(Continuação)
Neste momento os dois respiraram aliviados e, quando se preparavam para rezar (Gutenberg se preparava para rezar; Riffe observava as imagens de santos e ornamentos em busca de algo de valor), perceberam a entrada de um homem de vestimenta vermelha, muito alto, olhos dum azul embaçado e postura austera. Logo atrás dele um outro, baixinho, meio careca e suarento. Stokler e De la Rue.
- Sejam bem-vindos à casa do Senhor! - saudou Stokler a distância. - Esperávamos pelos senhores.
- Esperávamos - repetiu De la Rue.
Surpresos, Gutenberg e Riffe se aproximaram.
- Estávamos sendo esperados? Por quê? - perguntou Gutenberg.
Stokler, que de perto parecia medir mais de dois metros, falou:
- Johann Gutenberg, você o e seu amigo João Riffe são acusados de crime contra a fé cristã, pornografia infantil e tráfico de ecstasy!
- Que porra é essa de ecstasy, Gutenberg? - quis saber Riffe.
- Calaboca, Riffinho! Não vê que estamos encrencados?
De la Rue saiu de trás do cardeal e, enxugando a testa, começou a dizer:
- Pois foi esse mesmo o homem, cardeal, o homem a quem tirei aos tapas o pecaminoso material que o senhor tem em mãos.
Riffe, que até então não se dera conta do baixinho, mesmo porque o grandão Stokler cobria tudo o que estava atrás dele, subitamente entendeu do que se tratava.
- Gutenberg, aquele baixinho idiota e suadão comprou um dos nossos calendários!
- Comprou? Ele acabou de dizer que te tomou aos tapas.
- Nada! Ele estava numa taverna, tomando todas depois de ficar trancado três horas no quarto da Greta...
- Greta, a polaca delinqüente?
- Essa mesmo. Daí que ele chegou e botou cinco mil doletas na mesa e ficou com um calendário.
- Foi só isso?
- Só.
- E você não disse mais nada? Nenhuma besteira?
- Bem, eu disse que o calendário fora impresso na Gutriff... E isso não é besteira!
- Porra, Riffe, como é que você dá um calendário de tailandesas peladas prum bispo?
- Eu não dei, tá? Eu vendi. E como é que eu ia saber que o filodaputa era bispo?
Stokler, que ouvira atentamente a discussão dos dois, falou:
- Quer dizer então que os senhores confessam o crime!
- Que crime? - falou Gutenberg. - Não existe crime algum. Tenho um amigo que é advogado em Pernambuco e que me disse que, se não está no Código Penal, não é crime. Imprimir calendários com meninas tailandesas mostrando a bunda e os peitinhos está no Código Penal, senhor cardeal?
- N-não - respondeu Stokler, hesitante.
- Pois então! Como é que o senhor quer nos acusar de algo que nem está configurado como crime? Aliás, no Código Penal Brasileiro, que nem imprimimos ainda, mesmo que seja crime, nem sempre o crime é crime, compreendeu?
- Não.
- Nem nós. Mas é sabido que a lei não é a lei, mas sim as brechas da lei.
Stokler, que já estava ficando impaciente com essa conversa mole, bateu o pau na mesa (7) e falou:
- Não quero, senhores, saber dessa conversa de leis e não-leis. A única lei aqui sou eu e vocês estão presos e pronto!
- Estão presos e pronto! - repetiu De la Rue.
Gutenberg e Riffe ficaram paralisados. Não acreditavam no que estava acontecendo. E a liberdade de imprensa?, pensava Gutenberg, mas nada disso tinha valor então. A única coisa que lhes restava era resignar-se e se deixarem conduzir ao calabouço.
*****
A cela onde foram enfiados até que não era ruim: uma cama de casal redonda, king size, lençóis de cetim, e travesseiros extramacios bordados com a logomarca do Motel Agnus Dei. Além disso, pinicos de porcelana chinesa, toalhas de algodão, duchas corona e pantufas do patolino para ambos. Um luxo!
- O que será que tem pra comer? - perguntou Riffe.
- Seria bom uma feijoada - respondeu Gutenberg.
- O que é feijoada?
- Não sei ainda, mas a Noca do Zeca, lembra?, a Noca me convidou para uma feijoada com pagode qualquer dia desses. Assim que a gente sair daqui eu vou aceitar o convite.
