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Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008
ESTRANHA CONDIÇÃO Eu notei que as pessoas estavam deixando de me entender quando pedi um beijo à minha mulher. Ela passou direto, sem nem ao menos me olhar na cara. Não que isso fosse incomum; acontecia sempre. Mas ela, ao menos, me mandava à merda com alguma elegância, ou resmungava qualquer coisa espirituosa. Dessa vez me ignorou solenemente, orgulhosa feito uma rainha, como se eu fosse menos que nada. Na rua eu confirmei as minhas dúvidas: falei com três pessoas diferentes, e as três não entenderam uma sequer das minhas palavras. Variei o estilo e o idioma, português inglês javanês, adocei as palavras – mas de nada adiantou. A minha voz, definitivamente, não alcançava mais os mortais. Dei ao fato a mesma atenção que se dá a um fio de cabelo perdido. Um homem, afinal, deve manter a dignidade. A vida segue em frente, e se os outros cidadãos não me compreendem mais, paciência. Mas a coisa piorou quando deixaram também de ler os meus bilhetes. Até então eu vinha me virando relativamente bem, escrevendo mensagens curtas em papéis cuidadosamente guardados nos bolsos da calça ou da camisa. Os bilhetes de bom-dia e obrigado, por exemplo, mandei plastificar: o uso contínuo, vocês sabem, seria capaz de danificar o papel, delicado por natureza. Mas não demorou muito e todo mundo passou a ignorar também as minhas mensagens escritas, e nem mesmo o enorme Filosdaputa que pintei num cartaz com tinta vermelha teve sorte diferente. Analisei friamente a minha situação: ninguém ouvia a minha voz, ninguém lia os meus bilhetes. Existia, mas era como se não. Porque um homem, reflitam, só é completo quando notado, quando, por mais ignorante ou imbecil, faz parte da alcatéia e é aceito pelos outros animais. A mim então, de uma hora pra outra, nada mais era permitido: sem voz, sem letra, um fantasma errando pelas sombras. Querem o meu desespero, sem dúvida. Não o terão. Instalado na minha calçada, que também é o meu castelo, tomo agora um vinho do porto, fumo um charuto de primeira e leio com redobrado prazer o meu velho Baudelaire. Quando sinto fome ou outra necessidade qualquer, me levanto preguiçoso, sacudo um pouco os carrapatos, meus mais novos companheiros, e vou ao mercado e roubo tudo o que preciso. Não me ouvem, como vocês sabem, não lêem o que eu escrevo e de uns tempos pra cá já não me enxergam mais. A invisibilidade, por ironia, me proporciona tudo aquilo que eu sempre quis. É uma estranha condição de vida a minha, vocês devem pensar. Eu digo apenas que não é a pior. por PARREIRA às 8:23 PM ||||| |
Domingo, Fevereiro 24, 2008
PERDAS * título provisório O fato de perder a sombra é, sim, preocupante – mas hoje não é o maior dos meus problemas. Devo ainda acrescentar que, se preocupa, é só a mim. Ninguém à minha volta parece ter percebido. E a sombra o que é, afinal? Se me faltasse uma orelha, ou digamos o olho esquerdo, alguém certamente notaria, seriam aqueles olhares disfarçados, de quem vê mas não comenta por educação, as perguntas óbvias que dormem eternamente no silêncio polido dos lábios. Mas a sombra é nada, ausência de luz apenas. Ninguém foi preso por perder a sombra, ou discriminado por isso. Embora ainda surpreenda a alguns, isso é tão comum quanto dizer olá ou levantar a perna esquerda. Problemas mesmo eu passei a ter naquela manhã, quando perguntei a um homem na rua: - Tem horas? O sujeito parou, estarrecido, como se tivesse acabado de ver uma assombração. Imediatamente me lembrei da minha sombra, da ausência dela, o homem aí deve ter percebido, pensei. Mas notei em seguida, àquela hora e naquele lugar, nem eu nem ele possuíamos sombra, estávamos escondidos, e bem, do sol. Repeti então, Tem horas?, mas não adiantou: o sujeito se afastou reclamando lá com os demônios dele, me chamando de maluco pra baixo, vejam só. - É você! – eu devolvi, mas ele também não ouviu. Ou não