SOBRE O NÃO-ESCREVER I
Já faz algum tempo que eu ando aporrinhado. Com uma coceira, que chamarei aqui de “a coceira do texto’.
Explico: nos últimos meses (anos, até), tenho pensado muito mais em escrever do que escrevendo de verdade. E isso me faz mal. Porque fico num estado de ansiedade contínuo, uma procura que, na maioria das vezes, se mostra em vão.
Fruto dessa ansiedade é a produção de dezenas de textos abortados, que começo e nunca termino. Vez ou outra um texto vinga, dá certo. Aí é uma alegria só! Mas o término de um texto razoavelmente bem-sucedido me leva novamente ao estado de ansiedade: quero escrever outro, e mais outro, e mais... Mas acabo não fazendo porra nenhuma.
Embora a coceira do texto, de maneira geral, me incomode, por outro lado também é bom estar assim, coçando. Significa que algo está fermentando em algum lugar – e que vai sair, virar conto ou seja lá o que for. Essa busca, essa procura diária me leva por muitos caminhos sem saída, mas acho que é essa mesma a condição do texto. Nem sempre se sabe qual o caminho trilhar, e escrever é sempre jogar no escuro. Já escrevi há tempos que “escrever é um ofício de trevas”. Vivo constantemente entre elas.
E ultimamente dei pra escrever textos longos, como nunca antes. A idéia de um romance me ronda quase que diariamente. Já tentei algumas vezes, mas falhou. E mesmo os meus contos, antes mínimos, têm engordado significativamente em páginas. Parece que agora tenho mais o que falar, o que escrever. Será porque envelheci? Antes eu buscava a rapidez, a velocidade dos textos curtos. Agora estou me divertindo com os textos mais longos. Parece que virei meu primeiro leitor: quanto mais longa a história, mais eu me divirto. É como se eu quisesse a cada dia saber o que vai acontecer com tal personagem, como determinada situação vai se encerrar. Talvez seja isso mesmo: perdi a pressa em acabar. O texto mais longo e lento é também o mais prazeroso.
Bem, mas eu escrevi isso aqui apenas para relatar esse meu incômodo. E, paradoxo dos paradoxos, precisei escrever para falar do que não tenho escrito! É muito estranho mesmo esse mundo das palavras...
por PARREIRA às 5:31 PM ||||| |
Segunda-feira, Janeiro 14, 2008
PIAUÍ
Bem, começo o ano recebendo um convite da REVISTA PIAUÍ para escrever um conto a partir da frase "Antonio levantou-se, abriu a janela, e viu Maria lá embaixo, à espera. " Eu e mais 9 outros vencedores do concurso do ano passado.
Um bom desafio - e ainda com a possibilidade de ganhar 800 paus! Com o dinheiro do prêmio, quem sabe, eu consiga comprar a minha indicação para o Nobel...
Vou tentar com o texto abaixo:
ANTONIO & MARIA
Antonio levantou-se, abriu a janela, e viu Maria lá embaixo, à espera. Imediatamente jogou uma bermuda sobre a cueca furada e se mandou pela outra janela, a dos fundos. Se depender de mim, pensou, vai ficar aí esperando para sempre!
Já na rua, com os joelhos ligeiramente arrebentados pelo tombo nem tão suave, colocou o melhor sorriso no rosto e procurou se afastar o mais rápido possível do local. Ficar ali de bobeira, com Maria na área, não seria bom pra saúde de ninguém – muito menos para a sua.
Foi dessa maneira então que Antonio, um sorriso canino pendurado nos lábios, deixou que seus pés o levassem pela cidade.
Apesar da expressão feliz, no entanto, da cara de cachorro sem-vergonha que acaba de mijar nos sapatos do dono e sai tranqüilo assobiando Noel Rosa, seus pensamentos giravam feito um carrossel bêbado e a causa disso tudo tinha apenas um nome: Maria, cinco letras tão devastadoras quanto um terremoto.
Na noite anterior, inclusive, tivera todas as carnes e peitos do terremoto entre os dedos e a língua, uma dilícia de tremedeira que prometia abismos e taquicardias sem fim, uma loucura, ora essa! E dizer que o paraíso acabaria daquela maneira tão brega: Maria, agora ela trêmula - mas de raiva -, lá embaixo e à espera...
Entregue a esses graves pensamentos e a outros nem tanto assim, Antonio percebeu-se não mais na rua como antes, mas sim numa igreja, no interior escuro e bolorento de um confessionário. Não se surpreendeu de todo, é verdade: os pecados geralmente conduzem a lugares como esses ou piores ainda; por conta disso se sentiu, ainda que de forma estranha, aliviado.
Todo alívio do mundo, no entanto, se desvanece como fumaça de charuto quando se percebe que aquele que pode nos representar junto ao Todo Poderoso está fungando e grunhindo feito um porco no cio. Antonio, é claro, percebeu exatamente isso; indignado, o espírito cheio de virtudes pela primeira vez em anos, largou o Verbo pelo gradil de madeira escura do confessionário:
- Padre, você pecou!
Antonio ouviu o susto do cara pelas frestas de madeira e sorriu. Espalhar fagulhas diabólicas em pleno território sagrado não é pra qualquer um.
Como é de se esperar em situações assim, o protocolar canto gregoriano começou a soar em algum canto e, sob o manto da santidade, o padre finalmente respondeu:
- Você errou o texto, Antonio. Você deveria falar assim: padre, EU pequei!
- Quem pecou foi você, padre. Pensa que eu não vi o seu olhão aí grudado aqui nas minhas pernas? Se liga, irmão! Só porque eu estou aqui apenasmente de bermuda e com as pernas à mostra, isso não lhe dá o direito de ficar aí escondido atrás do confessionário praticando libidinagens!
O padre engoliu em seco mas não perdeu o rebolado. Como todo bom representante da Voz, partiu imediatamente para o ataque:
- O réu, quer dizer, o pecador aqui é você, meu filho. A essas alturas, até o Vaticano já sabe sobre a Maria.
Antonio fez o sinal da cruz. Não imaginava que as coisas pudessem chegar a tal ponto.
Quem sabe? Tenho até o dia 22 para decidir se é isso mesmo, se mudo alguma coisa ou escrevo outro texto. É, começo de ano e já o primeiro desafio. Muito bão!
por PARREIRA às 5:25 PM ||||| |