PALAVRAS, PALAVRAS...
Ah, mas que coisa! Este mundo é um infinito de palavras, coisas todas com seus nomes, nomes criando outros nomes e teceteretal. Muitos nomes, muitas palavras. Desde sempre soube da importância das palavras, desde muito cedo. A minha primeira palavra, claro, não sei qual foi. Mas tenho uma lembrança muito presente de que foi difícil. Um esforço conjunto: boca e músculos. Sim, porque falar sempre me pareceu uma escalada. Letras são degraus; quanto maior a palavra, mais longa a escalada. Fui, portanto, subindo, escalando, pelos anos afora. Adentro, se quiserem. E das palavras, sei lá qual a razão, conheço muito mais o lado áspero, o lado pedra das palavras. Porque não há escalada macia e sem percalços. É sempre o contato da pele, dos ossos, o doloroso contato da alma com as palavras. Já a doçura das palavras eu quase não conheço. Um luxo, eu diria.
Mas como todo mundo, afinal, eu aprendi. Extrair palavras do mundo. A muito custo, é verdade, porque palavras também são caras. Muito caras. Algumas custam a vida. E às vezes, como o dinheiro, as palavras faltam. A mim faltaram desde sempre.
- Não sei mais o que falar - disse eu uma vez a um amigo.
O sujeito era um cara sabido que, a meu ver, nunca tivera problemas com nada, muito menos com palavras. Aliás, ele as manejava muito bem, sempre com todos os esses e erres, acentos e entonações. Dava gosto ouvi-lo falar. E angústia também: de onde ele tirava tantas palavras belas e apropriadas, cada uma parecendo especialmente talhada para a ocasião e assunto?
- Eu as tiro do bolso - falou ele. - Porque as palavras podem estar em qualquer lugar.
Juro por Deus, caralho!, nunca tinha pensado assim. Claro, as palavras estão em qualquer lugar, todo lugar. E se ele as tira do bolso, eu posso tirá-las do nariz, do sapato, por que não?
- Não é tão simples assim - ele retrucou. - Antes, é preciso cativar as palavras, ganhar a sua confiança. As palavras são bichinhos tímidos, escorregadios. A mais leve desconfiança por parte delas faz com que desapareçam. Às vezes, para sempre.
Claro, as palavras não confiam em mim. Por isso a minha luta de uma vida inteira, por isso a escalada. Sempre conquistei as palavras à força; por isso talvez a ausência de doçura e a escassez.
- E como é que eu conquisto as palavras? - eu quis saber.
- Sei lá - ele falou. - Se vira.
Meu amigo sabido, um gentleman, como se pode perceber.
Mesmo assim, apesar da gentileza dele, eu fui procurar as palavras, a conquista das palavras. Vocês podem até achar que eu sou maluco, mas me justifico: enquanto alguns dão importância aos seus carros novos, novos imóveis, às mulheres da moda e tecetera, eu quero as palavras. Sempre quis. Do café da manhã ao jantar, do adormecer ao despertar. A razão disso talvez lá com Freud. E foda-se a rabiola. Não procuro sentidos nem juízos; procuro palavras. E um dia, finalmente, como todo mundo que procura (ou escala, se acharem melhor), eu as encontrei! Da maneira mais besta.
Numa calçada esburacada do centro da cidade, Tump!, pronto, enfiei o pé num buraco ridículo e caí de boca no chão. Soltei meia dúzia de palavrões, como exige o momento, mais caralhos e putaquiparises - quando ouvi às minhas costas, vindo das profundas do buraco:
- Por isso que você não consegue nada com a gente. É um cavalo ignorante!
- Ignorante é a tua mãe! - eu retruquei com muita propriedade. - E quem é você que tá falando?
Não havia ninguém por perto, apenas um ou outro transeunte olhando para este que vos escreve. Decerto me consideravam desmiolado, falando sozinho diante de um buraco de rua.
- Você não está falando sozinho - novamente a voz. - Você está falando conosco.
Aproximei-me (minha vontade era escrever me aproximei, mas a minha camisa de força verbal me impede de certas liberdades) do buraco e foi então que vi, pela primeira vez na vida, a mais bela família de palavras do mundo! Palavras com tranças, palavras floridas, bronzeadas, loiras, de batom vermelho, mini-saias, bocas carnudas... Porra!, palavras fêmeas aos milhares, todas ali, contidas naquele buraco ordinário!