entendeu. Horas mais tarde, um episódio semelhante: pedi um café no buteco, o balconista respondeu com uma pergunta: - O que vai ser? - Café – repeti. Ele apertou os lábios, a cara contrariada. - Vai pedir ou não, chefe? – disse. – Não tenho o dia inteiro não! - Café – repeti, dessa vez gritando. - O senhor tá me tirando, né? Acha que eu sou adivinho, que tenho bola de cristal? Pedi café de novo, quase implorando. Nada. O balconista confirmou suas dúvidas no instante em que eu saí correndo do buteco, a cabeça repleta de interrogações. Duas vezes no mesmo dia? A luz de emergência acendeu na minha cabeça enquanto eu corria, agora sim como um maluco, pela rua. Algo estava definitivamente fora do lugar. Duzentos metros distante do buteco, dois palmos de língua para fora, eu parei, os pulmões implorando qualquer migalha de oxigênio. Quando recuperei o gás e um pouco do sentido, a resposta veio clarinha na minha cabeça: não estão me ouvindo, é isso, algum problema com a minha voz. Tentando parecer o mais natural possível, falei o meu nome em voz baixa. Olhei para os lados, aquela cara de santo, as pessoas indo e vindo sem se darem conta da minha presença. Repeti então o meu nome, a voz um pouco mais alta. Tudo perfeito, pensei, primeiro baixo, depois mais alto, eu conseguia perceber nitidamente as diferenças no volume da voz. Preparei então a garganta para o teste maior: - Aí, Zééé! – gritei, a voz a ponto de romper os cordões vocais. Uma coisa eu aprendi nesta vida: na rua, quando você chama pelo Zé, o Zé sempre atende, mesmo que o atendente se chame João. É um desses grandes mistérios da Humanidade, que começam bem antes da gente e não têm data certa para terminar. Mais misterioso, no entanto, foi o fato do Zé não atender, o que foge completamente ao roteiro. Experimentei mais uma vez, as mãos em concha em volta da boca para amplificar – e nada. Se havia algum Zé, era surdo. - Fala, João! – tentei. Em vão. - Maria? Alguma Maria? A última sílaba me saiu ardendo pela garganta. Se antes não havia problema algum com a minha voz, eu agora estava a caminho. Uma ligeira preocupação tomou conta de mim. Como se virar por aí se ninguém me ouve? Sentei num banco de praça, mais solitário do que jamais antes em minha vida. Os pombos ali, que estavam ocupados ciscando e et cetera, suspenderam as suas atividades e passaram a me encarar. Pelo menos alguém me nota, pensei, a tristeza crescendo em meu peito como um balão de gás. Em momento algum da minha vida sentira tamanha necessidade de falar, de me expressar, transmitir aos outros os meus pensamentos. Falar, aliás, eu falava, esse não era o ponto. Minha voz soava normal, tanto baixa quanto alta, a mesma coisa aos gritos. O problema era os outros, que não ouviam as minhas palavras, cheguei enfim à conclusão. Os outros não me ouvem, não me entendem, estou condenado a essa eterna prisão das idéias impossíveis de serem compartilhadas. Mas restavam ainda a escrita, pensei por fim, a mímica, qualquer uma das milhares de formas de expressão criadas pelo Homem. Esse pensamento, confesso, me encheu de ânimo de novo. Tanto que deixei o diabo da traquinagem agir: consciente da minha nova “habilidade”, dali mesmo do banco, sob o olhar curioso dos pombos, passei a me dirigir aos passantes: - A sua mãe tá boa, senhor? O sujeito passava sem me olhar na cara, sem me ouvir, ou se detinha apenas o tempo suficiente para perceber que aquele homem no banco – eu – era apenas mais um maluco dentre todos os outros da cidade. - Bom-dia, filodaputa! Às vezes um sorriso, um olhar mais demorado, mas nada além. Não ser ouvido, pensei finalmente, também tem lá as suas vantagens. por PARREIRA às 1:15 PM ||||| |
Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008
EU TAMBÉM QUERO MAMAR! Descolei o meu cartão corporativo:
Achei na Rosana Hermann, que encontrou aqui. por PARREIRA às 8:09 PM ||||| |
Domingo, Fevereiro 17, 2008
DIRETAMENTE DA
