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Segunda-feira, Março 31, 2008
VALE A PENA CLICAR NA IMAGEM! ![]() por PARREIRA às 9:25 PM ||||| |
AS PRIMEIRAS A GENTE NUNCA ESQUECE A primeira publicação em jornal:
As primeiras devoluções
A primeira máquina de escrever:
Não conseguiu ler/ver nada direito? Clique aqui para ver ampliado em PDF por PARREIRA às 9:11 PM ||||| |
ESSA MULHER QUE EU NÃO SEI QUEM Rápido assim: eu vi a mulher, ela se percebeu sendo vista, entrou no espelho e desapareceu. Apaguei o cigarro antigo com as botas mais antigas ainda e fui atrás. O espelho permitiu a minha entrada sem perguntas. Os espelhos, afinal, nunca perguntam. Chovia peixes quando botei os pés pela primeira vez naquela terra escura. Uma única luzinha acesa lá longe. Uma casa, talvez um olho. E nada da mulher. Essa coisa dos peixes caindo do céu não é milagre porra nenhuma: dói pra cacete. E incomoda. A muito custo avancei alguns metros, sempre tirando os peixes do caminho, protegendo a cabeça dos peixes maiores, as botas esmagando os peixinhos. Mas a mulher, encontrá-la, é claro que sim. Com peixes e tudo. A grande boca escura do céu soprando espinhos no meu rosto. Soubesse das dificuldades, teria ficado na minha. Ou não, porque o que interessa mesmo é a aventura, e uma mulher que se deixa escapar por um espelho não é sempre que. A terra molhada de peixes, a luz brilhando ao longe. Os meus passos. O coração saltando aos solavancos. O nome disso é dor. E sem essa de pensar que a dor nos torna mais fortes. Isso é conversa de almanaque. A dor nos torna mais doloridos. Avanço, portanto, de dor em dor, a alma dolorida. Ao desaparecer pelo espelho a mulher deixou uma mensagem bem clara atrás de si: não me acompanhe. Mas eu não tenho mais nada a perder, já perdi. De tal maneira que li o não me acompanhe com as letras do vem meu amor. Eu, que apesar de tudo ainda procuro o amor. E é esse amor-peixe que me golpeia a cabeça, que me encharca a roupa de escuridão, o amor é essa luz que sei ao longe mas nunca alcanço. Um caminho é feito de todos os outros caminhos: esquerda direita em frente tanto faz. O caminho é aquilo que se apanha pelo caminho: uma rosa, um sentimento, um monstro. Porque assim, enfim livre de uma vez por todas dos peixes e das dúvidas, fui em frente, o açoite dos espinhos cedendo lugar ao afago de mãos invisíveis. A mulher, sim, estava lá em algum lugar. Cheia de poesia e facas, a boca pronta para o beijo ou mordida. A mim só restava conferir. Fixar a cara do amor diante da minha, respirar o seu bafo, provar a sua cor. Porque ainda acredito, talvez minha única crença, essa, no amor. Agarrar o amor pelos ombros sacudi-lo até enchê-lo de pavor de mim; abrir os seus olhos para mim. Sim, eu existo! - gritaria para o amor, que tem me ignorado desde sempre. E de repente o amor nada mais é que essa mulher que eu não sei quem, que entra pelos espelhos como quem respira, que flutua entre a chuva de peixes. Uma mulher que me escapa. Subitamente percebo que encontrá-la, alcançá-la, seria a chave de todos os mistérios, a resposta das respostas. E também o fim, porque sem mais nada a esclarecer, pra quê? Parado no meio do caminho, a luz ao longe, um olho?, os peixes voltam a cair do céu com redobrada dedicação. Voltar pelo mesmo espelho não é uma alternativa, é covardia; permanecer aqui sob a chuva de cardumes inteiros é burrice. O quê, então? As dúvidas do amor, sempre. por PARREIRA às 5:01 PM ||||| |
Domingo, Março 30, 2008
MESA DO EDITOR A idéia é mais ou menos isso: mediante uma quantia X, você hospeda o seu livro lá, as editoras vêm (e vêem) e, caso haja interesse, "adotam" o seu livro. Simples assim. Clica aqui para saber mais:
Me pareceu uma boa alternativa. por PARREIRA às 11:02 AM ||||| |
Sábado, Março 29, 2008
MAIS DOIS TEXTOS DO ARQUIVÃO Estou resgatando um monte de coisa que andava por aquele lugar estranho chamado "o fundo da gaveta". Não se surpreendam, portanto, com o que pode sair daí. PEQUENO ENSAIO SOBRE O TEMPO PARALELO No meio da noite ouvi os gemidos de vovó. Como se atendendo a uma determinação superior, calcei os largos chinelos de veludo, acendi a luz do quarto e me dirigi até a sua cama. Aproximei-me mais e, nervoso, assisti então ao nascimento de mamãe. Anos mais tarde, eu e ela já corríamos pelo quintal como dois alucinados, experimentando todas as sensações que a nossa idade permitia. Dessa época lembro-me ainda dos sorvetes e da emoção inigualável da primeira bicicleta. Depois, quando nos esquecemos dos brinquedos e dos doces, começou a melhor fase de nossas vidas. Com freqüência nos reuníamos à tarde na varanda da casa e traçávamos planos para o futuro. Eu sonhava com aviões e viagens ao redor do mundo, e mamãe, bem mais modesta que eu, impunha o portão como limite aos seus sonhos, imaginava-se apenas feliz e esperava por um bom marido. Costumava falar muito em casamento, mas eu só comecei a me preocupar de fato com essa possibilidade no dia em que papai passou diante de casa dirigindo o seu primeiro automóvel. Desde então as tardes na varanda me esqueceram e passaram a ser de papai. Longe do olhar severo de vovó, ele e mamãe se entregavam à vertigem dos beijos e das carícias mais ousadas, mergulhando profundamente num mundo cada vez mais repleto de suspiros e desmaios. Pouco tempo depois de começado o namoro, um escândalo já previsto por mim abalou a vizinhança conservadora e antiquada: mamãe estava grávida. Vovó, com seu jeito prático e objetivo de resolver os problemas, tratou logo de punir os dois infratores com o casamento, que se realizou alguns dias depois. Os meses se passaram rapidamente e, um dia antes do parto, tornei a me encontrar com mamãe. Tranquilizei-a quanto ao futuro da criança, tomei em minhas mãos as suas mãos ansiosas e me despedi. - Quando voltarei a vê-lo? - perguntou ela. - Amanhã, com certeza - respondi e me afastei. AUSÊNCIA DE CRIME O oficial irrompeu em minha sala no exato instante em que eu me servia de café. Era diferente dos outros homens - de mim - apenas por causa do uniforme. E também pela arma atada ao coldre. Ao vê-la, imaginei uma história antiga: o mais forte sobre o mais fraco. - Não quer sentar? - perguntei. O oficial olhou pra fora e fez um gesto que só ele mesmo poderia traduzir. Depois, voltando-se para mim, sorrisos: - É claro. Coloquei café em sua xícara. - Açúcar? - Não, por favor. Seu corpo não era exatamente o corpo de um homem gordo. Era forte, eu diria. O cuidado com o açúcar devia ser uma vaidade indevassável. Sombras moviam-se do lado de fora. Um murmúrio de soldados tagarelas invadia meus ouvidos. - Prefere biscoitos de champanhe ou pão, oficial? Ele tomou um gole de café e seu rosto se contraiu. - Aceito um pedaço de queijo, se não for abuso da minha parte. Cortei uma fatia generosa e lhe estendi. Na passagem, nossas mãos se tocaram. Senti uma umidade pegajosa em seus dedos. - Nervoso? - perguntei. Não obtive resposta. - Oficial - continuei - creio que o senhor deve saber que é muito difícil o exercício da solidão. Que não e coisa pra qualquer um. - Certamente - respondeu ele. - Eu mesmo já tentei, mas foi inútil. A solidão requer renúncia ao mundo, e são raros os homens que conseguem realizar esta proeza. Eu não conseguiria; só mesmo se fosse preso. - Quem sabe - sussurrei. - Mas vejo que o senhor é um homem sensato, apesar da farda. O oficial levantou os olhos. - Sem querer ofendê-lo, é claro. Não é nada pessoal. Até gosto do senhor, da sua postura austera. Sinto até que poderia lhe confiar alguns segredos. Poderia? Ele concordou com a cabeça. Lembrava um porco mastigando o queijo. - Minha vida – falei -, minha vida são os meus livros. Livros que eu leio e principalmente livros que eu invento. Da porta pra fora há outro mundo – o seu mundo -, regido por suas próprias leis, com suas relações de causa e efeito. Mas aqui, onde o senhor está sentado, é o meu mundo, e as leis são outras: são as minhas leis. Eu faço o que bem entender. O oficial cravou os seus olhos nos meus: trevas incandescentes. Um segundo depois, irritado, levantou-se e foi até a janela. A luz do sol lhe emprestou contornos delicados. - Caralho! – berrou. – Calem a boca! Estou tentando trabalhar. Voltou-se para mim, o pedido de desculpas impresso nos olhos. Indiquei-lhe a cadeira. - É difícil – disse ele -, é muito difícil. Sou um oficial, passei metade da minha vida sob a mais dura disciplina para acabar assim, com um bando de recrutas incompetentes sob o meu comando. Imagina como isso é terrível? Cortei outra fatia de queijo e lhe estendi. Suas mãos tremiam despudoradamente. - Como eu dizia – continuei -, em minha casa é outro mundo. Lá fora é o senhor e o exército, os pelotões de fuzilamento e os tribunais. Os edifícios babélicos, fálicos, que arranham diariamente a vagina celeste. Lá fora é o caos das mudanças inúteis, dos novos presidentes, ministros, das guerras santas e hereges, dos ladrões. Lá fora é a polícia, a dor, as putas, os bêbados. Já foi um bêbado, oficial? O oficial escondeu o tremor das mãos. - Não. - Eu tinha certeza que não. Um homem como o senhor, como poderia... Mas, voltando ao assunto: aqui sou eu. Sua farda e o seu revólver nada representam para mim. O oficial sorriu, cínico. A máscara cedia lugar para o verdadeiro rosto, que era ainda mais feio, sujo. Ele então depositou o restante do queijo sobre a mesa e tentou falar. O impedi com um arroto tão poderoso que fez com que as paredes tremessem. - Perdão – falei. – A solidão desenvolve hábitos nada ortodoxos. Indisfarçavelmente enojado, falou: - Constato pelas suas palavras e pelo seu gesto grosseiro que o senhor está desafiando abertamente o meu poder. Servi-me de mais uma xícara de café. - E o que é o poder, oficial? Ele explodiu: - O PODER SOU EU! - Ora, ora, o que é isso, oficial? Acalme-se. Não preciso desse circo. Café? Enchi a xícara até a borda, sem açúcar. Ao passá-la, aconteceu o previsto: o tremor das mãos do oficial fez com que o líquido derramasse. - Ó, desculpe-me, senhor oficial... Sou mesmo um desastrado. Permita-me ajudá-lo. - Vai pra putaquiuspariu! – berrou ele. – Eu sei que foi de propósito. Sorri. O animal brotava do homem supostamente educado. - De maneira alguma – retruquei. – Como pode pensar uma coisa dessas a meu respeito? O oficial se levantou e passou a dar voltas pela sala. Diante da janela, a surpresa: - Malditos! Sumiram. Correu até a porta mas não conseguiu sair. Estava trancada. - O que significa isso? – perguntou. - Acalme-se, oficial, já disse. Venha, sente-se. Quer mais queijo? - Pro diabo o queijo! Meus homens desapareceram, preciso ver o que aconteceu. - O que o senhor precisa realmente é revelar o que o trouxe até aqui – sentenciei. O oficial hesitou diante da janela. Também ela estava agora trancada, escondendo o sol da manhã. - Como consegue fazer isso? - O senhor tem a memória fraca, oficial. Já se esqueceu que quem faz as leis aqui sou eu? O oficial ficou rondando a mesa como uma ave de rapina. Duvidava. - E então? – perguntei. - O senhor é um criminoso – falou finalmente. – Tão perigoso que eu, do exército, fui designado para este caso. Não pude disfarçar a minha surpresa. - Eu? - Isso mesmo, o senhor. Levantei-me e também passei a rondar a mesa, o oficial na minha frente. - Responda-me, oficial: quantos homens o senhor matou em sua carreira? Ele permaneceu em silêncio. - Quantos torturou? - Isso foi no passado, já não tem mais importância. As leis agora são outras. - Quantos? – insisti. O oficial explodiu novamente; com um gesto automático, fruto de anos de exercício, levou a mão ao coldre. - O criminoso aqui é o senhor! Voltei à mesa e me sentei. - Café, oficial? - Enfia o teu café no cu! - Que modos, oficial. E eu que pensei que o senhor fosse um homem educado ... - Escuta, seu patife - disse ele com o dedo enfiado em meu nariz. - Estou aqui para cumprir uma missão e vou cumpri-Ia, queira você ou não. - E qual é a sua missão? O oficial me encarou, sério. - Minha missão é prendê-lo, verme. Verme. Combina com queijo. Cortei outra fatia, desta vez para mim. - Onde estão os seus soldados, oficial? O homem ficou ainda mais embaraçado. Correu outra vez até a porta e a esmurrou. Seus olhos faiscaram diante da janela. Depois, quando percebeu a inutilidade dos seus gestos, voltou desolado e se sentou. - Já que vai me prender, oficial, poderia pelo menos me revelar qual foi o meu crime. Que eu me lembre, nunca cometi nenhum. O oficial tomou minhas palavras como uma confissão. Tirou do bolso da farda um papel amassado onde constava apenas o meu nome. - Este é o seu crime - falou, orgulhoso. Segurei o papel entre o indicador e o polegar: uma coisa nojenta. - Não entendo - menti. O oficial estufou o peito como se já estivesse a um passo da vitória. - Ausência de crime - falou. - Sua ficha é a única no País que ainda permanece limpa, e isso, segundo o novo Código Penal, configura crime da mais alta hediondez. Todo cidadão fiel à Pátria tem pelo menos uma sujeira em sua ficha. Derramei um olhar de extrema piedade sobre o oficial. Como eu podia ter considerado inteligente a uma besta desse porte? - Oficial - falei -, como vai me prender por esse crime tão• horroroso? - Meus soldados estão lá fora - falou sem nenhuma convicção. - E há também urna viatura a nossa espera. - E sairemos por onde? A porta e a janela estão definitivamente trancadas. O oficial, aflito, olhou para o lado e eu vi em seu rosto o rosto de um menino apavorado. - Não percebeu ainda, oficial? Quem está preso é o senhor. Como eu já disse, é muito difícil o exercício da solidão. Sou um homem como todos os outros, também preciso de alguém para conversar. - Isso é um absurdo! - gritou. - O senhor está violando o meu direito de cidadão livre. - E isso é um crime, suponho. Apavorado: - É claro que é! Artigo XXI, parágrafo 19 do novo Código Penal: "Todo aquele ... " - Obrigado - interrompi. - Era isso mesmo o que eu queria saber. Como vê, acabo de me tornar um criminoso, e, utilizando as minhas leis, fiz também com que fossem cumpridas as suas. Como as coisas navegam na ordem inversa em seu mundo, tornando-me criminoso aqui eu deixo de sê-lo lá fora. Isso me torna isento da prisão. Já quanto ao senhor ... O oficial depositou em mim dois olhos estarrecidos. Devolvi a minha ficha mas ele a deixou cair. Estava em choque, petrificado, o corpo tenso como a corda de um instrumento. Precisava relaxar. - Café, oficial? por PARREIRA às 11:31 PM ||||| |
