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Quinta-feira, Agosto 30, 2007
Dia desses perdi a minha mão esquerda. Mas não pensem vocês que eu fiquei desolado ou qualquer outra coisa do gênero, fazendo aqueles dramalhões ou me lamentando. Nada disso. Achei um pouco chato, é verdade, um tanto quanto incômodo do ponto de vista funcional, mas nada além disso. De certa maneira até senti alívio: menos dedos para incomodar. Mal sabia eu que a origem dos meus problemas estava aí. A maldita mão perdida, sim, ela resolveu cuidar da própria vida. Como nunca foi possuidora de diplomas e/ou títulos (a ignorante não sabia que isso era uma característica do conjunto todo denominado corpo, e eu, confesso, nunca fiz questão de explicar-lhe isso), não demorou muito para se encontrar em situação econômica precária. Imagino só as dificuldades pelas quais tenha passado: mão esquerda nua, sem qualificação profissional, sem casa, sem nada, ó, uma verdadeira indigente vagando pelas ruas desta cidade tão sem coração. Sentiria até pena dela em outras circunstâncias. Afinal, era uma parte minha, tão íntima quanto um peido ou o estômago, eu acho. Mas a filadaputa me sacaneou: pra suprir as suas necessidades mais imediatas e mesquinhas, a coisa passou a assaltar. E nunca a expressão “assalto à mão armada” foi tão completa, tão precisa: sim, a minha mão conseguiu uma pistola e com ela passou a assaltar os transeuntes e estabelecimentos comerciais, dentre eles um banco de prestígio. Os vigias desse banco, que me recuso a falar o nome aqui por uma questão de bom senso e respeito às instituições, não titubearam e prenderam a mão, a minha mão em flagrante. Algemaram-lhe os dedos e a puseram na cadeia. Tudo perfeitinho como manda o figurino. E o nosso sistema prisional, ah!, isso eu não posso esquecer de mencionar, o nosso sistema prisional é um dos mais sofisticados de que se tem notícia. Tão logo prenderam a meliante procederam à coleta das impressões digitais. Idéia brilhante, diga-se de passagem. E qual não foi a surpresa de todos, inclusive a minha: os dedos daquela mão outrora bela, mão outrora minha apontavam para um único suspeito: eu mesmo. Como o sistema prisional, depois de profundas e detidas análises, chegou à conclusão de que o criminoso era eu e não a minha mão perdida, acabei em cana também. É claro que tentei explicar a situação e livrar a minha cara: - Mas eu não cometi crime nenhum. Foi ela! Não sei por que não engoliram a minha história. Mostrei-lhes a todos o meu braço esquerdo desprovido de mão esquerda, mas nem isso foi o suficiente para convencê-los. - A mão acusa o senhor – foi o que disseram. Mas o que me deixou mesmo chateado foi o fato de vê-la ali, na cela ao lado, com o indicador esticado em minha direção. Naquele momento conheci integralmente o significado da palavra Tristeza. Por sorte (pelo menos assim eu considerei) a Justiça logo se ocupou do meu caso. Sabedor que sou dos infinitos conhecimentos dos senhores magistrados, da sua ilimitada sabedoria e ponderância, dos seus altivos caracteres e narizes, depositei nos alvos braços da Lei toda a minha esperança. E, ao contrário do que costumam dizer por aí os detratores da Justiça, esta se processou rapidamente e sem delongas: - Depois de muito discutirmos, muito comermos e et cetarmos, chegamos à seguinte conclusão... Isso aí quem disse foi o juiz-presidente de uma junta de juízes que cuidaram do meu caso. Aliás, junta se refere a médicos, não é mesmo? E qual seria o coletivo de juízes? Quadrilha? - ... a mão, por suas características exclusivas e peculiares, não pode ser mantida em cárcere. Ela está livre e os fatos decorrentes do seu mau comportamento devem ser cobrados daquele a quem a coleta das impressões digitais apontou como culpado... Eu aqui, naturalmente. De certa maneira, à minha maneira, até considerei equilibrada a decisão, essas coisas, mas a minha boca, maldita também ela, se adiantou e proferiu esta cagada: - Se a minha mão esquerda não pode ser presa, acredito que a direita também não... Os juízes se entreolharam e pude perceber o brilho de fogos de artifício em seus olhos. O juiz-presidente então voltou à carga e sentenciou: - O senhor réu tem razão. Não é justo manter apenas a mão esquerda em liberdade. Juntemos a ela também a mão direita! A rapidez da Justiça, em alguns casos, é realmente algo impressionante. Hoje estou aqui preso, gozando da infinita liberdade de pensamento que os senhores juízes deliberaram me permitir. Sem as duas mãos, naturalmente – mas isso é nada se comparado ao impressionante carrossel de injustiça que tanto e tão bem caracteriza o atual estado de coisas. Não é mesmo? |