados, as pessoas lotando o teatro, sentiu na pele o calor das luzes e ouviu também os aplausos. E continuou a ouvir os aplausos até mesmo depois de abrir os olhos, o que lhe proporcionou energia suficiente para ensaiar por mais vinte e cinco anos.
Já cansado e velho, o bailarino perguntou então pela última vez se ainda não era hora do espetáculo. Devido ao seu sono pesado e profundo, o diretor só percebeu que lhe fora feita uma pergunta três anos mais tarde. Espreguiçando-se, lançou um breve olhar sobre o palco e, ao vê-lo vazio e escuro, julgou que o bailarino estivesse se preparando no camarim.
Quatro meses depois, finalmente, o diretor abriu as portas do teatro. O público, que esperava com ansiedade para assistir a à performance do grande bailarino, levou exatos dois dias para ocupar todas as poltronas da platéia.
No momento em que as cortinas foram abertas uma chuva de aplausos atingiu o palco. O público, feliz pela oportunidade única de assistir a tão grandioso espetáculo, aplaudiu ainda por muitas horas, até que a luz dos holofotes revelou, no centro do palco, as sapatilhas abandonadas de um ex-bailarino.
por PARREIRA às 11:15 PM Comente aqui!
O JOGO
Mesmo porque correr seria bobagem. Sei dele há anos e, de mim, ele sabe o suficiente. Sempre soube. A segurança como me segue. Houve tempos em que ele disfarçava, tirava um cigarro do bolso, essas coisas. Depois, perdeu o medo. E medo, aliás, não era. Uma prudência. Nunca se sabe, comigo poderia ser perigoso.
Logo, bem cedo ele percebeu: eu não ofereceria resistência. Como agora. Correr pra quê? Nem apressar o passo eu vou. E ele pode se ocupar das borboletas que voejam aqui e ali, pode até parar na esquina para uma cerveja ou duas. Ele sabe, sabemos: estarei lá, mas não à espera como um boi, ruminando perguntas inúteis.
Cairá a noite, com certeza, e estaremos os dois, como há séculos, debruçados no parapeito da janela, espiando o movimento da rua. Veremos pela milésima vez o navio partindo em direção ao nada, o anão que cospe pianos, as bailarinas tailandesas que repetem há cem anos a mesma coreografia. Em silêncio contemplaremos um céu de intenso vermelho, que se diluirá até não restar nada além da lembrança. Fizemos isso ontem, amanhã será igual.
Enquanto eu estiver nesta terra ele estará por perto. Dez passos atrás, observando borboletas, ou ao meu lado acenando para o navio que parte.
Jamais lhe perguntarei o nome. Porque sei quem ele é, da mesma maneira que ele sabe quem eu sou. Somos, no fundo, dois sujeitos bem educados e esse é o nosso acordo: ele me persegue, isso o mantém vivo; e eu vivo porque o deixo me perseguir. Um jogo. Ridículo, mas tão digno quanto qualquer outro.
Se algum dia me alcançar, ele perderá a razão de ser. E eu serei obrigado a contemplar navios e anões e bailarinas, sozinho, o que, convenhamos, não tem a menor graça.
por PARREIRA às 6:19 PM Comente aqui!
Segunda-feira, Outubro 04, 2004