FILOBÔNIO FILÓ Abaixo, dois textos do FILOBÔNIO FILÓ, um sujeito muito atrapalhado. Logo mais, o livro completo, para download ali à esquerda. o paraíso deserto Depois de muito rodar por entre os prédios sem personalidade do centro, Filó se depara com o antigo e imponente mosteiro. - Caramba! – ele exclama. – Preciso ver isso de perto! O de perto, nas palavras de Filó significa por dentro, e por dentro lá está ele, conduzido pela melodia de um órgão que não se vê mas que se sabe em toda parte. Tendo a música de Bach como guia, Filó explora o interior do mosteiro: arcos românicos e germânicos pra todo lado, toques bizantinos aqui e ali, mármores e granitos e esculturas de evidente inspiração medieval. - É o paraíso – diz ele, o queixo amparado pela mão. É o paraíso, sim, mas um paraíso deserto, uma ilha de sonho solidamente ancorada no caos. Nenhum monge, nenhum fiel, nenhuma alma para admirar os ricos vitrais multicoloridos. - E o órgão, quem toca? A resposta Filó encontra logo adiante: sobre o altar-mor, todo paramentado, o computador que tudo controla, das portas ao órgão, e que agora, na ausência de Deus, é de onde emana toda a fé. tecnologia royal Os slogans publicitários são impiedosos: - Micro: programe-o ou deixe-o - Teclado sem fio, você ainda vai ter um - O Pentium é nosso - digito ergo sum! Filó, por causa dessas e de outras pressões mais, se sente um autêntico homem das cavernas. Vivia em paz com a sua antiga máquina de escrever – uma Royal – até o momento em que o mundo foi tomado pela febre da informática. Fazer o quê? O óbvio: na salinha apertadinha Filó enfia um moderno microcomputador com tudo a que tem direito: disco rígido, disco flácido, impressora, memória RAM REM RIM, o diabo a quatro. A tudo isso acrescenta mouse, cat, fish e outros bichos, porque computador completo tem que ser completo. Feliz, ele observa com orgulho a nova aquisição, e já bola uma maneira de comunicar ao mundo que não é mais um neandertal do teclado. Dias depois, os poucos amigos de Filó recebem, não pelo email mas sim pelo correio, o convite para o début do micro – convite datilografado na Royal, é bom que se diga. por PARREIRA às 11:57 AM ||||| |
tem mais na CHARGE ON LINE por PARREIRA às 9:37 AM ||||| |
TÃO RINDO DO QUÊ?
só pode ser da gente! por PARREIRA às 9:11 AM ||||| |
Quinta-feira, Março 27, 2008
SUSTO DA PORRA!!!
E eu tava lá... por PARREIRA às 7:20 PM ||||| |
Sábado, Março 22, 2008
O BAÚ DE PANDORA
TEM MAIS AQUI por PARREIRA às 11:32 PM ||||| |
PARREIRA EM ALEMÓN!
Um textinho publicado na Áustria, em 1996. O mais curioso disso tudo é não entender uma palavra sequer daquilo que você mesmo escreveu... veja mais aqui (pdf) por PARREIRA às 5:47 PM ||||| |
QUIMERA NO CRONÓPIOS! Vai lá! É só clicar na imagem abaixo: ![]() por PARREIRA às 11:21 AM ||||| |
OUTROS MUNDOS
tem mais aqui por PARREIRA às 2:23 AM ||||| |
CRÔNICAS POSSÍVEIS 1 Tudo acontece ao contrário em Marianna: os galos cantam ao cair da noite, os carros avançam de marcha-à-ré e sempre chove pra cima. Quando chove.
Apesar disso, a vida em Marianna é considerada normal por todo mundo. Os relojoeiros atrasam os relógios com naturalidade e as cenouras crescem todas com suas raízes voltadas para o sol, que no verão surge sempre à meia-noite. Quando nascem, os velhos não dão trabalho algum: sabem todos que em breve chegarão à idade adulta, e que depois disso uma adolescência repleta de surpresas e delícias lhes está reservada. Este, aliás, é o maior orgulho da cidade: o fim da velhice só traz alegrias em Marianna. O único problema da cidade são os descontentes. Sim, há descontentes em Marianna, aos milhares. Eles reclamam de tudo, não concordam com nada e acham que a vida de verdade está lá fora, além dos muros que cercam a cidade. Por conta disso, a cada ano, muitos partem. E não se dão conta do óbvio: partir de Marianna, por causa da própria natureza da cidade, significa voltar a ela.
2 Sempre gostei de carneiros. Minha infância foi repleta deles: carneiros brancos, pretos, verdes; carneiros altos, sorridentes, inquietos, carneiros quadrados. À mesa também estiveram muitos carneiros, que mamãe preparava com um exagero de vinho e pimenta e hortelã.
Hoje, no entanto, não vejo mais carneiros por aí. Uma tristeza. As pessoas, aliás, nem sabem o que é isso. Algumas consideram já ter visto algo parecido na TV; outras, em fotos amareladas. As crianças que eu conheço acham que os carneiros são apenas seres imaginários criados pela internet. Foi por causa disso que resolvi fotografar carneiros. Trazê-los de volta à luz, resgatá-los do esquecimento. Provar ao mundo que eles ainda existem. Tenho 7 câmeras que registram tudo o que passa na rua, 24 horas por dia, todos os dias. Meu esforço, no entanto, tem resultado inútil: acumulo já há meses fotos e mais fotos de caminhões, dinossauros, tigres de bengala e fusquinhas, hidras, minotauros, senhores de chapéu coco, medusas, anjos e demônios, a putaquiuspariu. Carneiros, nenhum. 3 A caixa é pequena: menos de um metro quadrado. Mas tem me sustentado há mais de 20 anos.
Eu faço assim: chego na cidade, alugo um teatro modesto e espalho cartazes com uma fotografia colorida da caixa pelos postes. Em vermelho, uma frase bem simples: "O que será que tem dentro da caixa?". É o suficiente para lotar o teatro. A cada uma das 100, 200 pessoas eu falo: "Não é fantástico? Nunca vi coisa tão genial dentro de uma caixinha!". Com medo de serem consideradas insensíveis a tão refinada manifestação artística, as pessoas todas concordam. Algumas até acrescentam: "É mesmo! O conteúdo da caixa é impressionante!". Impressionante são as pessoas, eu diria. Mas isso não vem ao caso agora. 4 No mês passado fui vítima de dois assaltos – mas tudo correu bem: eu saí vivo e o ladrão, satisfeito. Percebi isso nos seus olhos.
Na semana passada, um assalto apenas. Mas foi genial: fui seqüestrado e passeamos muito pela cidade, eu e o ladrão. Descobri, aliás, ser ele um apreciador da filosofia de Kant. Um homem raro – e foi com raro prazer que lhe entreguei todo o meu dinheiro. - É o suficiente para as suas investigações filosóficas? – perguntei. - Tá de bom tamanho, doutor – respondeu ele, que se foi levando o meu carro. Ontem, no entanto, as coisas não correram nada bem: fui pego de surpresa, com pouquíssimo dinheiro, e o ladrão, percebi, ficou decepcionado. - Faltas desse tipo são intoleráveis – ele protestou. A mim só restou baixar os olhos e concordar, resignado. 5 Um dia ele criou um sol em seu quarto. E era tão perfeito e vibrante o sol que ele se sentiu animado a criar outras coisas. Veio daí uma lua, que era igualmente perfeita e redonda. Criou também um carro novo, porque era necessário. E depois disso tudo, para alegrar um pouco o ambiente, criou uma flor, uma solitária flor dentro de um vaso.
