I - A FEIJOADA DE GUTENBERG
Dizem os historiadores que, por volta de 1436, o alemão Johann Gutenberg ficou de saco cheio de escrever seus textos à mão. Outra coisa irritava ainda mais o futuro inventor da imprensa: ler (traduzir) as centenas de manuscritos que lhe chegavam às portas diariamente. Era, segundo ele, um trabalhão danado, de extrema paciência, que requeria olhos atentos e dispostos e um saco descomunal.
Gutenberg, portanto, queria pôr um fim àquela tortura diária. Intuitivo, sabia que em breve abraçaria a feitura de diversos jornais e revistas pelo mundo afora, sem contar o Código Penal Brasileiro e uns tantos manuais da milenar arte do Kama-Sutra. Para atingir então seu objetivo, propôs sociedade a um seu amigo, João Riffe de Estrasburgo, um jovem empreendedor que se interessava pela filantropia, pelo jogo do bicho e pela exploração honesta da prostituição (1).
Riffinho, como era conhecido pelos mais chegados, adorou a idéia. Propôs ainda a abertura de um cassino e de uma buate GLS, mas foi prontamente advertido por Gutenberg:
- Inventemos primeiro a imprensa. Depois, a gente cria os jornais para divulgar os seus empreendimentos!
Riffe, claro, acatou o conselho do mestre, mesmo porque fazia todo sentido. De nada adiantaria montar um negócio sem ter um veículo para divulgá-lo.
Foi desta maneira que surgiu, em 1° de abril de 1436, a Gráfica Gutriff, de Estrasburgo, primeira no ramo em todo mundo. Não se sabe ao certo qual foi o primeiro trabalho dos sócios (cabe aqui uma observação: o único que trabalhava de fato era Gutenberg. Riffinho passava os seus dias em bordéis e casas clandestinas de jogos, coisa que não nos surpreende devido à sua notória inclinação para a esbórnia), mas diz a lenda que Gutenberg recebeu de muito bom grado uma encomenda de um cento de folhetos de Santo Expedito, padroeiro das urgentilidades. Um outro historiador da época, cuja História não registra o nome (eis aí uma das muitas ironias...), afirmou que a primeira encomenda recebida pela Gráfica Gutriff foi um lote de cédulas de 50 e 100 Euros. O mestre alemão teria recusado veementemente:
- Carstchek!!! (2) De jeito maneira! Como é que eu vou imprimir cédulas que só vão entrar em circulação daqui a 500 anos?
Isto dito e feito, o alemão seguiu o seu trabalho. Após os sacais folhetos de Santo Expedito, a gráfica passou a receber as mais estranhas encomendas: catálogos da recém-criada Avon, volantes da loteria esportiva, caixas de pizza... A todos os pedidos Gutenberg atendia com disposição, mas se queixava intimamente: "Riffinho filodaputa! Eu aqui me lascando e você aí no bem-bom!" (3)
João Riffe, no entanto (talvez pela primeira e única vez na sua breve vida), não estava exatamente no bem-bom. Não de todo, quero dizer. Num buteco de Berlim, após um puteiro de dinamarquesas e antes de uma rodada de gamão e gim, aceitou a encomenda de um finlandês que queria imprimir calendários pornográficos com meninas tailandesas adolescentes. A fotografia, é claro, ainda não tinha sido inventada naquela época, mas isso aqui é só um detalhe de somenos importância. Excitado, muito mais com as coxinhas e os peitinhos das meninas do que com a elevada soma oferecida, Riffe aceitou prontamente, certo de que o mestre Gutenberg aprovaria a sua atitude. E isso de fato aconteceu, alguns dias depois: Gutenberg ficou fascinado com as meninas, e conta a lenda que imprimiu o calendário do começo ao fim mantendo uma bruta ereção. Ninguém sabe se isso é vero ou não, e os estudiosos e historiadores, zelosos pela reputação do mestre, jamais afirmaram a coisa nestes termos. Uns e outros poucos reconheceram a existência do calendário, mas nenhum deles dá o documento como oficial. A nós resta apenas o calaboca comum nestas circunstâncias: não está na história oficial, não existe. O que é plenamente contestável, mas não é bem isso o que nos interessa agora.