Isso significa o quê? Que agora lá todo mundo tá K'Os OVO livre, soltim? ( não pude resistir. cretinice é uma doença!) por PARREIRA às 3:26 PM ||||| |
CLICA! ![]() por PARREIRA às 7:24 AM ||||| |
Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008
HOMEM NA GARRAFA Conheci todo tipo de homem por aqui: homem certo, homem torto, homem que come o próprio pé; homens de cabeça quadrada, de olhos líquidos, homens sem coração. De todos esses aí, o que representa mais perigo é o homem virtuoso: não é difícil vê-lo sacar o dedo indicador como se fosse um revólver e apontá-lo diretamente para o seu nariz, condenando o seu comportamento ou os seus prazeres como se ele, e somente ele, tivesse sido escolhido por Deus em pessoa para purificar de todos os pecados essa abjeta espécie humana – da qual fazemos parte mesmo a contragosto. Conheço ainda os homens doentes e os tristes, embora ache que são ambos a mesma coisa, um servindo apenas de extensão do outro. De toda a espécie, no entanto, gosto mesmo é dos homens que constroem vento, dos que respiram pássaros e ainda daqueles, mais raros, que desenham unicórnios nas nuvens com pincéis de luz. São os poetas, costumam dizer, e acho que esse nome é mesmo bem adequado. Homem na garrafa, porém, desse tipo eu nunca tinha visto. Já vi muitos casos de garrafa no homem, que é quando o sujeito bebe quase que com a mesma urgência com que respira. São muitos, e é fácil encontrá-los principalmente nas sextas-feiras à noite, quando o fim do trabalho assinala o tão esperado começo da vida. Mas homem na garrafa... Bem, a primeira vez que eu vi um assim foi em plena avenida, durante o dia. Estava lá sorridente e tranqüilo, os olhos bem abertos, a pele toda amarrotada. E um tufo de cabelo avermelhado escapando pela abertura do gargalo. Como sou um sujeito civilizado, vi mas fiz que não, passei como se fosse algo normal, desviei os olhos para os carneiros encaixotados, que hoje são tantos e tão comuns por causa da explosão da natalidade. Em casa, contei o negócio todo à minha mulher. Ela me olhou bem nos olhos, fez a sua famosa cara de filosofia e disse: - Grande coisa... As semanas seguintes, confesso, foram da mais pura agonia. Passei a ver homens em garrafas por todo canto - e eles não eram fruto da minha imaginação: eram todos de carne e osso, pele e vidro, solidez e transparência. Os meus amigos passaram a fazer piada das minhas preocupações: - Meu, só falta você dizer agora que viu um bode fumando cachimbo! - Vi dois - falei. - Mas isso não vem ao caso. O que me intriga são os homens em garrafas. Isso me deu a medida da mentalidade social a que estamos submetidos: as pessoas acreditam em tudo, górgonas passeiam nas ruas sem serem incomodadas, ninfas trepam sob os carros estacionados, Shakespeare e Dostoievski tomam Coca-Cola enquanto discutem o futuro da Internet. Tudo isso é tolerado e tido como comum, e eu acho bom que seja assim. Mas quando o assunto é homem na garrafa, tudo muda. Com a cabeça cheia de pensamentos, um sabor de tragédia em minha boca, resolvi finalmente tomar uma atitude. Abandonei o escritório, ignorei o elevador e desci pela escada mesmo. Ganhei a rua feito um alucinado, atropelei três ou quatro ornitorrincos e fui até a esquina. Ele estava lá, o primeiro, ainda sorridente e tranqüilo, o maldito tufo de cabelo vermelho balançando ao vento. Falei então com autoridade, a voz grave e sombria: - Como é que você entrou aí? O homem descolou os olhos do vidro, abriu ainda mais o sorriso e respondeu: - Não entrei aqui. Foi esta garrafa que me envolveu. Sou o tipo de homem que precisa saber as coisas. De nada adianta um milagre se eu não puder explicá-lo. Por essas e outras é que fui pra casa feliz, aliviado enfim, meus pés chutando tartarugas como quem assobia uma canção. por PARREIRA às 10:59 PM ||||| |
