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Neste mumento: online LIVROS Compendium Universalis
Contos de Algibeira
MUSEU PPC!
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Quarta-feira, Abril 30, 2008
ANGELI
o cara é foda! por PARREIRA às 7:29 AM ||||| |
Terça-feira, Abril 29, 2008
PUEMACIDADE
![]() por PARREIRA às 8:25 PM ||||| |
A GEOGRAFIA DA PAIXÃO A tortura dos beijos-mordida. As carícias que me queimavam a pele. Os sopapos de amor. Porque ela só entendia o amor assim: quando sangrasse, quando doesse. O meu corpo era um mapa: cada cicatriz exibia em vermelho a vasta geografia da paixão. Nada de bombons ou chocolates: apenas chicotes e lâminas, instrumentos de tortura. A minha dor era o seu prazer. - Você não é capaz de me ferir - ela me desafiou um dia. - Não tem culhões pra isso. Enfiei-lhe um punhal de orquídeas no peito e encerrei o assunto. por PARREIRA às 5:01 PM ||||| |
Segunda-feira, Abril 28, 2008
LAURA Não importa, eu vou. Escalando as costas da tarde, que se precipita feito uma flecha em direção ao depois. Porque assim tem sido desde sempre: logo cedo a questão me abraçou: você escolhe entre voltar, permanecer ou seguir. Não aprendi a voltar; permanecer é doloroso. Seguir, portanto. É o que tenho feito. Cada segundo traz nos bolsos o mistério. A aspereza do oxigênio. O suor em chamas. O nome dela é Laura. Foi num sonho. Laura era um susto. Não pude ver o seu rosto, o seu corpo. Névoa de sono. Mas sim, os sentidos todos apontando pra ela, a mulher. Quando acordei toda a cama era um oceano. Peixes transparentes no ar. Na boca um gosto amargo de estrelas. Laura era fiapo de sonho, impalpável, mas já existia em mim. Daí todos os meus dissabores. - Laura, foi quando eu suava labaredas. No sonho, ela estava no sonho. Viu ela por aí? Riam de mim. Esse o mal das pessoas: ninguém acredita nos sonhos alheios. Minha única certeza era uma só. Nunca no meu passado, no meu presente de maneira confusa. Só depois, talvez. Laura só no futuro. Por isso escalo os calendários com a determinação de um condenado. Não me cabe permanecer aqui. O desespero é hoje, nunca ontem. O sofrimento é agora. Longa a estrada. Os gatos no caminho. Uma conversa esclarecedora. - Não sei como ela é - dizem os gatos -, mas tenho amigos que moram lá, no depois. Falam de Laura, Lauras. Depois é cheio de Lauras. Suspeito, portanto, de que estou no caminho certo. Um homem que acredita na palavra dos gatos. Talvez por escrever. As primeiras letras também foram difíceis. Difícil subir ao caderno, acomodar-se às dobras das sílabas, domar consoantes. Porque no princípio toda palavra é vertigem. Como as mulheres. Desconhecido azul. O rigor. Porque as palavras fogem à falta de rigor. Precisam de um braço para contê-las. De maneira que o meu aprendizado com as mulheres começou com as palavras. Mas eis que agora me vejo aqui sem nenhuma delas. Há tempos não escrevo uma mulher. Laura é sabedora da minha condição. Por isso veio no sonho. Vapor-mulher, a direção que faltava aos meus pés. Quanto mais avanço menos gatos eu vejo. Os poucos que ainda restam temem falar. Depois é um território nebuloso, eu sinto. Só os gatos mais corajosos chegam lá. Só os homens mais corajosos se dispõem a chegar lá. Depois. Laura não está. Laura É lá. Econômica a minha paisagem. Uma estrada, só, uma tempestade de girassóis do lado direito, do esquerdo os cardumes: peixes azuis amarelos pretos, tantos peixes - e não dão a mínima para os gatos. - Não como os peixes sonhados pelos homens - dizem os gatos amarelos. - Não tenho essa capacidade. Sonhos particulares. Cai por terra a minha teoria de que os sonhos pertenciam a todos. Não pertencem aos gatos, pelo menos. - Os nossos são de outra natureza - dizem os gatos verdes. - Basta um sonho de gato para o seu mundo sair do eixo. O meu mundo saiu do eixo desde que sonhei com Laura. Seria o meu, então, um sonho de gato? - Só um gato sonha sonhos de gato - dizem os gatos azuis. - Eis aí uma questão a ser considerada. Vejo Laura pela primeira vez, finalmente. Está ao alcance da minha mão. E ela não é mais névoa, nem