Tempos depois, cansado do confinamento, o sol criado se apagou. A lua, sentindo-se só, também se foi. O carro se convenceu que o mundo era grande demais, e resolveu rodar, rodar e rodar. Restaram só ele e a flor, criador e criatura. Mas o homem, como é natural, um dia também resolveu partir. A flor, sozinha, não teve outra alternativa: criou novamente um homem para ser por ele criada, mais uma vez. 6 Nós nos conhecemos no dia da sua morte. Foi curioso: eu passava na rua; na mesma rua ele havia acabado de morrer. Eu disse oi, ele falou oi. Para encurtar a conversa, no entanto, eu cheguei a ser grosseiro: “Não adianta você ficar aí falando comigo porque eu não acredito em mortos falantes!”. Ele gargalhou. E disse: “Pois agora que estou aqui deste lado, começo a duvidar – a vida existe mesmo ou não passa de puro sonho?”.
Faz três anos que conversamos. Eu continuo não acreditando. Ele duvida mais e mais a cada dia. Concordamos apenas num ponto: todas as respostas são insuficientes. 7 Passei anos falando bom-dia todas as manhãs. Alguns respondiam, outros não, a grande maioria sequer me notava.
Faz algum tempo, por distração, falei boa-tarde ao invés de bom-dia. O presidente da empresa ameaçou me demitir, os gerentes agora se calam quando eu me aproximo e os boys me olham com uma expressão que mescla admiração e repulsa. Eu compreendo: de uma hora para outra alterei o delicado equilíbrio das coisas. Isso é intolerável e eu tenho mesmo muita sorte por ainda estar aqui. 8 23 quilos, era o peso dela quando a conheci. Não pensei duas vezes e a levei pra casa. Três meses depois ela já pesava quase 100. Fiquei satisfeito por ter podido ajudá-la a superar a fome.
Desde então ela desenvolveu um apetite daqueles. Por isso não me impressionei quando ela almoçou os móveis da casa. Numa tarde de março, enfim, ela começou a comer as paredes. - Que tal? - eu perguntei. - Falta molho - ela respondeu. Hoje pela manhã, depois de lanchar o último tijolo da nossa casa, ela me lançou um olhar cheio de desejo. Sei o que ela quer. Falar que estou magro, isso & aquilo, não vai adiantar. Ao conhecê-la, compreendi imediatamente que com uma mulher faminta não se discute. 9 Tiro um crocodilo da boca, sem nenhum esforço. Os relâmpagos partem dos meus dedos como se ali tivessem passado toda a sua existência. Jarros e guarda-chuvas brotam dos meus bolsos com naturalidade. Dependendo do meu humor, meus olhos lançam chamas azuis ou verdes. Não posso evitar nada disso; sou assim desde sempre. Meus pais ganharam fortunas me exibindo. Eu, de fato, ganhei apenas poeira e sol. Mamãe só expressava o seu amor por mim aos tapas. E meu pai nunca teve olhos de me ver. A criança que eu fui se perdeu no calendário. Minha juventude é névoa. Sou apenas isso hoje: um homem que fala gafanhotos. Um dia, é claro, me cansei da família e dos espetáculos. Fui para o mundo tentar ser comum. Mas no escritório onde trabalhei todos ficaram chocados com as cobras que surgiam dos meus sapatos. Fui garçom por dois dias, apenas; nenhum cliente gosta de um sujeito que serve meias de seda e alicates junto ao prato principal. Acabei, portanto, voltando ao mundo dos espetáculos. Agora ganho a vida no circo que me abrigou. É o lugar que me cabe na terra. Gente de todo lugar vem me ver. Ficam maravilhados com as bugigangas que brotam do meu corpo. Eu me apresento, agradeço os aplausos e me retiro para o camarim. A sós, diante do espelho, de mim brotam apenas lágrimas e tédio. 10 – Que tipo de datas o senhor vende? – Todos eles. Tenho datas de casamento, de nascimento, datas para espetáculos e solenidades, datas para sorrir e para chorar, et cetera. O meu catálogo é o mais completo. – E datas de falecimento? – São as mais procuradas, tanto que para elas ofereço diversas modalidades: falecimentos acidentais, criminosos, por tédio e, é claro, naturais. Lógico que para tais datas cobro uma taxa extra, mas o serviço é de primeira. – Posso escolher? – Por favor. – Esta aqui parece boa: 1º de abril de 2300. – Perfeitamente. Mas devo lhe avisar que períodos superiores a cem anos sofrem um acréscimo de cinqüenta por cento. – Dinheiro não é problema. Pago agora. – Quem manda é o senhor. Já escolheu a modalidade? – Morte natural. – Naturalmente. – Agora me diga: quais são as garantias de que só morrerei na data prevista? – Garantias? Do que o senhor está falando? – Do que eu estou falando? Essa é boa! Acabei de pagar uma fortuna pela data, não paguei? – Disse bem: pela data. Quem vende garantias é outra pessoa. E agora, com licença. O fim do mês está aí e o aluguel, o senhor sabe, não espera. 11 Rolava na cama, sabia que era um sonho, mas rolava e rolava na cama. Em alguns momentos parava, encontrava a si mesmo no corpo de um estranho animal e então enchia-se de pavor. Logo em seguida repetia “é um sonho é um sonho” e relaxava, o sono tornando a fluir lento e macio. O sonho, contudo, envolvia-o novamente em suas garras e ele se via como um gato, um guarda-roupas, um abismo sustentado pela vertigem. A noite correndo solta, projétil veloz em direção ao susto, e ele na cama, rolando, sonhando. Nunca antes sonhara com tal intensidade, tal realismo: sim, era ele o cavalo que subia escadas, reconhecia seus cascos cintilantes no mármore frio e o cheiro viril que se desprendia de seu pêlo. Era também o anjo desgovernado em queda, o Expulso, o exilado dos céus. E era ainda a flecha em vôo e o ar cortado pela flecha, o caos e a plenitude, o princípio e o fim, o macaco. Era o macaco, ele sabia, e sabia também que as lendas atribuíam ao macaco a origem do homem. Não queria sonhar-se homem, sentir-se homem, completamente homem, e por isso ele, Centauro, despertou. 12 Obstinadamente construída para abrigar em suas galerias e corredores todos os livros do mundo, a Grande Biblioteca se ergue como a mais completa de que se tem notícia. Por suas salas de leitura passam diariamente sábios filósofos e leigos de toda espécie, gente que vem pesquisar ou escrever ou simplesmente discutir em línguas remotas pelo mero prazer da erudição. A estes somam-se ainda turistas ocasionais, loucos de toda sorte e os facilmente reconhecíveis apaixonados pela Galáxia de Gutenberg. Todos, sem exceção, são unânimes em afirmar que a Grande biblioteca é o Magnífico Espelho do Mundo. Ignoram, todavia, que a verdade da afirmação se dá pelo seu contrário: não há alteração no mundo que não tenha sido verificada antes na biblioteca, lugar onde brotam com a mesma força o progresso e o caos.