Como se pode ver, Gutenberg era um verdadeiro otimista. Um sujeito com a Inquisição no lombo e ainda pensando em feijoada! Riffe, por sua vez, se ocupava apenas do imediato: queria saber o cardápio da hora, de preferência cozinha francesa, mais de preferência ainda com uma bela cerveja gelada ou coisa do gênero.
Stokler e De la Rue, por sua vez, tinham outros planos. Stokler, mais pragmático, queria mandar os dois imediatamente para a fogueira, sem escalas, sem julgamento, queria fritar os dois para dar exemplo ao povaréu ignaro (que palavra!). E De la Rue só pensava em si. Queria também fritar os dois, mas por outros motivos. Só assim conseguiria enfim humilhar meia paróquia, pisar nas costas dos seus desafetos. Contra Gutenberg e Riffe não tinha nada contra - nem a favor. Apenas considerava-os convenientes. A morte dos dois seria em boa causa. No caso, a sua própria.
Foi desta forma então que Stokler montou o circo. Despachar os dois hereges assim sem mais nem menos criaria problemas para o futuro; fez a coisa então como se deve: marcou o julgamento para dali a dois dias, convocou os cidadãos mais respeitáveis da cidade para testemunharem o fato e recomendou a De la Rue que detonasse os dois em seu depoimento.
No Dia D, Gutenberg e Riffe, famintos, foram trazidos para o julgamento, que já estava decidido desde há muito. O tribunal eclesiástico fora muito bem montado por Stokler: os cavalheiros mais influentes da região estavam todos presentes; damas da sociedade também. Gente do povo, escolhida a dedo, marcava presença no espetáculo. Ninguém percebeu (ou achou conveniente não perceber) que o tribunal era composto por Stokler & Stokler, apenas por ele, e que nenhum outro membro da igreja se fazia presente, a exceção de De la Rue. As coisas, segundo o cardeal, fluiriam mais facilmente assim.
- Cavalheiros e damas presentes! - iniciou Stokler. - Trouxe vocês aqui para dar-lhes ciência de que há entre nós, aqui mesmo nesta sala, dois inimigos da fé, dois homens vis que desafiaram as leis do Nosso Senhor.
Um Óóóóóóóóóóóó! fez-se ouvir no recinto. Stokler continuou:
- Estes dois homens - e apontou Gutenberg e Riffe - fizeram circular por entre o nosso povo cristão uma coisa a que eles chamam de calendário, com imagens indecentes de meninas inocentes e nuas, uma obscenidade jamais vista em toda história da Humanidade.
Um outro Óóóóóóó´!, ainda mais intenso, abalou as paredes. Percebendo que imprimia na platéia o efeito desejado, Stokler resolveu ir mais fundo:
- Imaginem vocês, cidadãos decentes e tementes a Deus, que fosse uma de suas filhas ilustrando este maligno calendário! Digo, portanto, que esses homens são duplamente criminosos: além de imprimir, arte na qual o senhor Gutenberg é mestre, certamente seduziram as meninas para fazer esta indecência! Nem o fogo do inferno será capaz de redimir os seus pecados!
Um burburinho tomou conta do ambiente. As pessoas estavam visivelmente indignadas, e lançavam olhares acusadores para Gutenberg e Riffe a todo instante. Quase sorrindo, Stokler passou a bola a De la Rue:
- O bispo Antoine De la Rue, figura mui querida da nossa paróquia, vai agora lhes contar como descobriu a terrível conspiraração inspirada por Satanás...
De la Rue saiu de trás de Stokler, enxugou pela décima vez a testa ensopada e falou:
- Senhoras e senhores, a coisa toda foi assim: eu estava em missão religiosa, percorrendo os bares e antros de perdição da nossa cidade, tentando resgatar as almas para o Senhor, quando me deparei com estes dois enviados do inferno comerciando pornografia barata num bar. O senhor Gutenberg, aqui presente, foi quem imprimiu aquilo que ele chama de calendário. O senhor João Riffe, também aqui, fazia a parte comercial, vendendo o pecaminoso objeto e envenenando com os vapores da luxúria as famílias tementes a Deus Nosso Senhor.
Gutenberg ficou furioso:
- Esse homem é um mentiroso! - protestou. - Eu nem estava na taverna!