PROCEDIMENTOS – MAKING OF PROCEDIMENTOS é mais um desses textos que vêm de uma vez só, um fluxo, uma idéia que quer se completar logo desde o início. Pra mim, que na maioria das vezes passo de escritor para espectador do texto, a idéia principal era essa: dois homens que se observam, e depois trocam de posição. O que antes estava em cima (de uma torre, escada, edifício? Não sei.) subitamente compreende a inutilidade do seu comportamento e recusa-se a prosseguir, subindo novamente. Mas faz isso e continua vivo, tendo por conseqüência apenas a afirmação do seu gesto: não vou subir mais porque isso não faz sentido. Na idéia original não havia tanto questionamento. Nem tanta consciência das forças exteriores que determinam o tal “procedimento”. Mas o narrador começou a pensar por si próprio, e aí sim eu passei a “assistir” o texto. A idéia do tambor, por exemplo, me surpreendeu um pouco: ela apareceu e se impôs, e o “tum, tum” que o caracteriza não é um recurso que costumo usar. Não gosto de onomatopéias. Mas foi justamente a onomatopéia do tambor que determinou o fecho do texto. O narrador, na idéia primeira, ficaria vivo. Daí que entrou o TUM!, assim mesmo, em maiúsculo, cortando-lhe de uma só vez os pensamentos, a falsa impressão de liberdade e também a vida. A idéia do tambor reforça ainda a imagem do procedimento, que é implacável e cobra caro por qualquer desvio. É ótimo quando o texto foge assim ao controle. A gente parte de um ponto e imagina uma chegada – mas quando acontece esse tipo de coisa escrever fica mais interessante, porque imprevisível. Esse é o grande barato! por PARREIRA às 1:30 PM ||||| |
PROCEDIMENTOS Não quero descer agora, mas sei que é preciso. Porque já faz dois dias que ele está lá embaixo, à espera. E não é à toa: tudo isso já foi escrito, está nas cartas, faz parte do procedimento. Sabemos, eu e ele. Não é por acaso, portanto, a sua cara de descontentamento, que eu percebo tão bem daqui. E ele tem razão: há séculos cumprimos o procedimento dentro da mais estrita ordem, o nosso trabalho se assemelha mesmo ao de um relógio. Mas algo, percebi, saiu do lugar. Essa minha sensação incômoda. Se eu não desço ele não sobe, simples assim. E aí a coisa toda não funciona. Como agora, talvez, agora que eu não quero descer. Se ao menos eu soubesse... mas é apenas essa sensação. O súbito perceber que algo está fora dos trilhos. Sei apenas que existem outros, mas isso não me foi dado conhecer. Soube apenas, senti; então eles vieram e chamaram de intuição o meu sentimento. E bateram em mim, muito, porque era proibido. E riscaram da minha língua a intuição. E o sentimento. Esqueceram que essas coisas se escondem em outros lugares menos prováveis. Ou talvez careçam eles mesmos de intuição e sentimento. Mas nem isso, posto assim, atenua: o procedimento é uma máquina de pedra, dentes que cospem resultados. Agora que não quero descer o procedimento é um tronco entalado na garganta. Deles. E na minha também. Porque daqui de cima o que vejo primeiro é a pressa nos olhos dele, uma raiva silenciosa. Haverá por trás disso alguma ternura? Dei agora pra pensar nessas palavras, ternura, intuição, sentimento, palavras que brotam nos meus lábios, indiferentes aos meus esforços por contê-las. Mas contê-las pra que, por que, pra quem? O procedimento é um tambor quase inaudível quando cumprido. Quando alguém sai da linha começa a pulsar nos ouvidos, tum, tum, até explodir em verdadeiras pancadas. Sei porque já vi. Numa desatenção dos outros eu vi homens esmurrando a parede, suas cabeças explodindo, o tambor cumprindo o seu papel. O tambor, é claro, também segue o seu procedimento. Só não me foi dada ainda a oportunidade de ver tambores explodindo, embora ache possível. Essas coisas ditas assim parecem inofensivas, não oferecem perigo. Mentira. Eu corro perigo, e nos olhos dele, que está lá embaixo e impedido de cumprir o procedimento, o perigo sou eu. Ele deve pensar: melhor cumprir o procedimento sem perguntas, sem questionar, afinal quem sou eu para lutar contra aqueles que tão bem instituíram o procedimento que funciona desde sempre? Ele certamente não se deixa perturbar