sonho. - Mas você não pode me tocar - ela diz, o sorriso tranqüilo no rosto. Estendo meu braço e o que encontro na extremidade é uma pata de gato. Meu braço é um gato. Eu sou o gato. - É por isso? - protesto. - Não sou um gato, não era até há pouco. Estou gato, e isso é diferente! Laura sorri. Todo o meu trabalho foi inútil. A minha caminhada. Malditos gatos! E agora de nada me adiantam as palavras, são vento. - Tanto faz pra mim se você está gato ou elefante - ela diz, a voz serena. - Você nunca vai me alcançar. A tempestade de girassóis. Os cardumes. Laura é o caos. - Agora - diz Laura, os lábios sorrindo sílaba por sílaba. - Você é agora. Percebe? Nenhum gato mais. Somos apenas eu e ela. - Eu sou agora. - E eu, depois - ela diz. - Por mais longe que eu vá, serei sempre agora. - Depois é a minha maldição. O universo tem essas cápsulas que separam as coisas, as pessoas. Não posso alcançar o ontem. Laura é névoa mais uma vez. Sempre será. Mas não aprendi a voltar; permanecer é doloroso. Sigo, portanto. por PARREIRA às 9:20 PM ||||| |
Domingo, Abril 27, 2008
A RELATIVIDADE DAS LÁGRIMAS Ela já desperta com o rosto banhado em lágrimas. Desolada, a família lamenta:
por PARREIRA às 1:35 PM ||||| |
A MÃO A mesma coisa. Seis e meia, levantar, o café, o cigarro, o banho, a gravata. Sete horas, o ônibus, o sono. Oito horas, o escritório, a rotina. O Sono.
por PARREIRA às 1:31 PM ||||| |
ESTÔMAGO Enfim um filme para todas as fomes: Achei aqui no INAGAKI E tem mais ESTÔMAGO AQUI por PARREIRA às 11:35 AM ||||| |
Sábado, Abril 26, 2008
AH!, O IGGY POP!... E a gostosa da Kate? Candy é ela! por PARREIRA às 9:45 PM ||||| |
COLÓQUIO MATINAL NA PADOCA
- Dia. - Dia. O senhor... - Quero um pão. - É o que todos querem. Já escolheu o plano? - À vista. - À vista? Caso raro o seu. - Pois é, quero à vista. E quero fresco, quentinho. - Fresco quentinho é mais caro. - Quero assim mesmo. - Que seja feita a sua. Vamos então falar de negócios. - Vamos falar. - De quanto o senhor dispõe? - Do suficiente. - Trabalhador? - Honesto. - Do comércio? - Funcionário público. - FP? - É. - Todo FP que eu conheço compra pão a prazo. - Eu sou uma exceção. - Excepcional exceção. Esposa? - Alice e Marianna. - Duas? - A Marianna é filha. - Ahn... Domiciliado? - Proprietário. - Linha telefônica? - Quatro. Celular e tudo. - Carro? - Importado. - Casa de praia, campo? - As duas. - Mas peraí: como é que o senhor conseguiu tudo isso sendo um mero FP? - O mero é por sua conta. - Saquei. Bão, acho que isso basta como garantia. Ô Manél: salta aí um especial, fresco quentinho. - E bem assado. - O senhor não acha que é um pouco exigente demais? - Eu vou pagar. - Tá legal, tá legal. Bem assado, Manél! Mas agora, por favor, passe pra cá a identidade. O senhor entende, uma transação envolvendo esse montante todo exige um documentinho. - Táqui! - Mas isso é uma cópia da identidade! - Autenticada, não tá vendo? - Cópia autenticada da Mona Lisa tem valor? - Sei lá. - Cópia autenticada do Bosch tem valor? - Quem é esse cara? - Sei lá, vi numa revista. Por isso não tem valor. - É, não deve ter. - Da mesma forma, cópia autenticada da sua identidade também não tem valor. Quem é que me garante que o senhor é o senhor mesmo? - Mas eu to aqui! - Isso é o que parece. Mas pode ser uma ilusão, o senhor pode ser um fantasma (o que me parece mais provável), pode ser o seu irmão gêmeo, essas coisas. A solidez do meu negócio não se construiu em cima de aparências ou parecências. - Esquece a identidade. Táqui o dinheiro: pago em dobro. - Manél, suspende o especial. O filodaputa aqui quer me subornar. - Não é suborno, é um agradinho pela sua compreensão. - Seu dinheiro, pra mim, não tem valor. - Mas olhaqui: notinhas estalando, uma em cima da outra, reais reais! - Tô nem aí. - Pelamordedeus! Minha mulher, minha filha, elas precisam do pão. - E eu preciso trabalhar. O próximooo... (Obs.: O texto foi escrito nos anos 90. A charge do Jean é de hoje. Texto atualíssimo, portanto) por PARREIRA às 5:44 PM ||||| |
Sexta-feira, Abril 25, 2008
CABEÇA BAIXA
por PARREIRA às 9:14 PM ||||| |