- Calaboca, cria do demo! - falou De la Rue. Seus olhos faiscaram de prazer nesta pequena demonstração de autoridade. - Pois então, senhoras e senhores, como ia dizendo, ao me deparar com tamanha indecência fui tomado por uma cólera divina. Algo, certamente o Espírito Santo, me dizia: toma o calendário desses dois vilões, evita que eles corrompam ainda mais a nossa sociedade! E foi justamente o que eu fiz. Tomado por uma força até então desconhecida, estapeei o senhor Riffe com a fúria que só aos puros pertence, enquanto o ligeiro Gutenberg se evadia do local da ocorrência (8) . Como se não bastasse, e ainda achando insuficiente o meu ato de indignação, tomei a este patife o calendário que tinha em mãos, para livrar de uma vez por todas os respeitáveis senhores de nossa comunidade de tamanha sordidez que inspiraria atos certamente mais abomináveis...
Os olhos de Stokler brilharam, contentes. De onde estava podia ver que o povo se continha para não esfolar os dois ainda vivos bem ali, na Casa de Deus.
- Conforme podem ver - continuou Stokler, exibindo rapidamente o calendário -, não fosse a intervenção de nosso querido bispo, o câncer estaria se instalando em nosso peito por intermédio desses dois - e apontou mais uma vez para Gutenberg e Riffe. - Como sou um homem ponderado, que não toma atitudes precipitadas, eis aqui a razão pela qual chamei todos os cavalheiros e senhoras aqui presentes: dadas as circunstâncias, o que achariam os cavalheiros que deveríamos fazer com esses dois bandidos?
Um breve silêncio se fez ouvir. Em seguida, um trovão:
- Mata esses filodaputas!
- Corta os bagos deles!
- Manda os caras para o Iraque!
Stokler quase gritou, mas respirou fundo, recompôs a máscara de austeridade e, cínico, falou:
- Está dado o veredito pelos cavalheiros mais respeitados e sérios da nossa comunidade. Mas devo dizer que não é o suficiente. Se eu fosse um homem autoritário, sem coração, daria por encerrada aqui a questão. Mas não posso fazer assim. As leis de Deus me instruíram a dar, sempre, ouvidos até mesmo àqueles que não merecem. Por isso, gostaria de saber se os senhores Guttenberg e Riffe têm algo a dizer em sua defesa.
Riffinho ia soltar meia dúzia de palavrões e esculhambar todo mundo, mas Gutenberg o impediu:
- É hora de usar a cabeça, Riffe.
E dirigindo-se a Stokler, continuou:
- Se o cardeal me permite, gostaríamos de um minutinho em particular.
Stokler olhou para De la Rue procurando um sinal. O único gesto do bispo foi enxugar pela enésima vez a testa suarenta.
- Queiram me acompanhar - concordou Stokler, e foram todos para uma sala mais ao fundo, junto ao confessionário.
Lá chegando, Stokler mudou de tom:
- De nada adiantam os protestos. Vocês serão queimados em praça pública amanhã às nove da manhã. Já encomendei o carvão e a cerveja...
Gutenberg, demonstrando impressionante segurança, falou:
- Cardeal, o senhor não vai queimar ninguém!
- E não vou por quê? - falou Stokler, indignado.
- Porque não tem autoridade pra isso. Um devasso como o senhor não pode condenar dois inocentes à fogueira.
Stokler levantou as sobrancelhas.
- Do que está falando, Gutenberg? Que conversa fiada é essa? Esta é a minha paróquia, e aqui eu faço o que bem entender. Se eu disse que vocês serão queimados, vocês serão queimados! Nada neste mundo me fará voltar atrás!
- Acho que o seu nome não ficará muito bem na primeira página do Diário de Estrasburgo...
- Diário de Estrasburgo? O que vem a ser isso?
- O jornal que mandei imprimir, com a sua foto na capa. Aliás, cardeal, quem são aquelas três morenas que o senhor levou pra suruba no Motel Agnus Dei? E aquela loirinha de três tetas?
Stokler ficou visivelmente embaraçado.
- Não sei do que o senhor está falando. E você não tem provas!
- Já ouviu falar em Photoshop?
- Não.
- Pois é. É um programa de computador que nem foi inventado ainda, mas eu já tenho. Com ele é possível transformar qualquer mentira da imaginação em verdade dos olhos. E com ele fiz uma montagem com o senhor e com as mulheres. Ficou fantástica!