por questões tão urgentes. Ainda não adoeceu como eu, sim, porque sofro agora de uma doença, só pode ser, o sentimento brotando dos meus lábios como flores de sombra e luz. Em breve o tambor nos meus ouvidos, tum, TUM, mais alto, a minha cabeça contra a parede e depois mais nada, o vazio silencioso. Dois dias, já. Eu sei, ele sabe. Os outros certamente já sabem também. Só não entendi ainda por que é que não tomaram nenhuma providência. Estão me testando, acho, querem saber até onde eu sou capaz de chegar. Ao ver os olhos dele lá embaixo, no entanto, só me resta fazer cumprir o procedimento: não quero descer agora mas vou, a ternura, porra, nossos olhares se cruzam no caminho, seus olhos são um misto de alívio e agradecimento, obrigado obrigado, foi mesmo o melhor a fazer, fiquei com medo de que você tivesse enlouquecido. Não, não, eu não enlouqueci, apenas senti, ousei, fui mais longe do que todos vocês, a liberdade, ah!, a liberdade, a liberdade TUM! por PARREIRA às 11:42 AM ||||| |
Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008
NOTÍCIA BOA. E MÁ A boa: tenho escrito bastante. A má: nada que preste. por PARREIRA às 9:22 PM ||||| |
Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008
CORTÁZAR EM VÍDEO Abaixo, Cortázar em outra linguagem. A CASA TOMADA, narrada pelo próprio autor. Abaixo, duas animações baseadas no mesmo conto: O ESMAGAMENTO DAS GOTAS por PARREIRA às 9:30 PM ||||| |
Terça-feira, Fevereiro 12, 2008
AQUI OU DO OUTRO LADO DA LINHA Vou pela rua encontrando fantasmas: aqui o Borges, ali o Cortázar, logo mais à frente o Drummond o Bandeira e quem sabe até mesmo o Vinícius, remoendo o velho uísque do qual já desisti há séculos. Em cada esquina uma avalanche de outros mortos se aproxima. Sei quem são, a maioria. Minha mãe, por exemplo, que insiste em cuidar da minha vida. Sou obrigado a falar, como sempre: vai em paz, já estou crescido e já aprendi a morrer sozinho. Não adianta, mas é preciso falar. A fumaça que escurece a cidade é a que sai dos meus pulmões. Meu cigarro eterno, a esperança que me resta. E os livros, dos quais extraio mulheres com gosto de papel. Mesmo assim essas mulheres não são melhores que as outras de carne e osso. Nem piores, o que aumenta o meu desespero. Uma busca inútil, minha mão que sopra um poema para ninguém. Apenas o vermelho do crepúsculo que prenuncia a noite que prenuncia outro dia. Os meus fantasmas dividem comigo suas apreensões. Reclamam do uso que nós, os vivos, fazemos das suas memórias. - Nunca fui compreendido em vida – reclama Artaud. – Agora explicam em teses e ensaios até mesmo o que nunca escrevi. O fumaça do meu cigarro desenha um círculo no ar, círculo azul que se desfaz no vento. Assim é a vida, penso, mas não a morte. - A morte é uma prisão ainda maior que a vida – explica Baudelaire. – Ninguém melhora depois de morto, nem evolui, nem piora. Apenas espera. A vida também é uma longa espera, eu digo. Mas tem lá as suas compensações: aqui podemos escrever, entre outras coisas. Eu escrevia, por exemplo. E dentro de toda a tragédia a vida era talvez feliz. Agora estou mudo, minha caneta é só o silêncio do papel. - Não escrever é se livrar dos demônios – retruca Guimarães Rosa. Mas uma vez que se tenha escrito algo, respondo, mesmo que cesse a febre das palavras não se consegue jamais se livrar dos demônios. Eles se fixam nos ossos, o sangue das veias já está contaminado. O silêncio das palavras é um inferno ainda maior. Borges interfere: - Ninguém escolhe ser escritor. - É uma maldição – eu digo. Maldição, os fantasmas repetem, uma doença que abraça suas vítimas logo cedo e jamais as abandona. E impossível é tentar fugir: o destino é uma linha reta que abarca todos os atalhos e desvios. Daí talvez os meus olhos fixos em nada, o extremo desacato de trazer à luz o invisível. Porque escrever ou não, tudo isso é parte do mesmo jogo: tanto faz vivo ou morto; aqui ou do outro lado da linha, sempre, vítimas do mesmo mal, da mesma dor. Por isso a minha familiaridade com os fantasmas: estou tão morto quanto eles. por PARREIRA às 1:38 PM ||||| |
Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008
Escrever é insistir, insistir e insistir. Mas também é desistir. por PARREIRA às 5:57 PM ||||| |
Domingo, Fevereiro 10, 2008
COMPENDIUM UNIVERSALIS PARA DOWNLOAD!!! Dia desses, no blog do BIAJONI, me deparei com o seu livro SEXO ANAL. Um pouco depois, no Laboratório de Leitura, uma conversa com o próprio Biajoni e também com o Edson Cruz, do Cronópios. O que me chamou a atenção, entre outras coisas, foi o Biajoni dizer que o seu SEXO ANAL, antes de virar livro impresso, foi disponibilizado por ele para download no seu blog. Ah!, eu gostei da idéia! Tanto que resolvi fazer algo semelhante com o meu próprio livro, o COMPENDIUM UNIVERSALIS (também conhecido aqui em casa como o CU). Este livro, que escrevi entre 1999 e 2000, foi recusado por algumas editoras (pra variar...), e lido por pouquíssimas pessoas. Portanto, antes que ele descanse para sempre no fundo de uma gaveta - ou melhor, arquivo, coloco ele aqui para quem tiver coragem. Se você estiver disposto, é só clicar abaixo:
* obs.: O CU está em PDF. por PARREIRA às 12:42 AM ||||| |
Sábado, Fevereiro 09, 2008
ESCREVER É... por PARREIRA às 10:44 PM ||||| |
Não é literatura. Mas poderia ser. The Durutti Column por PARREIRA às 3:05 PM ||||| |
Quinta-feira, Fevereiro 07, 2008
NOVOS LINKS AÍ Á ESQUERDA! ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() por PARREIRA às 10:02 PM ||||| |
Terça-feira, Fevereiro 05, 2008
H P LOVECRAFT Pra quem gosta... Pra quem não conhece: lovecraft Embora escrevesse contos admiráveis, os filmes inspirados nesses mesmos contos são, na grande maioria, medíocres. Na minha opinião, é claro. O filme aí de cima eu ainda não tive a oportunidade de ver. Pode até ser que ele mude a minha impressão. por PARREIRA às 9:53 PM ||||| |
CONCURSO REVISTA PIAUÍ - 2ª ETAPA O texto que eu escrevi para a 1ª etapa, ANTONIO & MARIA, não deu certo. Quem saiu na frente foi o CIÇO LÉO, do Ceará. Coube a mim, então, tentar mais uma vez escrevendo o possível segundo capítulo. Logo mais abaixo, o primeiro capítulo de A VELHA DEBAIXO DA CAMA, do Ciço, e a minha continuação. Pode dar certo. Ou não. O que é que vocês acham? (isso, é claro, se alguém ainda se der ao trabalho de vir aqui pra ler...) A VELHA DEBAIXO DA CAMA Capítulo I – O rato Antônio levantou-se, abriu a janela e viu Maria lá embaixo, à espera. Respirou fundo e, nostálgico, sentiu saudades da infância, quando disputava restos de comida com os gabirus, nas feiras livres da cidade. Naquele tempo, pelo menos podia dormir até mais tarde, pensou. O enorme relógio de parede, talhado em jacarandá, sinalizava que já eram cinco horas. Ele precisava apressar-se para o pungente passeio matinal. Correu para o banheiro e, durante o asseio, viu que o espelho não mais lhe retribuía a cordialidade. Por mais que forçasse os sorrisos, o cristal bisotado refletia um semblante aborrecido, como se ele usasse a máscara do enfado. Seu infortúnio tinha nome duplo e sobrenome imponente: Maria de Maria Mergulhão. Viúva de um dos homens mais poderosos das redondezas, ela retirara Antônio do cabaré onde ele levava vida fácil, prometendo-lhe outra, mais fácil ainda. Amancebou-se com a velha e, da noite para o dia, passou a morar em um bangalô, que, embora carregasse a fama de mal-assombrado, oferecia-lhe tudo do bom e do melhor. Mesmo assim, se sentia a pior das almas viventes. A casa não era o problema. O inferno era Maria. Todos os dias, o casal, cuja diferença de idade beirava os cinqüenta anos, visitava, aos primeiros raios de sol, os pomares e roseirais do sítio onde viviam. O passeio extratemporâneo era uma entre tantas esquisitices da velha, que exigia a presença do companheiro em suas desventuras. E ele ouvia sempre as mesmas histórias. Lembranças de um mundo encantado, onde Maria de Maria perdia-se em devaneios