13 Você descreve a mulher para o seu melhor amigo, e a sua descrição já não é mais aquela de quem apenas viu, mas outra, de quem se apaixonou: olhos dum verde oceânico, cabelos dourados de sol, corpo escultura divina. O seu amigo comenta a descrição, acrescenta e subtrai, e grava na memória não a imagem de uma mulher, mas uma metáfora da natureza. O seu poder de descrição, porém, não é suficiente para expressar nem a mulher nem a metáfora, de maneira que, ao conversar com um parente sobre o assunto, nele imprime a idéia de que o objeto do qual se fala não passa de uma caixa de linhas disformes, com fiapos de tecido flutuando ao vento e pontilhada de orifícios aqui e ali. Este parente, por fim, que por vício ou virtude costuma torcer até mesmo os conceitos mais elementares, numa noite de calor e cerveja se encontra com você, e num tom de confidência decide se exercitar: à caixa quase abstrata acrescenta contornos femininos, olhos dum verde oceânico e cabelos dourados de sol, corpo escultura divina. A tudo isso você ouve com atenção e respeito, maravilhado pelo fato de haver no mundo duas mulheres tão iguais. 14 Muito, muito quente. Sobre a mesa, o meu velho ventilador, suando para me refrescar um pouco. Um dia daqueles, posso garantir. De repente, assim, uma pomba entra no escritório. Olha rapidamente pra mim e vai em direção ao ventilador. Ficam um diante do outro por alguns segundos. O silêncio dos dois, percebo, contém uma conversa importantíssima. E a pomba então se vai, não sem antes olhar pra mim como se me repreendesse. Olho para o ventilador e falo: - Chegou a hora, não é? Ele faz um sinal afirmativo. - Então vai - eu digo. - Pode ir. Agradecido, o ventilador levanta vôo e sai pela janela em direção a pomba, que já vai longe. Eu observo o seu afastamento por alguns instantes, mas retorno imediatamente ao trabalho. Essa coisa de despedidas não é comigo. 15 Ela tem três olhos, mas isso não me incomoda nem um pouco. Pelo contrário: são três olhos belíssimos, um deles um pouco torto, é verdade, mas ainda assim. Tem também uma cauda enorme, na qual tropeço de vez em sempre, mas isso pouco me importa. Às vezes, quando furiosa por coisas mínimas ou máximas, dependendo da posição dos astros ou do resultado das loterias, ela costuma me chicotear a bunda com a ponta espinhuda da caudalheira - mas eu até que curto isso. E dizer aos outros que ela tem o maior rabo do mundo me enche de orgulho.
Essa mulher aí, com seus 300 quilos e escamas de navalha, pra mim, não tem defeito algum. Os maldosos de plantão, que estão por aí feito piranhas alucinadas, costumam dizer que o seu hálito venenoso e suas quatro mãos frias configuram, sim, graves defeitos. Eu não ligo. Sei do seu coração direito, aquele que fica logo abaixo dos outros dois. Conheço essa mulher desde que a arranquei das páginas de um livro antigo. Lembro como se fosse hoje: ela tava lá, imóvel e triste figura, esperando por mim. Quando abri o livro (era uma feira, acho, ou Bienal, ou ainda no buteco do Zé, que servia cachaça com torresmo & clássicos literários no balcão), o destino já estava traçado: bati os olhos nela, ela sorriu pra mim com o primeiro dos seus maxilares. Amor à primeira vista, caralho, é claro que sim. Depois desse encontro digno de filme, nos transformamos em alvo de preconceito de toda espécie: os meus não a aceitaram (não aceitam até hoje), os dela não me aceitaram (e não mudaram de opinião). Tentamos, é claro, convencê-los de qualquer forma, argumentar religiosamente, oferecemos um dinheirinho por fora, et cetera, mas não teve jeito. Acabamos mandando todo mundo sifudê. Tínhamos um ao outro e a promessa de um amor eterno enquanto duro pela frente. Hoje, portanto, estamos aí pro que der e vier. Às vezes ela pisa em mim com uma de suas 12 patas, mas eu, cristão, ofereço a outra face (ou a outra costela, dependendo da fratura). É o amor, gente, o amor. A única coisa que me incomoda um pouco nessa história natural e edificante é a sensação de que ela não me leva muito a sério. Nunca falou nada a respeito, é claro, mas tenho cá as minhas dúvidas. É como se eu desconfiasse de chifres. Uma grande bobagem - afinal, quem tem chifres é ela, oito, de várias formas e tamanhos. Mesmo assim, eu tenho cá as minhas convicções. Ela pode até não acreditar em mim, achar que sou imaginário, mas eu acredito nela do jeito que ela é ou possa vir a ser. Isso é o suficiente, é o que sustenta e suporta o nosso amor. 16 Todos os dias, às seis da tarde, eu ponho o meu banquinho perto da janela e espero. Às seis e dois, exatamente, ele aparece, também com o seu banquinho, perto da sua janela. Ficamos olhando um para o outro, em silêncio, durante uma hora, ao fim da qual ele se levanta e desaparece na escuridão. Eu faço a mesma coisa, e o que me conforta é a certeza de que no dia seguinte tudo se repetirá. Minha filha nos observa há anos - e nunca emitiu nenhuma opinião. Nunca nada a favor, nunca nada contra. Gosto desse seu comportamento. Evita constrangimentos e conversas desnecessárias. Hoje, porém, fui obrigado a romper o silêncio: - O desgraçado não veio! - protestei. - O filho da mãe não veio! É a primeira vez que falta... Para me tranqüilizar, a voz até então desconhecida da minha filha: - Calma, paizinho. Ele veio sim. Quem não está hoje é o senhor. 17 Um dia, então, percebemos que tudo nos fora tomado. Nossos empregos, nossas casas, nossas famílias. Nossos carros, nosso dinheiro. Nosso orgulho. A única coisa que nos havia sobrado era a fome. (Restou-nos também uma bruta indignação, que foi se desgastando e, por fim, desapareceu.) Nesse dia encontramos um livro. Nada mais havia para ser encontrado, mas ainda assim encontramos um livro. Antigo, sujo, mas completo. - O que podemos fazer com ele?, perguntei. - Comê-lo!, foi a resposta. Eu protestei, romanticamente. Livros devem ser devorados, sim, mas de outra maneira. São alimento, sim, mas da alma. Devem ser tratados com respeito. - Respeito os livros - ele disse. - Mas respeito muito mais o meu estômago. Lembrei-me dos bons tempos, outros tempos: a última coisa que um homem pensaria em comer era um livro. Por diversas razões, mas por uma em especial: os livros eram sagrados. - Comendo um livro, portanto, estaremos comendo Deus, ele disse. Achei curiosa a idéia. - E será que, comendo um livro, que é Deus, conseguiremos nos livrar dessa pindaíba?, eu perguntei. - Se vamos nos livrar dessa, eu não sei. Mas comendo o livro a gente acaba com a fome. Acho que isso é uma coisa divina. Concordei, naturalmente, mas ainda assim considerei tudo isso um grande pecado. Protestei, como sempre se espera nessas ocasiões, falei do absurdo que isso representava, xinguei, falei o diabo. Mas, por fim, me rendi: - Passa o sal! 18 Mesmo porque correr seria bobagem. Sei dele há anos e, de mim, ele sabe o suficiente. Sempre soube. A segurança como me segue. Houve tempos em que ele disfarçava, tirava um cigarro do bolso, essas coisas. Depois, perdeu o medo. E medo, aliás, não era. Uma prudência. Nunca se sabe, comigo poderia ser perigoso.