Gutenberg estava blefando, é claro, mas Stokler, pela primeira vez, tremeu. Não queria ver o seu nome, muito menos sua foto, no jornal de Gutenberg.
7 - Bater o pau na mesa é uma expressão muito controvertida. Alguns estudiosos afirmam que ela foi criada ainda na Pré-História. Outros discordam dessa idéia. Segundo eles, pau havia no período, mas mesa não. Outros dizem que a expressão foi inventada na Inglaterra medieval, pelos Cavaleiros da Távola Redonda. Quando surgia alguma discussão mais séria, bate-boca mesmo, bastava um cavaleiro de maior autoridade bater o pau na távola que tudo voltava ao normal. Mas isso é o que dizem. Provas mesmo, nenhuma.
8 - Nos telejornais baratos de hoje a gente costuma ouvir que o bandido ¿evadiu-se do lugar da ocorrência¿. Isso prova que a expressão é muito mais antiga do que possamos supor.
por PARREIRA às 8:49 PM ||||| Comente aqui!
(Continuação)
Ele sabia que o mestre era capaz de fazer o que falava e muito mais, com photoshop ou sem, e por isso resolveu argumentar:
- O senhor sabe, e eu sei, que nada disso é verdade, não é mesmo?
- Assim como não é verdade que eu e o Riffinho estávamos tentando corromper a sociedade. Se liga, Stokler, que mal há em apreciar um calendário de meninas peladas?
- Nenhum - quer dizer, acho que nenhum. De minha parte, até achei o calendário de muito bom gosto e tal, elegante, mas uma coisa é o que eu acho e outra é o que os outros devem achar que eu acho. Mas daí a colocar minha foto nesse seu jornal é um exagero!
- Você é quem sabe, cardeal. Se formos queimados amanhã, deixei instrução aos meus aprendizes para colocarem na rua o jornal o mais rápido possível. A escolha é sua. Além disso, o seu amiguinho aí - e apontou De la Rue - ele sim é um tremendo putanheiro, fique o senhor sabendo.
Os olhos do bispo se arregalaram.
- Como assim? - perguntou Stokler.
- O seu amigo é freqüentador de uma grande amiga nossa, Greta, a polaca delinqüente. No dia em que ele obteve o calendário em questão, mediante o módico pagamento de 5 mil dólares (dinheiro que deve ter saído dos cofres da Igreja, o que, se não é pecado, deveria passar a ser), ele estava lá com a polaca, três horas inteirinhas de pura sacanagem e um barril de uísque. E disso temos uma taverna inteirinha de prova, além de Greta, que é puta mas é honesta.
De la Rue tentou se defender:
- Mas, mas...
- Nem mas nem meio mas, rapaz! - falou Stokler. - Você está jogando o santo nome da nossa Igreja no lixo!
Suando cada vez mais, De la Rue viu todo o seu brilhante plano de vingança ir por água abaixo. O seu futuro caminho luminoso na Igreja começava a se apagar.
- E então, cardeal? O que é que o senhor me diz? - falou Gutenberg.
Stokler suspirou. Não havia outra saída a não ser negociar. Gutenberg poderia tê-lo flagrado em outros atos obscenos e pecaminosos, e com isso não era bom facilitar.
- Bem - disse ele. - Eu suspendo o veredito se o senhor não publicar o jornal.
- Muito bem. Mas o senhor nos humilhou publicamente; agora todos os homens de bem desta cidade estão achando que eu e o Riffe somos dois sujeitos desclassificados, da pior espécie. É preciso reparar essa falta!
Stokler avaliou a situação. Não poderia voltar lá fora e retirar o que havia dito. Afetaria sua reputação. Mas também não poderia deixar que a coisa prosseguisse, porque uma foto sua com quatro mulheres na capa de um jornal seria algo desastroso. Fazer o quê? O óbvio: jogar nas costas do mais tonto!
- Antoine!
De la Rue já ia saindo de fininho quando Stokler o chamou. E de nada adiantariam protestos, argumentos, o que quer que fosse. Mais uma vez, como sempre, viraria motivo de chacota por parte dos outros, piada entre as paredes da igreja e além.