sobre um império de poder e riqueza, erguido pela indefectível figura do Coronel Mergulhão, falecido há trinta anos. – Aquilo é que era homem! – suspirava a viúva, colhendo as rosas brancas que enfeitariam, durante o dia, o altar erguido em louvor ao Coronel, no centro da sala de estar. Antônio engolia em seco, e, tocado a chicote, rezava à tardinha diante do relicário. O ápice da via-crúcis chegava com as noites – quando tinha que enfrentar a penumbra da casa, iluminada somente por candeeiros –, e a pior, e mais exótica, das torturas: dormir com a velha debaixo da cama. O capricho era justificado pelo respeito, e, principalmente, pelo temor de Maria ao Coronel Mergulhão. Imaginava que o espírito do finado vinha visitá-la todas as noites e sob nenhuma hipótese ele poderia vê-la ao lado do amante. Precisavam se esconder. Deitado sobre o frio chão de cimento, Antônio ainda era obrigado a agüentar os desvarios da viúva, que tinha terror noturno. Sonâmbula, ela lastimava a perda do marido. Sua voz aguda martelava os tímpanos de Antônio: – Meu Deus, tudo se acaba! Tanto bem que eu te queria! – berrava a velha, de olhos bem acesos, debaixo da cama. Incapaz de cometer qualquer maldade contra a concubina, Antônio suportava todas as suas excentricidades, mas estava chegando ao limite. Naquela manhã, ele não foi ao passeio. Ignorou os apelos do relógio de jacarandá e decidiu ir ao sótão, em busca de alguns pertences. Pretendia fugir. Capítulo II - O gato A primeira coisa que Maria de Maria notou ao despertar foi a ausência de Antônio. - Fi duma égua!!! - praguejou. Fazia tempo vinha notando nele um comportamento fora dos conformes, os olhos perdidos na distância, os abraços cada vez mais frouxos. Mas daí a lhe abandonar... Muita ousadia! - Vais pagar, ah!, vais! Foi no sótão que confirmou as suas suspeitas: a tralha toda havia sumido. Nenhuma chinela, nem cueca. O amante deixara para trás apenas a raiva que ela agora sentia. Saiu então do bangalô como se estivesse se escondendo. Não podia dar ao mundo tamanha colher-de-chá. Todo mundo sabendo do seu infortúnio? De jeito nenhum. Alimentar a língua da maldade alheia nem pensar. Deixando de lado os pomares e roseirais, sua visita naquela manhã foi ao cemitério, ao túmulo do finado Coronel. Assim que chegou já foi entabulando conversação, pedindo conselhos, isso & aquilo. Voltou para casa duas horas depois, com o sol da manhã escalando o céu, um sorriso misterioso estampado no rosto e um gato preto e magro debaixo do braço. As rosas brancas que enfeitavam o altar foram substituídas por velas vermelhas e pretas, em cujas chamas ardia o azedume da vingança. O gato, ignorante sobre o seu destino, dormitava preguiçoso sob a cama, no lugar que pertencera a Antônio. No fim da tarde, na hora da oração em louvor ao finado Mergulhão, Maria de Maria arrancou o gato dos seus sonhos e o levou até o altar. Amarrou então as patas do animal com um barbante grosso e começou a passar a chama das velas em seus bagos - ora a vermelha, ora a preta. Os miados de desespero do gato se confundiam com a gargalhada insana de Maria, que ainda berrava: – Meu Deus, tudo se acaba! Tanto bem que eu te queria! *** No cabaré, para onde voltara de mala e cuia, Antônio percebeu um ligeiro ardor nos colhões - mas não deu muita confiança ao fato. Somente quando viu as chamas lhe escorrerem pelas pernas abaixo é que se deu conta da verdade. por PARREIRA às 4:23 PM ||||| |
Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008