QUE CHEIRO ESTRANHO...! ![]() por PARREIRA às 8:13 PM ||||| |
Terça-feira, Abril 22, 2008
A LINGUAGEM DÁ BARATO. É POR ISSO QUE EU ESCREVO! É sempre muito bom (re)ouvir Leminski: PARTE 1 PARTE 2 por PARREIRA às 8:43 PM ||||| |
EIS AQUI UM TEXTO QUE ACHEI GENIAL O vendedor de palavras por Fábio Reynol Ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando que não se liam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande, "indigência lexical". Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma idéia fantástica. Pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado cavar espaço entre os camelôs. Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: uma mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia: "Histriônico - apenas R$0,50!". Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta curiosos parasse e perguntasse. - O que o senhor está vendendo? - Palavras, meu senhor. A promoção do dia é histriônico a cinqüenta centavos como diz a placa. - O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos. - O senhor sabe o significado de histriônico? - Não. - Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já têm ou coisas de que elas não precisem. - Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário. - O senhor tem dicionário em casa? - Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um. - O senhor estava indo à biblioteca? - Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado. - Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar para casa uma palavra por apenas cinqüenta centavos de real! - Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la? - Se o senhor não comer a alface, ela acaba apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o feijão caruncha. - O que pretende com isso? Vai ficar rico vendendo palavras? - O senhor conhece Nélida Piñon? - Não. - É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o País sofre com a falta de palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui. - E por que o senhor não vende livros? - Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo. - E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem barriga. - A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento. Se temos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto. São como trombadinhas que saem correndo com os relógios do meu colega aqui do lado. Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a esquina. Com aquela cara de dona-de-casa ninguém jamais desconfiaria. Passou por aqui sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho maroto se mordendo de curiosidade. Mas nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga. Suponho que para cada pessoa que se dispõe a comprar uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho. - O senhor não acha muita pretensão? Pegar um... - Jactância. - Pegar um livro velho... - Alfarrábio. - O senhor me interrompe! - Profaço. - Está me enrolando, não é? - Tergiversando. - Quanta lenga-lenga... - Ambages. - Ambages? - Pode ser também evasivas. - Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você! - Pusilânime. - O senhor é engraçadinho, não? - Finalmente chegamos: histriônico! - Adeus. - Ei! Vai embora sem pagar? - Tome seus cinqüenta centavos. - São três reais e cinqüenta. - Como é? - Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. Só histriônico estava na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço. - Mas oito palavras seriam quatro reais, certo? - É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende? - Tem troco para cinco? você encontra mais do autor AQUI por PARREIRA às 7:50 PM ||||| |
Segunda-feira, Abril 21, 2008
EU GANHEI!!!
a história completa você lê AQUI por PARREIRA às 2:11 PM ||||| |
Domingo, Abril 20, 2008
REMINGTON 10 Alguém aí ainda se lembra dessa máquina de escrever? Era mais ou menos assim, ó: ![]() por PARREIRA às 1:19 PM ||||| |
UM TOSTÃO DA MINHA VOZ aqui: ![]() por PARREIRA às 2:17 AM ||||| |
Sábado, Abril 19, 2008
NA LIVRARIA No final da tarde entramos, Mari & eu, numa grande livraria de shopping, dessas que têm de tudo: livros, revistas, CDs, et cetera.
