...mudei, pois, do PFL para o PMDB. Tava me sentindo desvalorizado no partido, sufocado, uma coisa assim que me apertava a alma, quase depressão, se é que o doutor me entende. Já no PMDB, ah!, não, me senti pleno, um homem à altura do meu cargo... até a primeira votação. Não ouviram as minhas palavras, não aproveitaram as minhas idéias, não queriam a força da minha voz. Mudei, pois, para o PTB.
Voltei, como o doutor há de compreender, a respirar como um homem deve respirar. Com todos os direitos, se é que se pode falar assim. Mas aí me deu um chilique, sabe como é, gente da minha espécie de vez em quando surta por nada, ou por muito, dependendo do caso. No meu caso foi frescura mesmo, porque sou assim desde que mudei pela primeira vez...
- E mudou por quê?
- Aventura. Mudar significava pra mim aventura, novos ares, liberdade. Não nasci para ser pássaro, ficar em gaiola, muito menos gaiola partidária. Daí que acabei pegando gosto pela coisa. Em dez anos de vida pública mudei mais de 20 vezes de partido, uma média de quase duas mudanças por ano, veja só. Claro que não foi tudo assim tão matemático. Só em 2001 mudei seis vezes de casa e de ideologia.
- Seis mudanças em um ano por aventura?
- Isso foi no começo, doutor. Eu era jovem, inexperiente, quase honesto. Depois de algum tempo só uma coisa faz a gente mudar com tamanho empenho: vantagem. Qualquer uma: um pouco a mais de gasolina por ano, mais verba para os assessores, que são caros e cobram mesmo, um salário mais digno. Talvez o senhor não saiba, mas alguns partidos não valorizam o nosso trabalho. Pagam uma merreca. Tá bom, dizem que quem paga é o povo, mas o cheque mais recheado, aquele que interessa, sai mesmo é do partido. Hoje eu vou sempre na direção de quem paga mais. Seja de que política for. Perdi o escrúpulo. Tanto faz se é de direita, esquerda, centro, o caralho! Sou puta da Câmara, mosca de bolo: tô sempre voando no lugar que tem mais doce.
- Mas me parece que o senhor não tem arrependimento algum do que fez, do que está fazendo. Não sei a razão pela qual está procurando ajuda em mim.
- Quem se arrepende não tem lugar na política, doutor. Os grandes, pergunta pra eles se algum se arrepende do que fez... Vai ouvir sempre uma conversa outra, diversa, que sai pela tangente com a mesma facilidade com que a grana foge pelo ladrão. Fosse eu de outra natureza, frouxa, conformada, agora não estaria aqui lhe pagando uma fortuna só pra me ouvir; estaria talvez mofando atrás de uma mesa de escritório, de banco, vendendo melancia na feira, comendo o pão que o diabo amassou. O pão, hoje, quem amassa sou eu. Azar de quem vai comer, porque não é da minha conta.
- Bem, diante dos fatos, só posso concluir que a sua natureza é torta, que o senhor despreza seus próprios eleitores, e que não demonstra a menor inclinação de mudar.
- Engano seu, doutor. Ainda esta semana vou mudar de partido. Consegui umas vantagenzinhas muito vantajosas em outra casa.
- Eu quis dizer que o senhor não quer mudar de atitude, não quer se tornar uma pessoa mais digna.
- Depende, doutor. Se o pagamento for bom, as vantagens volumosas. Eu mudo de atitude. Se bobear, mudo até de mãe...
- Pai, hoje eu vi Deus na escola.
- É mesmo? E como ele era?
- Bonito.
- Bonito como?
- Ah, de barba branca.
- Barba branca não é o Papai Noel?
- Papai Noel é amigo de Deus.
- Quem você viu, então? Papai Noel ou Deus?
- Deus.
- Ele era como? Grande, pequeno?
- Grandão.
- Grandão como?
- Grandão como você, pai.
Não o conheci devidamente, apenas de passagem. Pra ser mais especifico, apenas por uma noite, trágica e hilária noite.
Foi no Rio, Ipanema, 1981. Eu estava fazendo a contramão do Vinícius, que vinha a São Paulo pra se divertir. Ele, claro, Vinicus de Moraes, poeta estabelecido, vinha de táxi. Temia aviões e qualquer coisa que voasse, inclusive borboletas. Um poeta dedicado a delicadeza e medroso da borboleta, mais delicado impossível. Bem, mas assim são os homens, os poetas.
Bem, voltando, enquanto ele vinha de táxi, eu ia de ônibus mesmo, porque não tinha dinheiro pra táxi e muito menos para avião.
Eu era um garoto. Me achava jornalista, escritor, mas a minha tendência mesmo era para a boemia. Fui ao Rio não atrás de matéria, nem de inspiração. Fui atrás de uma bebida fácil e farta e de mulher. Tanto que cheguei a Ipanema, passei pelos bares famosos e saí fora. Meu capital não pagaria uma cerveja sequer no Antonio's, por exemplo.
Acabei num cu de porco sem nome, onde se bebia por pouco e se via alguns, alguéns interessantes.
Sentei, pedi uma Antártica (era isso o que eu bebia na época), e fiquei lá observando. E de repente me aprece o cara:
- Paga um uísque aí. Tô duro.
Respondi:
- Tenho pro uísque não. Senta aí e toma a cerveja comigo.
Ele sentou e se apresentou. Carlinhos de Oliveira, o jornalista mais inteligente do Rio.
Entabulamos uma conversa e ele se revelou mesmo muito inteligente. Espirituoso, divertido.
Mas o acaso invade as portas, rompe o estabelecido. O acaso, no caso, foram dois assaltantes que entraram no bar de arma em punho e já chegaram chegando:
- Todo mundo pro banheiro!
E fomos todos pra lá, sem alternativa, avec Carlinhos de Oliveira. No momento de maior tensão, enquanto nós ouvíamos os bandidos quebrarem coisas e estourarem a caixa, o Carlinhos berrou:
- Seu ladrão, aproveita e leva todas as contas que eu pendurei!!!
Meia hora depois, quando tudo silenciou, arrombamos a porta do banheiro e saímos. Os bandidos foram muito gentis e levaram tudo, inclusive o que estava pendurado. Carlinhos, é claro, se saiu assim:
- Ainda bem que eram profissionais. Não sei o que seria de mim se fossem amadores...
Foi assim que eu conheci o cara. Bebemos até de manhã, eu paguei, e depois não o vi nunca mais.
Mas esta matéria AQUI traz o cara novamente. Vocês devem conhecê-lo.
(E, antes que me perguntem: sim, eu tenho 200 anos e conheci todo mundo)
Este não é, definitivamente, um flash tosco. Muito pelo contrário: é bem realizado e tudo.
Mas é escroto. Pra caralho.
Cliquem na imagem abaixo e confiram.
Um gentil oferecimento da
Fernandinha,
que vocês devem conhecer.