Foi rápido. E ali, onde antes não havia nada, tava lá o envelope. Ele pensou em abrir a porta, quem sabe o remetente ainda estivesse lá fora, ou mesmo entrando no elevador – mas nada, ninguém. Apenas o corredor vazio, cheio de sombras amareladas. Ele voltou para o apartamento arrastando atrás de si uma interrogação do tamanho de um bonde, mas a visão do envelope, esquecido no chão, criou novas possibilidades. Não havia nome de remetente no verso, mas o destinatário era bem claro: ele mesmo. Abriu então o envelope; lá dentro, um cartão impresso com letras douradas: tem o prazer de convidá-lo para o velório do saudoso ELEUTÉRIO GOMES NOBRE, a ser realizado no próximo dia 12 do corrente, a partir das 20 horas. Certos da sua presença, agradecemos antecipadamente. Na sua memória recente, nenhum Eleutério. Nem na remota. Gomes Nobre, por outro lado, não lhe dizia absolutamente nada. Mais um aí que morreu, pensou. Nada mais. Havia, no entanto, o convite. Seria indelicadeza não atendê-lo, afinal, a família o escolhera entre tantos outros. Conferiu então o endereço, impresso no rodapé do cartão em letras menores: Coincidência ou não, o endereço levava o nome do defunto. Uma família importante, com certeza. Mais um bom motivo para comparecer, pensou, não é sempre que alguém desse naipe nota a minha humilde presença na terra. Isso justo e acertado, ele correu então para o trabalho, porque a vida, com trocadilho e tudo, esta sim está pela hora da morte. No dia 12, o Dia D, é que ele percebeu que recebera o convite com uma considerável margem de tempo. Um convite antecipado. Decerto o defunto e os familiares, de comum acordo, se reuniram à noite e o próprio morto, então vivo, determinou: convidem esse, aquele & aquele outro. Mandando o convite amanhã, tenho certeza de que, na data aprazada, tudo estará nos conformes, inclusive eu. Não pôde deixar de rir. Mas os usos e costumes do defunto e sua família, essas coisas, nada disso era da sua conta. Gente é mesmo estranha, pensou. Se convidam centenas de pessoas e gastam milhões com cerimônias de casamento, que em geral não duram um peido, por que não fazer dum velório um evento social? A morte, pelo menos, tem uma característica mais duradoura. De um casamento a gente desiste, ou anula, ou divorcia; quero ver alguém voltar atrás depois que a sinistra lhe passa os braços pelo pescoço e sela o seu destino com um gélido beijo na boca! Pouco antes de começar a se vestir, a dúvida cruel: com que roupa que eu vou? Noel Rosa a parte, era um momento delicado: uma roupa mais sofisticada, black-tie ou algo assim, poderiam considerá-lo esnobe, metido a besta. Ou pior: um caipira sem noção do ridículo. Já uma roupa mais informal, jeans-camiseta-tênis, poderia ser tomada como desrespeito à memória do passante, uma liberdade sem cabimento. O que, então, o quê? Passou a mão no telefone e ligou para o Zé, seu conselheiro para assuntos desta e de outras naturezas. Antes mesmo que soltasse a primeira sílaba, o próprio Zé se fez ouvir: - Pois é, foi bom você ter me ligado. Imagine que fui convidado para um velório, um tal de Eleutério morreu, e eu tô aqui numa baita dúvida: com que roupa que eu vou? - Eleutério? Você disse Eleutério? – ele perguntou. - Isso mesmo. - Gomes Nobre? - Gomes Nobre, o pobre. Mas cá entre nós: antes ele do que eu. Você foi convidado também? - É. - Fomos, então. Eu, você, a Sabrina, o Jorge... - Isso é um velório ou uma partida de futebol? - Sei lá, mas o meu maior problema agora é a roupa. Você vai me ajudar ou não? - Mas eu liguei pra VOCÊ me ajudar... O Zé bateu o telefone do outro lado. Novamente a sós – e sem outra alternativa -, ele finalmente resolveu: nem tanto isso, nem tanto aquilo. Uma camisa básica, calça idem, um sapato preto e discreto. Vestido assim, seria recebido até em Buckingham. Meia hora mais tarde, no interior de um táxi detonado: - Por favor, eu quero ir... - Alameda Gomes Nobre, 69 – falou o motorista, um velho de aspecto pré-histórico. – Todo mundo está indo pra lá. Parece que a festa vai ser boa! - Não é festa, é velório. - Dá na mesma – falou o velho, num tom que não admitia réplica. Afundando no banco de trás do táxi, ele começou a olhar a rua. A cada cem metros, percebeu, piscava uma placa luminosa: Você está a 5 km da Alameda Gomes Nobre, ou Alameda Gomes Nobre: você está chegando. por PARREIRA às 1:17 PM ||||| |
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