- Ordinário nada - disse uma delas. - Você tropeçou neste buraco por uma razão: não vivia procurando palavras que atendessem às suas necessidades, palavras para suprir o seu pobre vocabulário? Pois é, estamos aqui por sua causa! Acabaram-se os seus pobremases.
- Acabaram os meus problemas, é? Mas, pelo que eu sei, eu devia conquistá-las, vocês. E tudo o que eu fiz foi tropeçar...
- Porque você é um pateta. E acho que foi essa patetice sua o que acabou nos conquistando.
Palavras, palavras... Tão misteriosas e imprevisíveis quanto as mulheres.
Devo confessar: desde o dia em que descobri o lugar onde encontrar as palavras, minha vida mudou. Pra melhor. Passei a falar com mais desenvoltura, nenhum assunto ou situação me embaraçavam. Qualquer probleminha verbal bastava ir até o buraco e pescar a palavra mais adequada. E elas estavam sempre lá, solícitas, à minha disposição. Se precisasse de uma única palavra, ok. Mil palavras, também. Algo assim como uma conta corrente de saldo inesgotável. O sonho de todo escritor.
E assim fui explorando as palavras, dia após dia, meses a fio, anos sem conta. Nunca nenhuma reclamação por parte delas. E também nenhum agradecimento da minha parte. Usava as palavras como lenços de papel, coisas descartáveis. Mas não me dava conta. As palavras, pelo menos as daquele buraco, eram minha propriedade, podia fazer delas o que bem quisesse.
- Cuidado com as palavras, xará - falou o meu amigo sabido. - Elas são temperamentais.
Não liguei para a observação. Nunca. Usava as palavras para os fins mais torpes, enganar, convencer, extorquir. Um mau uso, claro que sim. Mas eu não tava nem aí.
Até o dia em que conheci Marlene. Ela não era exatamente uma mulher bonita: tinha um olho torto, sei lá, mais inclinado para a direita que o normal. Mancava da perna direita também. A bunda celulítica. E suas mãos não eram nem um pouco delicadas, pareciam mãos de homem. Mas havia algo naquela mulher que me engasgava, me fazia suar e pensar delícias. "Marlene, minha deusa, como expressar o amor imenso que eu sinto por você?".
Pois é. Nesse momento, pela primeira vez em muitos anos, me faltaram as palavras. Senti um pavor imenso, mas me lembrei que no buraco sempre havia mais do que eu precisava. Fui lá, ansioso feito um adolescente, a cabeça girando na escolha das mais belas palavras que ofertaria de coração para a minha amada. No buraco, porém, ao invés de palavras encontrei apenas água, água suja de chuva.
- Ó, carái!, cadê minhas palavras? - gritei desesperado.
Nenhum bilhete de despedida, nenhuma pista, nada. As palavras simplesmente sumiram. Aí apareceu então o meu amigo sabido, já sabedor do acontecido:
- Não te disse, mané, que um dia as palavras iam te dar um pé na bunda? Se lascou!!!
- Mas elas não podiam fazer isso comigo! E agora, a Marlene, como é que eu vou dizer, mostrar pra Marlene como é grande o meu amor?
- Sinto muito, meu amigo, mas isso você não vai dizer jamais, nem pra Marlene nem pra nenhuma outra mulher. Sem as palavras adequadas, você nunca conseguirá falar do seu amor.
O miserável tinha razão. Há tempos usava palavras como papel higiênico, sem respeito, sem cuidado ou carinho. Usava apenas, com desprezo e arrogância. E elas nunca me cobraram nada. Nunca. Mas tudo tem seu preço e seu tempo.
- Me surpreende que você nunca tenha percebido o óbvio, meu caro - falou o sabido.
- Que óbvio?
- Isso até um cachorro analfabeto sabe, meu chapa: as palavras sempre, SEMPRE mudam de lugar. As palavras que vêm facilmente facilmente se vão. E você nunca se deu conta disso.