- Antoine - continuou Stokler -, você vai lá fora e desmente tudo o que disse. Fala que se enganou, que os inimigos da fé eram outros, sei lá, se vira. Fala também que eu só disse o que disse porque confiei na retidão das suas declarações. E só me volte aqui depois de convencer esse povo todo de que tudo o que viram e ouviram aqui hoje não passou de um mal-entendido.
De la Rue quis revelar que putanheiro era Stokler, também Stokler, um devasso sadomasoquista que gostava de ser açoitado por rapazes musculosos, mas agora de nada adiantavam os seus argumentos. Por isso deixou a sala em silêncio, os grossos pingos de suor desenhando no chão de mármore todas as cores da sua humilhação. E Stokler, por sua vez, quando se viu a sós com Gutenberg e Riffe, perguntou:
- Senhores, me digam uma coisa: as mulheres com as quais fui fotografado são bonitas mesmo? Jovens? E eu, saí bem na foto, no meu melhor ângulo? Será que vocês poderiam me fornecer uma cópia? Para o meu arquivo pessoal, vocês entendem...
*****
No dia marcado para a execução pública, Gutenberg e Riffe comemoravam n'O Bode Ululante a vitória sobre o cardeal e o bispo De la Rue. Greta, a polaca delinqüente, era a mais contente da mesa:
- Depois dessa, acho que aquele porco suarento nunca mais vai pôr aquela sua bunda gorda por aqui. Ia com ele sim, porque sou uma profissional e ele pagava bem, mas nunca suportei o tipo. Quando deixava o crucifixo no criado-mudo, baixava o capeta no homem e ele queria de tudo: frente e verso e o que mais pudesse. E suava, suava, suava! Ensopava os lençóis e até mesmo o colchão. Um nojo!
Entre canecas de cerveja e brados de "putaquiuspariu", a festa corria solta n'O Bode. Só Gutenberg permanecia calado.
- O que você tem, homem? - perguntou Riffe, derrotando bravamente a nona caneca de cerveja. - Parece até que está se lamentando por não ter virado churrasco!
Gutenberg coçou a barba, depois o saco, e então falou:
- Tô pensando aqui no Diário de Estrasburgo. Acho que essa história de inventar um jornal pode ser algo de futuro. E também bolei aqui uma idéia que fará a Igreja nunca mais se esquecer de Johann Gutenberg!
Todos n'O Bode perguntaram:
- O que é?
- Vou imprimir a primeira Bíblia!
Todos os presentes aplaudiram e gritaram e pediram mais e mais cerveja. A festa atravessou a tarde e a noite e só foi acabar nas primeiras horas do dia seguinte. Pela primeira vez na vida, para escândalo dos mais conservadores, Gutenberg e Riffe dividiram a mesma cama - com Greta, a generosa Greta devidamente encaixada entre os dois.
*****
O primeiro número do Diário de Estrasburgo saiu com uma bela (e colorida!) foto de Stokler na primeira página. Sem as quatro mulheres, é bom que se diga. A manchete, um tanto eleitoreira, dizia que o cardeal era o homem mais indicado para o substituir o papa de então, que padecia de lepra retal e senilidade avançada. Gutenberg, satisfeito por ter concluído também, dias antes, a primeira Bíblia impressa, era todo sorrisos. Outra comemoração fazia-se necessária. Daí que Riffe se lembrou:
- E a tal da feijoada, Gutenberg? Aquela da Noca?
Gutenberg pulou no chão da oficina.
- Putz!, é mesmo! A gente vai lá e comemora de uma vez só o lançamento do jornal e da Bíblia!
E se mandaram pra lá Gutenberg e Riffe e mais Greta e um bando de outros ocupados e desocupados que viviam circulando a Gráfica, que então já era famosa em toda Europa.
Noca era uma alemã linda e enorme, sorridente, de peitos volumosos e bunda maior ainda. Assim que botou os olhos em Gutenberg, foi correndo abraçá-lo.
- Uma honra, mestre Gutenberg, uma honra! - dizia ela. - Sente-se, sente-se com seus amigos que o senhor vai provar a melhor feijoada da cidade!
A casa de Noca era uma deliciosa bagunça. Mesas espalhadas por todos os cantos, gente bebendo e conversando, mulheres rindo e, ao fundo, um jovem magro fumando um cigarro interminável. Em suas mãos, um violão velho e de sua boca saíam canções surpreendentes.
- Quem é esse? - quis saber Riffe.
