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Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

ESTRANHA CONDIÇÃO



Eu notei que as pessoas estavam deixando de me entender quando pedi um beijo à minha mulher. Ela passou direto, sem nem ao menos me olhar na cara. Não que isso fosse incomum; acontecia sempre. Mas ela, ao menos, me mandava à merda com alguma elegância, ou resmungava qualquer coisa espirituosa. Dessa vez me ignorou solenemente, orgulhosa feito uma rainha, como se eu fosse menos que nada.
Na rua eu confirmei as minhas dúvidas: falei com três pessoas diferentes, e as três não entenderam uma sequer das minhas palavras. Variei o estilo e o idioma, português inglês javanês, adocei as palavras – mas de nada adiantou. A minha voz, definitivamente, não alcançava mais os mortais.
Dei ao fato a mesma atenção que se dá a um fio de cabelo perdido. Um homem, afinal, deve manter a dignidade. A vida segue em frente, e se os outros cidadãos não me compreendem mais, paciência.
Mas a coisa piorou quando deixaram também de ler os meus bilhetes. Até então eu vinha me virando relativamente bem, escrevendo mensagens curtas em papéis cuidadosamente guardados nos bolsos da calça ou da camisa. Os bilhetes de bom-dia e obrigado, por exemplo, mandei plastificar: o uso contínuo, vocês sabem, seria capaz de danificar o papel, delicado por natureza. Mas não demorou muito e todo mundo passou a ignorar também as minhas mensagens escritas, e nem mesmo o enorme Filosdaputa que pintei num cartaz com tinta vermelha teve sorte diferente.
Analisei friamente a minha situação: ninguém ouvia a minha voz, ninguém lia os meus bilhetes. Existia, mas era como se não. Porque um homem, reflitam, só é completo quando notado, quando, por mais ignorante ou imbecil, faz parte da alcatéia e é aceito pelos outros animais.
A mim então, de uma hora pra outra, nada mais era permitido: sem voz, sem letra, um fantasma errando pelas sombras. Querem o meu desespero, sem dúvida. Não o terão.
Instalado na minha calçada, que também é o meu castelo, tomo agora um vinho do porto, fumo um charuto de primeira e leio com redobrado prazer o meu velho Baudelaire. Quando sinto fome ou outra necessidade qualquer, me levanto preguiçoso, sacudo um pouco os carrapatos, meus mais novos companheiros, e vou ao mercado e roubo tudo o que preciso. Não me ouvem, como vocês sabem, não lêem o que eu escrevo e de uns tempos pra cá já não me enxergam mais. A invisibilidade, por ironia, me proporciona tudo aquilo que eu sempre quis. É uma estranha condição de vida a minha, vocês devem pensar. Eu digo apenas que não é a pior.