Fiquei parado ali, diante do buraco vazio, por séculos. A imagem de Marlene se dissolveu. Eu mesmo já não sei qual a minha atual aparência. Sei apenas que agora sou incapaz de me comunicar com o mundo - porque, sem palavras, estou completamente mudo.
Nota do Parreira: O leitor mais atento deve ter notado que o desfecho dessa pequena história é um tanto nebuloso (a história toda, eu diria, mas isso não vem ao caso agora). O narrador afirma que não pode mais se comunicar com o mundo porque está completamente mudo. Muito bem. Queixa-se ainda de não ter mais as palavras. No entanto, como também deve ter percebido o leitor atento, tudo isso foi construído com elas, sim, as palavras, palavras essas que o narrador diz que o abandonaram. Um cara um tanto xarope, convenhamos. Mas não único: o filósofo francês Marleau Ponty escreveu um livro inteirinho falando da não-necessidade dos livros. Na sua opinião, os livros corrompem a pureza das idéias. É uma coisa a ser pensada, sem dúvida. Mas por causa desse livro que pregava o não-livro, centenas de outros livros foram escritos, o que nos mostra que esse negócio de lidar com palavras é mesmo um ofício de doidos.Não é?
por PARREIRA às 3:19 PM ||||| Comente aqui!
Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007
PFL AGORA É PD!
Algo, portanto, não me cheira bem...
Aliás, essa história de "nova roupagem" não sugere uma, digamos, aliança com o Clodovil?
por PARREIRA às 10:41 PM ||||| Comente aqui!
SEM TÍTULO (ainda)
Ah, mas que coisa! Este mundo é um infinito de palavras, coisas todas com seus nomes, nomes criando outros nomes e teceteretal. Muitos nomes, muitas palavras. Desde sempre soube da importância das palavras, desde muito cedo. A minha primeira palavra, claro, não sei qual foi. Mas tenho uma lembrança muito presente de que foi difícil. Um esforço conjunto: boca e músculos. Sim, porque falar sempre me pareceu uma escalada. Letras são degraus; quanto maior a palavra, mais longa a escalada. Fui, portanto, subindo, escalando, pelos anos afora. Adentro, se quiserem. E das palavras, sei lá qual a razão, conheço muito mais o lado áspero, o lado pedra das palavras. Porque não há escalada macia e sem percalços. É sempre o contato da pele, dos ossos, o doloroso contato da alma com as palavras. Já a doçura das palavras eu quase não conheço. Um luxo, eu diria.
Mas como todo mundo, afinal, eu aprendi. Extrair palavras do mundo. A muito custo, é verdade, porque palavras também são caras. Muito caras. Algumas custam a vida. E às vezes, como o dinheiro, as palavras faltam. A mim faltaram desde sempre.
- Não sei mais o que falar - disse eu uma vez a um amigo.
O sujeito era um cara sabido que, a meu ver, nunca tivera problemas com nada, muito menos com palavras. Aliás, ele as manejava muito bem, sempre com todos os esses e erres, acentos e entonações. Dava gosto ouvi-lo falar. E angústia também: de onde ele tirava tantas palavras belas e apropriadas, cada uma parecendo especialmente talhada para a ocasião e assunto?
- Eu as tiro do bolso - falou ele. - Porque as palavras podem estar em qualquer lugar.
Juro por Deus, caralho!, nunca tinha pensado assim. Claro, as palavras estão em qualquer lugar, todo lugar. E se ele as tira do bolso, eu posso tirá-las do nariz, do sapato, por que não?
- Não é tão simples assim - ele retrucou. - Antes, é preciso cativar as palavras, ganhar a sua confiança. As palavras são bichinhos tímidos, escorregadios. A mais leve desconfiança por parte delas faz com que desapareçam. Às vezes, para sempre.
Claro, as palavras não confiam em mim. Por isso a minha luta de uma vida inteira, por isso a escalada. Sempre conquistei as palavras à força; por isso talvez a ausência de doçura e a escassez.
- E como é que eu conquisto as palavras? - eu quis saber.
- Sei lá - ele falou. - Se vira.
Meu amigo sabido, um gentleman, como se pode perceber.
(continua)
por PARREIRA às 8:51 PM ||||| Comente aqui!
Terça-feira, Fevereiro 06, 2007