- Ah!, esse é o senhor Noel Rosa - respondeu Noca. - Foi contratado para tocar "a samba", ritmo que ele disse que inventou e que ainda vai torná-lo famoso. O ritmo é bom, eu afirmo, mas famoso eu acho que ele não vai ser não. Do jeito que bebe e fuma o coitado, não vai dar nem tempo...
Ao som de Com que roupa?, Gutenberg mandou pra dentro sete caipirinhas, um quilo e meio de couve picadinha, três pés de porco, dois rabos e quatro pratos de farofa. O caldo grosso de feijão preto lhe escorria pelo canto da boca e pescoço.
- Feijoada é muito bom! - disse ele, as duas mãos na barriga. - Como é que nunca provei antes?
Noca ria, e ria.
- Tem muito mais de onde essa veio - falou ela.
Três horas e quatro feijoadas completas depois, Noel Rosa cochilando sobre o violão, Gutenberg passou mal. Todos se sobressaltaram.
- O que é que você tem? - perguntou Riffe. - Ataque cardíaco? Indigestão? Lumbago?
Gutenberg, suando feito o bispo De la Rue, depois de fazer mil caretas, respondeu:
- Caganeira!
Noca, sabedora do poder da sua feijoada, riu de novo e mandou Zeca, o seu marido, conduzir o nobre mestre impressor ao toillete.
A terra então tremeu. Os franceses não entenderam a razão de tamanho barulho; os ingleses acharam que era, enfim, o apocalipse lido há pouco na primeira edição da Bíblia; os brasileiros, que ainda não existiam, foram os únicos que entenderam que aquilo só poderia ser o efeito colateral da terrível combinação de torresmo frito com cerveja não muito gelada.
Zeca, parado ali à porta do banheiro, após o milésimo peido, perguntou:
- Tudo bem aí, mestre?
Gutenberg gemeu, peidou mais uma vez e gemeu de novo. Aí, enfim aliviado, respondeu:
- Agora acho que sim. Só tá me faltando uma coisa.
Pregas, pensou Zeca, que perguntou:
- O que, mestre?
- Papel higiênico!
- Mas mestre - falou Zeca - isso ainda não existe!
- Então me arranja qualquer coisa aí preu limpar essa catástrofe - pediu Gutenberg.
Zeca procurou e procurou e procurou. Ao encontrar algo conveniente, tratou logo de enfiar por baixo da porta do banheiro.
- Ai está, mestre! Espero que seja adequado.
Gutenberg viu ali, no chão, um exemplar do seu recém-impresso Diário de Estrasburgo. Olhou atentamente para a foto de Stokler. E falou, contente:
- Agora eu me vingo de uma vez por todas de você, cardeal de merda!
Assim falando, se limpou de toda a sujeira, esfregando diversas vezes a cara de Stokler bem ali no olhinho do seu Osório. Saiu do banheiro rejuvenescido, trezentos quilos mais leve, e pronto para ocupar o destino que a História haveria de lhe reservar.(9)
(Nota final: oito anos depois do episódio da feijoada aqui descrito, surgiu na cidade um grupo de soldados que acabara de chegar d'além-oceano, trazendo como prisioneiro do distante Brás com Copacabana um tal de Paulo Maluf, ou Malufus, como o chamavam. O comandante da operação levou o prisioneiro imediatamente à presença de Stokler, que não se elegera papa e abandonara a vida religiosa para se dedicar ao glorioso ofício de estilista de moda. Ao ver o prisioneiro, Stokler foi lacônico: "Devolva esse aí às suas origens. Creio que ele será muito mais útil entre os seus do que aqui junto a nós". Como se pode ver, o ex-cardeal perdeu uma grande chance de livrar o futuro Brasil de um dos seus maiores picaretas - mas isso, é claro, a História oficial nunca registrou.)
9 - Sem se dar conta, com sua atitude Gutenberg inventava um dos usos mais freqüentes para o jornal. Ainda hoje, em muitos lugares do mundo, o jornal é usado exatamente da mesma maneira. Alguns usam os cadernos de economia, outros os de política, mas o importante é que o jornal continua se prestando a esse nobre serviço. Um outro uso muito popular do jornal é o de embrulhar peixe, mas isso aí já é outra história.
por PARREIRA às 8:37 PM ||||| Comente aqui!
Quarta-feira, Abril 04, 2007