Acontece portanto que Gutenberg imprimiu e entregou duas mil cópias do calendário ao finlandês, que se mandou tão logo botou as mãos e os olhos no farto material. Mas Gutenberg, que não era besta, guardou a matriz do calendário. Aquele seria um marco na história das Artes Gráficas, e era preciso pensar no futuro. Quem não pensava nem um pouco, muito menos no futuro, era Riffe: ele mesmo imprimiu meia dúzia de calendários e saiu com eles debaixo do braço.
- O que vais fazer com isso, ó, Riffinho? - perguntou Gutenberg.
- Publicidade - respondeu Riffe.
Como não havia televisão na época, o melhor lugar para se mostrar as novidades era nos butecos, ou tavernas, ou tenham lá o nome que for esses lugares de bebeção. Em sua mesa, Riffe, sufocando, mostrava os calendários a centenas de homens boquiabertos, que jamais em suas vidas puseram os olhos em tamanha maravilha visual. Dentre eles, um homem gordo e baixo, meio careca dos lados, suava copiosamente. Riffe, notando a sua timidez, pediu que se aproximasse e aproveitasse o espetáculo:
- Coisas assim o senhor só vai poder vislumbrar outra vez do século XX pra frente. Aproveite pois agora, ou esqueça-se para sempre.
Sem palavras, o homem se aproximou, depositou 5 mil dólares sobre a mesa e guardou um calendário para si.
- Vejo que o senhor - falou Riffe - é um homem de muito bom gosto! Leve pois essa obra de arte, e lembre sempre, sempre, que foi impressa nas oficinas da Gráfica Gutriff, de Johann Guttenberg e João Riffe, este modesto criado que vos fala.
Se fosse dez milímetros mais esperto, Riffe jamais teria falado o que falou, da maneira que falou e muito menos para quem falou.
*****
O bispo menor Antoine De la Rue era um sujeito calado e sombrio. Inexpressivo, para a maioria dos seus pares. Guardava, no entanto, e em segredo, uma grande ambição: crescer nas graças da Igreja, de uma maneira ou de outra. Nenhum escrúpulo, nenhum pudor. Apenas o verniz de suposta imbecilidade que o seu tipo calado imprimia nos demais.
O calendário adquirido de Riffe, portanto, poderia ser a sua escada, o ponto de partida para vôos mais altos. O material repleto de meninas peladas, pleno de sugestões eróticas, pornográficas mesmo, cairia como uma bomba na comunidade religiosa. Isso, sem dúvida nenhuma, acionaria a máquina do Santo Ofício, a Inquisição, que não mediria esforços nem recursos para punir devidamente os pecadores. Em decorrência disso, certamente, a influência de Antoine cresceria na Igreja. Um cargo mais elevado, melhor, mais dinheiro e, principal, maior poder. Tudo o que sempre sonhara. Nutria desde sempre um ardente desejo de se vingar de todos aqueles que lhe tornavam a vida um verdadeiro inferno, aqueles idiotas que o humilhavam publicamente todos os dias, que riam às suas custas.
O calendário, portanto, foi entregue ao cardeal de Estrasburgo, Karl Stokler, dois dias depois de adquirido. O homem, como é natural, achou tudo um escândalo, uma infâmia, mas não fez a menor questão de esconder a ereção provocada por tantas beldades postas de maneira inédita em material impresso. Material impresso, aliás, que era ainda pouco usual na sociedade de então. Iniciaram-se aí, paralelamente, as discussões a respeito da natureza maligna da imprensa, dos danos que poderia causar à sociedade como um todo, essas baboseiras todas que muitos ouvidos e bocas ocupam mas que porra nenhuma resolvem por se tratar de matéria estéril.
- E quem são os homens responsáveis por esta heresia? - perguntou Stokler - Um deles é Johann Gutenberg, eu sei, impossível não saber hoje a respeito dele. Mas há outro, outros?
- João Riffe - respondeu De la Rue, secamente. - Foi deste patife que tomei à força o material que apresento aqui.
Stokler, sem consultar o papa, investiu-se como inquisidor e mandou trazer os dois homens à sua presença. Felicitou ainda De la Rue pelo bom serviço prestado à obra de Deus:
- A Igreja não esquecerá de lhe recompensar. Tão logo eliminemos esses inimigos da fé, o seu caminho pelas estradas do Senhor será mil vezes mais luminoso.