Logo, bem cedo ele percebeu: eu não ofereceria resistência. Como agora. Correr pra quê? Nem apressar o passo eu vou. E ele pode se ocupar das borboletas que voejam aqui e ali, pode até parar na esquina para uma cerveja ou duas. Ele sabe, sabemos: estarei lá, mas não à espera como um boi, ruminando perguntas inúteis. Cairá a noite, com certeza, e estaremos os dois, como há séculos, debruçados no parapeito da janela, espiando o movimento da rua. Veremos pela milésima vez o navio partindo em direção ao nada, o anão que cospe pianos, as bailarinas tailandesas que repetem há cem anos a mesma coreografia. Em silêncio contemplaremos um céu de intenso vermelho, que se diluirá até não restar nada além da lembrança. Fizemos isso ontem, amanhã será igual. Enquanto eu estiver nesta terra ele estará por perto. Dez passos atrás, observando borboletas, ou ao meu lado acenando para o navio que parte. Jamais lhe perguntarei o nome. Porque sei quem ele é, da mesma maneira que ele sabe quem eu sou. Somos, no fundo, dois sujeitos bem educados e esse é o nosso acordo: ele me persegue, isso o mantém vivo; e eu vivo porque o deixo me perseguir. Um jogo. Ridículo, mas tão digno quanto qualquer outro. Se algum dia me alcançar, ele perderá a razão de ser. E eu serei obrigado a contemplar navios e anões e bailarinas, sozinho, o que, convenhamos, não tem a menor graça. por PARREIRA às 1:37 AM ||||| |
Sexta-feira, Março 21, 2008
UMA OUTRA LÍNGUA (1) Uma parte do Brasil escreve assim: ![]() por PARREIRA às 10:19 AM ||||| |
Terça-feira, Março 18, 2008
MARIANNA DISSE: Marianna assistindo televisão, um programa infantil passado na Casa Branca. Aí eu pergunto: - Você sabe o que é a Casa Branca? Ela respondeu na bucha: - É a casa do presidente dos Estados Unidos. Eu sorri o sorriso besta dos pais. E emendei outra pergunta: - E a Casa Rosada, você sabe o que é? - Não. - É a casa do presidente da Argentina. Ela fez uma cara assim assim. Aí eu aproveitei pra perguntar, tava coçando: - E a casa do presidente do Brasil, você sabe como se chama? - É a casa... marrom? Essa menina não é genial? por PARREIRA às 7:11 PM ||||| |
Domingo, Março 16, 2008
ACROSS THE UNIVERSE
Acabei de assistir. Fiquei impressionado, emocionado mesmo. Aquela sensação boa que dá quando a gente vê algo de que gosta. E mais impressionado ainda fiquei com Dana Fuchs, a atriz/cantora. Ela é simplesmente um espetáculo, um fenômeno da natureza; confira abaixo: por PARREIRA às 2:03 PM ||||| |
Sábado, Março 15, 2008
Abaixo, dois contos bem antigos, dos anos 80/90 QUADROS QUADRO I – UMA SALA ESCURA. A NOITE JÁ AUSENTE DO CALENDÁRIO. UMA VELHA NUMA CADEIRA DE BALANÇO, IMÓVEL. A TELEVISÃO À SUA FRENTE, IMAGENS LONGE DE QUALQUER SENTIDO. UMA ESTANTE VAZIA, MADEIRA NUA. O RETRATO DE UMA FAMÍLIA INEXISTENTE SEPULTADO NO SILÊNCIO DA PAREDE. A PORTA ENTREABERTA E A CONTINUIDADE DO ESCURO. Procuro um cigarro no bolso. Fico com ele na mão, não acendo. Sigo meus pés. Não chove mas é como se chovesse em mim, dentro. Passo diante dos bares e observo. Uma sede intolerável. Não chove, eu sei, mas estou alagado: suor é lágrimas, sangue. Sangue que transborda e inunda a minha camisa. QUADRO II – UMA SALA ESCURA. A NOITE JÁ AUSENTE DO CALENDÁRIO. UMA VELHA NUMA CADEIRA DE BALANÇO, IMÓVEL. A TELEVISÃO À SUA FRENTE, IMAGENS LONGE DE QUALQUER SENTIDO. UMA ESTANTE VAZIA, MADEIRA NUA. O RETRATO DE UMA FAMÍLIA INEXISTENTE SEPULTADO NO SILÊNCIO DA PAREDE. Não me vêem na rua e me imagino fruto de um parto sem mãe. Vou. O cigarro sua em minha mão. Meus pés seguem. É noite? Que tempo é este em que penso? Vejo um automóvel. O automóvel corresponde ao seu nome? Ou será que se chama camelo e me enganou até agora? Desconfio das coisas à minha volta, dos nomes. Só uma lembrança me ocupa além dos quadros, lembrança que talvez não seja minha, seja de um outro: “O que aconteceu com a nossa geração, que era tão feliz?”. O que aconteceu? Vago pelas ruas, silencioso. Só as pedras e o pó são minhas testemunhas. Sigo. Sinto meu corpo se curvar: o peso da culpa. No caminho, uma puta me pára com suas coxas. Beija-me a boca enquanto vasculha meus bolsos. Não resisto. Entrego-me às suas mãos, ao seu beijo com gosto de terra. “Tem fogo”, pede ela em seguida, decepcionada. Exibo o cigarro que se desmancha em minha mão. Ela se afasta com desdém. Eu continuo em frente. QUADRO III – UMA SALA ESCURA. A NOITE JÁ AUSENTE DO CALENDÁRIO. UMA VELHA NUMA CADEIRA DE BALANÇO, IMÓVEL. A TELEVISÃO À SUA FRENTE, IMAGENS LONGE DE QUALQUER SENTIDO. UMA ESTANTE VAZIA, MADEIRA NUA. Agora é noite – ou escureceu em mim. Meu peito queima: a chama do crime. Revisito os nomes: Gabriel, Antonio, Joaquim, Manoel. Qual destes o meu? Vozes em mim e a impossibilidade de ser apenas um. Ser dois? Então quem sou? A razão que afirma ou a memória que se dilui? Minha cabeça está pesada de pensamentos vagos: um balão abstrato. Minha passagem pelas ruas é a solidão de um corpo abandonado. Quem me vê, quando me vê, não vê o que há em mim. Vêem apenas um instrumento que se desfaz: o instrumento da morte. Minha dor é particular, não interessa a mais ninguém. O sangue em minha camisa é a prova. QUADRO IV – UMA SALA ESCURA. A NOITE JÁ AUSENTE DO CALENDÁRIO. UMA VELHA NUMA CADEIRA DE BALANÇO, IMÓVEL. A TELEVISÃO À SUA FRENTE, IMAGENS LONGE DE QUALQUER SENTIDO. Não sou mais um homem: sou um grito que explode em silêncio. O mundo à minha frente é vermelho, vermelho o céu, vermelha a lua, vermelho o neon que me envolve, vermelho vermelho vermelho. Vermelha a mancha em minha camisa. Vermelho eu: o que matou, o que não viveu, a escuridão, aquilo que não sei. Ninguém ouvirá minha voz. Estou reduzido ao chão: um ser que rasteja: uma imensa cobra de esgoto. QUADRO V – UMA SALA ESCURA. A NOITE JÁ AUSENTE DO CALENDÁRIO. UMA VELHA NUMA CADEIRA DE BALANÇO, IMÓVEL. Minha cabeça dói. As imagens, quadros: a velha, a sala, o retrato, a televisão, a estante – o brilho da lâmina. Vermelho. – Vai sair, filhinho? – Vou. – Não