2006 tá quase no ralo.
Não sei ao certo quem veio aqui, mas quem veio foi bem-vindo.
Só quero desejar aos amigos que tudo seja melhor. Sempre, e não apenas no próximo ano.
E, pra finalizar, uma mensagem:
A rotina tediosa do escritório. Um porre, calor e saco cheio, todos os dias.
Ao meio-dia, religiosamente, lá vinha ele:
- Vamo cumê, Fulano!
Ao Fulano não restava outra alternativa a não ser acompanhar o outro. E comiam os dois com a urgência dos desesperados. Entupir o estômago para esquecer da própria alma. Molhar a goela com a cachaça amarga da repetição.
Fosse qual fosse o almoço, sempre o mesmo sabor. De nada.
Dia após dia, mês após mês, ano após.
Mas eis que então um acontecimento desprovido de razão e sentido, avulso no universo das coisas, acidental como a colisão de colibri com jacaré insere na vida uma nova ordem. Por conta sabe-se lá de qual lapso, das vozes inaudíveis dos espíritos de Madagascar, da putaquiuspariu, a vírgula, sempre aplicada rigorosamente após o verbo comer, pois é, essa vírgula ordenadora das coisas e do todo, essa virgulinha cretina um dia resolve sumir, e dá à frase um colorido até então inexistente:
- Vamo cumê Fulano!
O Fulano, agente passivo desde sempre, sente-se sacudir por uma descarga elétrica surpreendente. Seus pensamentos em linha reta de repente se embaralham e sua voz cospe palavras que ele mesmo desconhecia em seu limitado vocabulário de escritório:
- Vamo cume Fulano o caralho!!! Sou home, porra! Esse negócio de dar a bunda não é comigo não!
Ao outro coube apenas a perplexidade. Não sabia o paradeiro da vírgula que sempre estivera presente em sua frase, sempre solidária em anos a fio de almoços e desesperanças. Uma vírgula caprichosa que assim, sem mais nem menos, resolvera sumir para colocá-lo em situação constrangedora.
- Não foi isso o que eu quis dizer - falou. - Mas a vírgula, sabe como é, ela se foi...
- Vírgula a puta que o pariu - berrou o Fulano. - Eu entendi muito bem.
E passaram o dia assim, os dois, cada um no seu canto ruminando desaforos e desculpas, mágoas e reconciliações. Em silêncio. E com uma puta fome, porque o almoço foi pras cucuias.
À noite, na solidão do seu inferno particular, Fulano, enfim, ponderou: pensando bem, a ausência da vírgula poderia talvez trazer algo de novo ao seu universo cinza, colorir o seu tédio. Comer ele, Fulano, porque não? "Vamo cumê Fulano!" A fuga da vírgula, portanto, ou sua ausência, poderia afinal ser algo inovador, revelar um território até então inexplorado.
Partiu para o escritório na manhã seguinte, ele, Fulano, sentindo-se renovado. Um novo homem, afinal! Nem mais tão homem assim, ora que se dane!, mas sabedor que daquele dia em diante os almoços jamais seriam os mesmos.
Dias atrás, Lula declarou que alguns homens, a partir de certa idade, deixam de ser de esquerda.
Sei não. Ao que parece, alguns homens deixam de ser de esquerda quando se tornam presidentes...