De la Rue deixou o cardeal e instruiu a guarda a buscar os dois "inimigos da fé". Depois, retirou-se para seus aposentos, despiu-se de todas as roupas e ficou deitado em sua cama, observando por horas o membro ereto que se recusava a descansar. Ao contrário do que possamos pensar, o estímulo erótico não vinha das meninas do calendário. Vinha sim da idéia de vingança que em breve empreenderia contra os seus desafetos. "Daqui pra frente vou foder com todo mundo", pensou, e foi assim que adormeceu.
*****
Depois de imprimir o Weltgericht (Juízo Final), tido como o mais antigo testemunho da tipografia européia (tido mas não sido, como a gente bem sabe), Gutenberg se preparava para tomar um chope estupidamente gelado na taverna d'O Bode Ululante quando 17 soldados da guarda civil municipal estrasburguense invadiram a gráfica.
- Mão pá cabeça, vagabundo! - gritou o comandante da operação.
Sem outra alternativa, Gutenberg fez o que lhe fora ordenado. Mas perguntou:
- O que traz à minha humilde oficina tão nobres e distintos agentes repressores do poder público?
- Viemos aqui para cumprir ordens superiores. Nos mandaram prender e esfolar e estapear e fuder os dois meliantes chamados Gutenberg e Riffe. Conhece algum destes homens, ó vagabundo?
Gutenberg sentiu vontade de rir mas se conteve. Não era hora para gracinhas, ainda mais porque na mão dos soldados repousavam reluzentes Uzis pouco usadas. (4)
- Conheço o Riffe.
- Sabe o lugar onde o rato se esconde?
- Deve estar na taverna d'O Bode Ululante.
- Tem certeza?
- Não.
- Pois bem, vamos lá. Guardas!
Da mesma maneira que entraram, os soldados saíram da gráfica. Foram dar com os cornos todos n'O Bode, lugar selecionado, finamente decorado com mosaicos e outras frescuras, indicação 5 estrelas nas futuras revistas gastronômicas. Foi aí que um soldado teve um raríssimo momento de coerência:
- Comandante, o homem que nos deu o paradeiro de João Riffe era ele mesmo o próprio Gutenberg, em pessoa!
- O próprio?
- Todinho. E nós deixamos de prendê-lo.
- Voltemos lá agora para efetuar a prisão.
- Mas aí - continuou o soldado - a gente perde o Riffe.
- Então prendamos o Riffe aqui - falou o comandante.
- Dessa maneira perderemos então o Gutenberg...
Abriu-se aqui uma das mais delicadas questões filosóficas de todos os tempos: se prendessem um, perderiam outro; se prendessem o outro, perderiam o um (dizem até que aquela história de se correr o bicho pega, se ficar o bicho come nasceu aqui, mas ninguém tem provas suficientes a respeito). O que fazer? Claro, bastava prender um aqui e depois o outro lá, mas esse é o tipo de reflexão que não se pode exigir a qualquer um. Os soldados, portanto, se largaram a uma árdua disputa intelectual e, como usar o cérebro invariavelmente seca a garganta, mandaram descer três barris de chope com mais duas garrafas de uísque Ballantine's 18 anos para pôr fim à questão.
Não muito longe dali, numa mesa mais ao fundo d'O Bode, estava Riffe, ligeiramente atordoado pelos muitos e variados goles de tudo quanto é etílico, observando a confusão estabelecida entre os soldados. "Esses idiotas querem me prender mas não sabem quem eu sou. Eis aqui a minha oportunidade!"
Molhando a garganta com o último gole de genebra (último até o próximo, é bom que se diga), Riffe se levantou e se aproximou da mesa onde os soldados entornavam canecas e mais canecas de chope e discutiam estratégias mirabolantes para prender os meliantes. Apresentando-se como Hyeronimus Bosch , mercador itinerante de armas e munições, Riffe largou essa pra cima dos homens:
- Se os senhores me permitem, a melhor maneira de prender esses aí, o Gutenborg...
- Gutenberg! - corrigiu o comandante.
- Pois então, o Gutenberg e o filodaputa do Riffe, tenho cá a solução para os seus problemas. Sei exatamente como é que vocês prendem os dois sem esforço.