pode. O mundo, não lembra? O mundo é cruel. Vai machucar o filhinho. – Eu vou. – Não pode! Vermelho. A velha inerte, nenhum grito. A velha. A velha? Estou me esquecendo. Os quadros fogem. Sinto agora apenas meu corpo penetrar no calçamento. Desço ao nível da rua – não, mais fundo, embaixo. O inferno? Embaixo é o inferno? QUADRO VI – UMA SALA ESCURA. A NOITE JÁ AUSENTE DO CALENDÁRIO. Em breve serei chão, pó e cinzas. Pisarão em mim. Quem se lembrará do meu nome? Quem se lembrará do meu rosto? QUADRO VII – UMA SALA ESCURA. Só o vermelho me acusará, mas então será tarde demais. QUADRO VIII – NADA. esquecerão os quadros esquecerei os quadros esquecerei eu sem dor eu sem remorsos eu ninguém eu nada nad na n * * * MALTE CLUBE Rena, esse o nome da zinha. Toda noite no Malte Clube, as botas escondendo as canelas, o vestidinho exibindo as coxonas, o cabelão quase na bunda. Mas perdia a viagem quem chegava com lero-lero e finalmente. Rena dançava com qualquer um que pagasse, bebia, jogava bilhar. Mas nada de ir para o quarto como as outras, ficar no bem-bom. Era mulher da patroa, dizia pra todo mundo ouvir – e quebrava a cara de quem se metia a besta. Conhecedor dos usos e costumes do Malte, eu ficava na minha. Pegava uma menina, outra, e assim ia levando. A patroa, monstra de tetas firmes, confiava em mim: – Você é o único que respeita a minha casa. Te considero como um filho. Um filho, sim, mas eu botava os olhos na sua mulher. Até um cego botaria. As outras meninas, sambadas, faziam o trivial. Bonita mesmo era Rena, os peitos olhando pra mim, os cabelos espalhando perfume no ar. Acho que é por isso que me foi crescendo um fogo aqui por dentro, um fogo bom. Fiquei então meses e meses de conversa fiada, cercando. Tudo com muito respeito, é claro, porque não queria me estrepar nem perder a estima da patroa. – Você é um filho pra mim – repetia ela, toda noite. Rena, sabida, percebeu logo as minhas intenções. Numa noite de pouco movimento, ninguém pra dançar, ela me puxou prum canto mais retirado: – O que é que anda passando pela tua cabeça? Eu ia explicar, mas as palavras eram tantas que resolvi ir direto ao assunto: soquei-lhe um beijo daqueles, comprido, sufocante. Ela relutou, bateu com as mãos no meu peito, fez que ia me morder a língua. Eu segurei, forte, e ela acabou se entregando, o fim do beijo já com ela enroscada em mim. A mulher da patroa, a que batia e acontecia, aonde? Faltava alguém como eu na sua vida, um homem. – Louco? Tá louco, cara? – bufou ela. – Acho que te amo – foi o que eu consegui dizer. Por dois dias ela não me olhou na cara. Ficava de fuxico com uma e outra, cochichava com a patroa, sua mulher. Logo depois, porém, ela mesmo veio se chegando, mansa, gata macia. Eu, sabedor do perigo por ali, falava qualquer coisa e saía de perto, ia tomar cerveja, apertar os peitos das meninas solteiras. Pelo canto do olho eu via que Rena espumava. Isso era a minha garantia. No Malte não tinha jeito, e o jeito então era marcar os encontros onde dava: no mato, na beira do rio, no hotel da cidade, no meu quarto de pensão. Rena, corpinho lindo, pouco uso de homem, gemia embaixo de mim feito menina, baixinho, e eu sonhava: já via a mulher cuidando da casa, dos pirralhos, me esperando de noite pra comer, essas coisas. Só que o sonho durava pouco, ela devia ir, voltar pro Malte antes da patroa acordar, manter as aparências. Isso me irritava mais que tudo, mas ela, esperta, falava eu te amo no meu ouvido e resolvia o assunto. No Malte, a mesma história de sempre: a patroa de conversa comigo, matraca velha: – Um filho pra mim, um filho. Eu não conseguia nem sentir vergonha de estar enganando a mulher. Sentia, isso sim, raiva dela, raiva por ela estar empatando o meu amor, raiva por ela dormir com a mulher que eu queria só pra mim. Mas fazer o quê? A patroa dava a Rena uma casa, cama, dinheiro, vestidos caros da cidade, tudo isso. E eu, o que eu dava? Dava só o meu corpo e sabia que isso não bastava. Era preciso mais e eu não sabia por onde conseguir. – O meu amor tá tão quieto hoje. O que foi? Não tá gostando da sua mulher? O cigarro aceso, eu olhando pro teto e vendo a fumaça subir. – Nada não. Tô aqui pensando numas coisas. Rena se vestindo novamente, ia voltar para o lado da bruxa velha. – Rena... – O que foi? – Nada não. Cabeça quente, naquela noite eu entrei no Malte decidido. Passei pela patroa sem cumprimentar, fui direto pra Rena. Ela me olhava como quem não via, e eu, nervoso, abri o jogo: – Quer casar comigo? Ela riu, a patroa riu, os homens e mulheres do clube riram. Fiquei ali perdido, sonso no meio daquela gente. A patroa, rindo ainda, se aproximou, abraçou Rena na minha frente e lhe deu um beijo daqueles. Eu quis apartar as duas, brigar, mas um homem me segurou por trás. – O sujeitinho aí quer casar com você, menina – falou a patroa. – O que você acha? – Acho que o otário caiu direitinho – respondeu Rena, seca. – Mas Rena – falei –, e nós? Riram de novo, todos. Ela, aproveitando que eu tava seguro, largou uma porrada na minha boca. Vi prazer em seus olhos – e cuspi sangue, dentes. – Filho, filho – falou a patroa. – Não sabia que mulher minha é mulher minha? Ou pensou que tava me enganando, eu, que fui criada na viração? Senti raiva: tudo armado desde o início, eu tinha sido o bobo, o palhaço de todo mundo. Rena veio, o golpe final: – Você é um tonto, cara. Homem nenhum vale a mulher que eu tenho. Ela é melhor que você em tudo, tudo mesmo. Ingênuo ainda, falei, despedaçado: – Mas Rena, e o meu amor? – Enfia o teu amor no cu! E some logo daqui, antes que eu te quebre o resto dos dentes. O homem me soltou os braços, me empurrou, quase fui de cara no chão. De cabeça baixa, atravessei o salão do Malte Clube como um cachorro sem dono. Na rua, ainda ouvia as risadas lá atrás. Devagar eu entrei na noite, devagar eu desapareci. por PARREIRA às 12:27 PM ||||| |
Sexta-feira, Março 14, 2008
VALE A PENA VER DE NOVO (mesmo?) isso aqui é infame!