Aí me deparei com a Revista Piauí, a de nº 19, na qual um texto meu foi publicado. Foi uma sensação esquisita: eu ali, não apenas um mero consumidor, mas também parte daquilo tudo, daquela estrutura. “Olha, tem um texto meu ali naquela revista. Quer ler?” Uma das idéias que passou pela minha cabeça. Mas o que eu quero mesmo dizer é o seguinte: é muito legal isso de ter algum material à disposição do público. No final das contas, a gente escreve é pra isso mesmo. Não foi a primeira vez, é claro. Diversas outras vezes estive “impresso” em bancas de jornal, em livrarias também, como na época da Revista Bundas, d’O Pasquim 21, do Jornal Leia e outras publicações das quais não me lembro agora. Mas a sensação de hoje foi diferente. Pela primeira vez, acho, me senti parte daquilo tudo, de uma maneira mais completa. Em breve, espero, vem aí o primeiro livro. Acho que hoje eu senti um pouco do que está por vir. E gostei. por PARREIRA às 10:17 PM ||||| |
PAISAGEM FAMILIAR COM PATOS & LAGO
(Detalhe que a foto não registra: logo após a primeira foto, botei a mão na grama - quer dizer, num montão de cocô de pato. Foi lindo!) por PARREIRA às 9:41 PM ||||| |
PORQUE HOJE É SABADO ![]() por PARREIRA às 9:25 AM ||||| |
SITE BACANA Dêem uma olhada: ![]() por PARREIRA às 9:22 AM ||||| |
Quarta-feira, Abril 16, 2008
LIVRO CLIP SIM, VOCÊ NÃO ESTÁ MALUCO. HAVIA UM VÍDEO AQUI SOBRE O LIVRO CLIP - MAS RESOLVI TIRAR. NÃO AGUENTAVA MAIS OUVIR AQUELA MÁQUINA DE ESCREVER ENLOUQUECIDA! Muito legal isso AQUI! Divirtam-se! por PARREIRA às 7:06 PM ||||| |
NACOS & COMPENDIUM Agora em novo servidor. Se você quiser baixar, ou ainda ler on line, aqui estão os links: NACOS COMPENDIUM por PARREIRA às 9:27 AM ||||| |
Segunda-feira, Abril 14, 2008
A VACA Depois de muitos anos de um casamento feliz, ele chega em casa e encontra sua única amada nos braços de uma vaca. Vaca holandesa, é bom que se diga, malhada e com as tetas cheinhas de leite. - Que tipo de aberração é essa? – ele pergunta. – E por que logo uma vaca? Enquanto fuma um cigarro, ela vai enumerando: 1 – porque a vaca faz yoga e medita; 2 – além do holandês, conhece mais sete idiomas modernérrimos; 3 – muito chique, usa Versace e Kenzo; 4 – seus puns são politicamente corretos e de acordo com o Tratado de Kyoto; 5 – muge com um sotaque levemente francês; 6 – lê Tchecov no café da manhã; 7 – freqüenta a cena tecno de Londres; 8 – bebe suco de alfafa com hortelã na Vila Madalena; 9 – conhece o Mick Jagger melhor do que qualquer outra mulher; 10 – é a mais provável vencedora do próximo BBB, et cetera, et cetera. - Vai me trocar por ela, então? Abraçando a vaca, a mulher responde: - Com ela, pelo menos, eu consigo discutir a relação. Três meses depois a mulher resolve voltar. Um olho roxo, dois dentes faltando. - Que foi? – ele pergunta. - Aquela vaca me bateu. E me trocou por um cavalo árabe. Sentindo-se superior feito um boi, o homem se vinga: - Pouco importa estilo, cultura ou sofisticação: vaca é vaca! por PARREIRA às 7:39 PM ||||| |
JEF BERTELS
aqui, ó! por PARREIRA às 7:32 PM ||||| |