Os soldados todos se voltaram para o suposto mercador de armas. Com exceção, é claro, daqueles que já roncavam à força de tanto chope e uísque.
- Sou mercador, os senhores sabem - continou Riffe -, e faz dois dias que estive em Antuérpia, lá pros lados de Roterdão, ali na esquina do Brás com Copacabana.
A imagem de lugares distantes e exóticos povoou a mente dos soldados, que em suas vidas medíocres mal tinham passado dos limites de sua estreita cidade.
- E foi lá, exatamente lá que vi os dois, juntos, bebendo à larga e apertando os peitos das moças de aluguel. Afirmo isso para os senhores porque conheço Gutenberg. Todos no mundo conhecem o sujeito, a sua foto está em todos os jornais.
- O que são jornais? - perguntou um soldado.
- Algo que ainda vai ser inventado - respondeu Riffe. - Mas isso não vem ao caso. O importante é saber que estão lá os dois. De sabido mesmo é só o rosto de Gutenberg. O tal do Riffe, muito embora eu o tenha visto, não me lembro do seu rosto. Creio mesmo que ele não tem rosto algum, tão misterioso é o sujeito. E ninguém que eu conheço e com quem falei a respeito sabe como é o cara.
- Muito bem, senhor, senhor...? - falou o comandante.
- Bosh, Hyeronimus Bosch, ao seu dispor.
- E aonde mesmo a gente encontra os cabras?
- Na esquina do Brás com Copacabana, em Antuérpia, lá pras bandas de Avignon.
- Não era Roterdão?
- Que seja. Mas é tiro e queda: indo pra lá vocês prendem os dois!
Prontamente o comandante organizou os soldados ainda capazes de andar e saiu com eles porta afora. Pegaram o primeiro ônibus (ainda não inventado, evidentemente) para o Brás e desapareceram.
Embora sentisse uma vontade brutal de tomar uma Brahma, Riffe achou prudente correr até a gráfica e avisar Gutenberg sobre os acontecimentos.
- Já sei, Riffinho. Eles passaram por aqui. Estão atrás da gente e eu nem sei a razão.
- Nem eu. Acho melhor a gente procurar proteção.
- Tá. E quem vai nos proteger?
Riffe teve outra de suas idéias geniais:
- Gutenberg, o negócio é o seguinte:Te Deum gratias raiquiuspartam vobiscuum perseguidorum.
- Que raio de latim esquisito é esse?
- É um latim do tipo inexistente. E o que eu quis dizer é que Deus protege os perseguidos.
- O que é que você ta sugerindo?
- Que a gente se esconda na igreja!
Vejam vocês o que é que a ignorância é capaz de causar. E assim foram os dois, de mãos dadas, puros feito querubins, bater às sagradas portas do cardeal Stokler.
*****
(1) O nosso João Guimarães Rosa escreveu uma biografia de João Riffe de Estrasburgo. Nela, fica claro que esse negócio de filantropia era pura intriga da Rainha Risoleta de Brabsburgo, amante rejeitada por Riffe.
(2) Caralho!!!, em esloveno arcaico
(3) Como vocês puderam notar, neste pequeno período temos três expressões que certamente não se usavam na época. "Bem-bom" e "lascando", segundo filólogos das mais variadas procedências, jamais seriam utilizadas por Gutenberg, homem culto e educado. Já "Filodaputa", bem, filodaputa existia à época, sim. Filodaputa, aliás, existe desde sempre, vocês sabem. Mas os filólogos, por conta de um pudor misterioso, não quiseram trazer à luz a expressão correspondente utilizada naquele tempo. Mas que havia, havia.
(4) Aliteração horrorosa, concordo, mas ainda assim. O Cabrera Infante que era bom nisso.
(5) Bosch, a gente sabe, não era mercador de armas. Mas os soldados não sabiam.
(6) Cá pra nós: essa coisa de Riffinho é um tanto viadesca, não é? Gutenberg gay? Vai saber...
Continua...
por PARREIRA às 1:30 PM ||||| Comente aqui!
Sábado, Março 10, 2007
Bem, agora que o diabo (Bush) já foi embora,
só nos resta aguardar pelo anjo (o papa).
(se eu fosse tonto o suficiente, acreditaria que as coisas são assim... )
por PARREIRA às 5:27 PM ||||| Comente aqui!