por PARREIRA às 8:43 PM ||||| |
Á ESQUERDA!! ![]() ![]() ![]() por PARREIRA às 8:01 PM ||||| |
Quarta-feira, Março 12, 2008
QUIMERA Eu vendia hipopótamos na feira quando vi a mulher pela primeira vez: linda, os cabelos louros esvoaçando do sovaco, dois metros e meio de pura tentação. Filhote, o meu cachorro filosófico, foi logo dando palpite: - Não entra nessa que é roubada. Pelo brilho do olho esquerdo, essa aí tem pra mais de quarenta filhos. Aceitei o conselho do Filhote com os ouvidos mas o coração não quis saber: corri pra cima da mulher. Para impressioná-la, passei antes na biblioteca. Peguei meia dúzia de clássicos, que sempre dão melhor resultado. Quando ela me viu com os livros brotando feito flores das mãos, se abriu toda sorrisos. - Li todos eles pra você, meu amor – eu disse, os olhos faiscando sacanagem. – Que tal? O sorriso ganhou uma súbita expressão séria. Filhote, filosófico, arrematou: - Eta porra! - Não pense que me entrego por essa mera literaturazinha – ela falou. – Pra me ganhar o buraco é mais embaixo! Disse isso e se virou, resoluta. Uma mulher que despreza os clássicos é maluca. Ou merece respeito e atenção. Por isso observei-lhe o rabo: três pontas descascadas. - É normal – sentenciou Filhote. - Graças a Deus – falei. – Vamos beber a isso! Filhote não gostou muito da idéia. - Mas é só gasolina, filho! – eu justifiquei. Ele abaixou as orelhas, enfiou o rabo entre as pernas e perguntou: - Você promete que é uma só? Uminha só? Saímos do posto de gasolina às quatro e meia da manhã, os arrotos potentíssimos lançando chamas a centenas de metros. Eu vendia, como já disse, pterodátilos no supermercado quando vi a mulher pela segunda vez: linda, os cabelos avermelhados esvoaçando das ventas, quase três metros de vertigem. Filhote, os bigodes ainda chamuscados pelas labaredas da noitada anterior, resolveu bancar a minha consciência: - Larga mão, sô! Isso aí não é mulher, é o diabo que veio pra te aporrinhar. Como ela mesma disse, o buraco é mais embaixo. Vai encarar? Mulheres difíceis é que valem a pena, pensei, principalmente quando precisamos usar uma escada para lhes alcançar o pescoço fino para um beijo fugaz. Assim era ela, com seus quarenta filhos ou não. E assim estava eu: torto, os quatro pneus e o torso arriados, a garganta seca implorando por mais gasolina. - Nem pensar! – protestou Filhote. – Ela não vale tamanha humilhação. Fiquei olhando o cachorro, penalizado: nem mesmo toda a filosofia do mundo o fizera mais sensível. Decerto mantinha um bloco de mármore no lugar do coração. E sua boca jamais provara a voltagem de um genuíno beijo de amor. Seus olhos eram incapazes de enxergar a paixão: em quem eu via céu ele só encontrava tempestade. - Ora, pois, meu querido Filhote – eu disse. – Enfia a tua filosofia no rabo que eu quero mesmo é pandegar! - Depois não diga que eu não avisei... A prudência, ah!, a prudência. Por isso é que o Filhote não passa de um cão filosófico solitário: prudência demais. Corresse um pouco mais de risco e viveria melhor. Mais feliz, pelo menos, que esse negócio de filosofia pura corrói o fígado e os miolos. É a cachaça da alma, um ácido do espírito. E ácido por ácido eu prefiro o LSD que o bafo dela exala. Ela é uma mulher envolvente, sim, e não digo isso pelo fato da moça ter quatro braços. Nem me abraçar ainda ela abraçou, porque o buraco, segundo suas próprias palavras, é mais embaixo. Mas eu sei que o momento do abraço vai ser sublime, o momento do beijo. É nisso que se baseia toda a minha vida hoje: nos momentos futuros que terei ao seu lado. Os carneiros que trafico na igreja garantem a minha subsistência mas o meu prazer vem de outras fontes. E agora cismei que a fonte primeira de todos os meus delírios gozosos é ela, que é linda, os cabelos amarelos cheirando a capim, três metros e meio de loucura. Os automóveis e crocodilos mostravam reverência e uma ponta de inveja à minha passagem: lá vai um apaixonado, eu pensava que eles pensavam. E decerto pensavam mesmo, porque tudo em mim cheirava como o jasmim da paixão: desde os cascos até o olhar, que iluminava de cor as sombrias ruas em linha reta da vida comum. Sob os óculos que a minha condição de futuro amante me colocara sobre os olhos eu via agora um mundo todo novo: os edifícios circulares, as avenidas ascendendo em direção ao céu, as curvas azuis do vento. Mesmo as pessoas, que sempre me olhavam com reserva e desconfiança, ensaiavam sorrisos e acenos, exibiam um discreto menear de cabeça, o desconcertante sussurrar de palavras de apoio e incentivo que eu jamais ouvira antes. Houvesse no mundo mais apaixonados como eu e a vida seria bem melhor. Para que tudo isso se concretizasse, porém, faltava o principal: encontrá-la. O buraco mais embaixo, ou em cima, foda-se, isso era fácil. O Grande Arquivo Universal da Conquista Amorosa está aí há milênios e só não o consulta quem não quer. Navegando na mesma freqüência dos meus pensamentos, um senhor baixo, cego, cuja boca era um acidente medonho na geografia do rosto, se apresentou com a solução dos meus problemas: - A mulher que você procura, cinco ou seis metros de beleza incomum, os pelos cubistas, sei muito bem onde ela está. Nunca vendi porra nenhuma na vida, como já disse. Por isso mesmo é que sei que na minha profissão o que mais se vê é picaretagem, gente desqualificada que abusa dos bons sentimentos dos incautos para conseguir vantagens pessoais. A mim impressionou muito o fato do homem surgir do vento e descrever quase à perfeição a minha amada. Para saber se o sujeito falava mesmo a verdade, perguntei ainda: - O que ela guarda às costas? - Um par de asas translúcidas – falou ele prontamente. Bati com a mão aberta à testa, uma pancada tão forte que por instantes a cidade mergulhou em trevas. Ninguém no mundo a não ser eu (e Filhote, minha testemunha particular) poderia descrevê-la tão bem! Quando as nuvens escuras se afastaram dos meus olhos eu fiz a pergunta óbvia. Os olhos vazios do homem derramaram a resposta, límpida e sonora: - Na biblioteca. Vai encontrá-la na biblioteca. Claro. Por que eu não tinha pensado nisso antes? Na escadaria da biblioteca encontrei Filhote escondido atrás de uma hiena, a pata direita estendida sobre um chapéu que pedia esmolas. - Porque filosofia alimenta o espírito mas não enche a barriga de ninguém – justificou enquanto eu entrava no meu sonho, o coração já aos trancos por antecipação. Intuí o seu endereço logo de cara: terceiro corredor, esquerda, prateleira de mitologia. Entre o Minotauro e o Dragão, coberta de poeira, lá estava ela, a Quimera. A minha Quimera. Embora estivesse diante de tudo o que eu sempre quis, me senti decepcionado. Era ela, sim, mas faltava-lhe algo. Faltava-lhe tudo. Faltava-lhe a materialidade. As carnes, os peitos. Algo concreto no qual eu pudesse descansar o meu esqueleto. Faltava-lhe a bunda, caramba, que desde sempre tem sido o porto seguro para os machos da minha espécie e de outras mais. A mulher que eu tinha diante dos olhos era só uma figura impressa, de cores desbotadas, uma ilha cercada de palavras por todos os lados. Pra me ganhar o buraco é mais embaixo, ela dissera, e agora eu sabia o quanto. Aliás, dissera mesmo? Em algum momento cheguei de fato a vê-la? Linda, mulher mesmo ou pura alucinação? Seres mitológicos não são dignos de crédito, eu sempre soube. Mas é o abismo entre o saber e o acreditar que os torna tão reais. - O senhor não pode permanecer neste recinto. Virei lentamente o torso, mantendo as patas fincadas com firmeza no chão. - Por que não? – perguntei, um segundo antes de constatar que quem me falava de maneira tão autoritária era o sujeito de boca murcha. - Seres imaginários não são admitidos nesta biblioteca – ele respondeu, os olhinhos sem brilho exibindo uma satisfação nem um pouco secreta. - Faça então o que deve – eu disse, o meu rabo balançando com um descompromisso admirável. Saímos os dois de volta à rua, deixando para trás a minha Quimera e os sonhos tantos que me ocuparam e justificaram de maneira gloriosa a minha existência. - Mulheres – eu disse -, jamais serão inteiramente nossas. Sempre isso: aparecem, acendem a chama da loucura e, quando mais as queremos, desaparecem no ar feito borboletas. Ou se metem entre as páginas dum livro que nunca poderemos ler. - Umas ingratas – filosofou acertadamente Filhote, que se juntara a nós. Quem nos via indo de encontro ao cinzento véu da noite(1) só conseguia perceber o mistério. Um homem cego de boca murcha, um cão filosófico e um centauro esvaziado de quimeras como eu dão mesmo o que pensar. (1) O Barroco é que gostava de construções assim. Ou não. por PARREIRA às 9:55 PM ||||| |
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