PEQUENO ENSAIO SOBRE O TEMPO PARALELO No meio da noite ouvi os gemidos de vovó. Como se atendendo a uma determinação superior, calcei os largos chinelos de veludo, acendi a luz do quarto e me dirigi até a sua cama. Aproximei-me mais e, nervoso, assisti então ao nascimento de mamãe. Anos mais tarde, eu e ela já corríamos pelo quintal como dois alucinados, experimentando todas as sensações que a nossa idade permitia. Dessa época lembro-me ainda dos sorvetes e da emoção inigualável da primeira bicicleta. Depois, quando nos esquecemos dos brinquedos e dos doces, começou a melhor fase de nossas vidas. Com freqüência nos reuníamos à tarde na varanda da casa e traçávamos planos para o futuro. Eu sonhava com aviões e viagens ao redor do mundo, e mamãe, bem mais modesta que eu, impunha o portão como limite aos seus sonhos, imaginava-se apenas feliz e esperava por um bom marido. Costumava falar muito em casamento, mas eu só comecei a me preocupar de fato com essa possibilidade no dia em que papai passou diante de casa dirigindo o seu primeiro automóvel. Desde então as tardes na varanda me esqueceram e passaram a ser de papai. Longe do olhar severo de vovó, ele e mamãe se entregavam à vertigem dos beijos e das carícias mais ousadas, mergulhando profundamente num mundo cada vez mais repleto de suspiros e desmaios. Pouco tempo depois de começado o namoro, um escândalo já previsto por mim abalou a vizinhança conservadora e antiquada: mamãe estava grávida. Vovó, com seu jeito prático e objetivo de resolver os problemas, tratou logo de punir os dois infratores com o casamento, que se realizou alguns dias depois. Os meses se passaram rapidamente e, um dia antes do parto, tornei a me encontrar com mamãe. Tranquilizei-a quanto ao futuro da criança, tomei em minhas mãos as suas mãos ansiosas e me despedi. - Quando voltarei a vê-lo? - perguntou ela. - Amanhã, com certeza - respondi e me afastei. por PARREIRA às 6:37 AM ||||| |
Domingo, Abril 13, 2008
DIÁLOGO CELESTE O anjo Gabriel se dirigia ao escritório do Supremo. Resmungava: "Depois de velho, deu pra embirutar. Onde já se viu, repetir a história numa época dessas! E eu que pensava que nostalgia era coisa só de homens ... " Primeiro corredor à esquerda, segunda porta a direita, o escritório. Gabriel entrou direto, sem bater. - Mas que desrespeito e esse? - berrou o Supremo, baixando uma trinca de ases sobre a mesa. - Será que eu não posso nem jogar em paz? - Perdão, Senhor - falou o anjo. - Mas é um assunto urgente. - Vocês são engraçados! - protestou o Supremo. - Tudo é urgente, tudo, menos os meus prazeres. Será que não percebem que o meu jogo também é urgente? Ou acham que eu jogo de graça? - Mas Senhor, é sobre aquele caso ... - Aquele? - Sim Senhor. O Supremo, interessado, dispensou os parceiros da mesa e se voltou para o anjo: - Quer um charuto? - Não Senhor, muito obrigado - respondeu Gabriel, o estômago virando. - Mas são ótimos charutos - insistiu o Supremo. - Vieram de Cuba, a terra do meu concorrente. - Não, não, obrigado. O Supremo tirou uma longa baforada e inundou o escritório com uma nuvem de fumaça azul e fedorenta. Com um sorriso estampado no rosto, perguntou: - Quais são as novidades? - Senhor - falou o anjo -, eu acho a sua idéia uma loucura. - E desde quando você acha ou deixa de achar alguma coisa por aqui? - Mas Senhor... - Nem mas nem meio mas, rapaz! - falou o Supremo, apagando o charuto para fumar depois. - Será que após tantos anos a meu serviço você ainda não aprendeu? Quer arrebentar com a minha reputação? Desde aquela vez em que lhe incumbi de ser o anunciador da chegada do Meu Filho que tudo tem dado errado. - Mas Senhor - protestou o anjo - daquela vez eu fiz tudo direitinho conforme as suas ordens. - Mas não me aconselhou! Acabou dando no quê? Pegaram lá o menino, judiaram dele, fizeram o diabo. Se você, sua anta, tivesse me aconselhado, eu não teria feito aquela puta besteira, não naquela hora. - São águas passadas, Senhor. E, ao final das contas, não foi tão ruim assim. O Senhor acabou capitalizando aquele pequeno incidente em Seu próprio benefício. - Business, meu caro. Não e a toa que estou há tanto tempo na administração. Mas anda, desembucha logo o que você tem pra falar. - O que eu quero dizer, Senhor, é o seguinte: os tempos mudaram, são outros. Não cola mais essa história de filho de Deus. Os homens agora são diferentes, eles têm jornal, Internet, computador, cartão de ponto eletrônico que acusa sem mostrar o dedo. Vão lá acreditar no Seu filho? Outra vez? vão nada! pegam ele e enfiam num hospício, que é um dos calvários modernos. Além disso, sendo Maria o que era, virgem e imaculada, mesmo assim alguns torceram o nariz. (Cá pra nós: difícil engolir uma virgem grávida, mesmo naquela época.) E aí vem o Senhor, querendo inventar um filho no ventre de uma mulher como aquela, uma, uma ... - Bem se vê que você ainda não e um anjo experiente, Gabriel. Não se lembra que eu escrevo certo, et cetera et cetera? - Mas Senhor ... - É a modernidade, Gabriel, a modernidade. Eu preciso renovar os meus métodos, agir mais de acordo com a época, senão o Vermelho me passa a perna. Não pense você que eu penso que os homens não pensam. Eu sei que eles inventaram a mídia, o DVD, o telefone celular. Sei. Mas sei também, agora mais do que nunca, que os homens são uns mundanos, uns ordinários. Que estão divorciados das coisas do céu. O que podemos fazer, então? Já que o Mundo não vem mais ao céu, vamos levar o céu ao Mundo! E o que pode ser mais mundano que uma mulher daquelas? - Mas será uma vergonha, Senhor! O nosso nome associado ao pecado, à devassidão ... - Existe outra maneira melhor para se aproximar dos homens? Não. Vergonha nada, Gabriel. Estratégia. É preciso jogar o jogo, botar minhas idéias novamente em circulação. Eu preciso fazer concorrência ao Vermelho, ganhar o mercado antes que me esqueçam de uma vez. - Tá bom, tá bom. O Senhor preocupado com marketing e eu com as conseqüências. Depois não diga que eu não avisei. - Muita gentileza da sua parte, mas olha, 'scutaqui: quem manda nessa porra sou eu! Não quero saber de conversa. Você vai lá, anuncia pra mulher a volta do meu filho e volta pra cá. Não quero saber de enviado meu enfiado com safadezas. Você vai, cumpre a sua missão e só. O menino, desta vez, não vai dançar. - Mas Senhor ... - Mas porra nenhuma! Some, Gabriel, desce, senão eu faço como aquele outro presidente e confisco os seus bens. O anjo Gabriel desceu num beco, atrás do bordel. Viu, pela janelinha dos fundos, as pernas da escolhida. Quase uma menina. "Velho tarado", pensou. Com um cigarro espetado na boca, panamá na cabeça, as asas escondidas dentro de um elegante terno de linho branco, Gabriel parou diante da porta. Tocou a campainha e uma mulher de lingerie veio atender. E ele entrou. por PARREIRA às 1:25 PM ||||| |
Sábado, Abril 12, 2008
NOTA CONTRADITÓRIA EM SI MESMA Eu não me interesso nem um pouco pelo crime da menina Isabella por PARREIRA às 8:15 AM ||||| |
Sexta-feira, Abril 11, 2008
O EUROPEU NÃO TÁ COM PORRA NENHUMA! ehehehehehehe... TÁ NO KIBE! por PARREIRA às 7:11 PM ||||| |
NACOS DE NECAS Antigos amantes, bruxa e inquisidor se encontram no cárcere. – O fogo libera a tua alma – ele diz. – E o desejo aprisiona o teu corpo – ela responde. Mais tarde o Santo Ofício queima a bruxa. Mas quem arde é o inquisidor. *** Troquei o sorriso pela felicidade. E a felicidade era tanta que eu precisei sorrir. Mas já não havia como. *** Quem parte compensa a tristeza do adeus com a felicidade do seja bem-vindo. Tem sido assim desde que as pernas inventaram as viagens. Agora, pra quem parte de ninguém em direção a ninguém, nada compensa – tenhas as pernas asas ou motores ou rodas ou o que quer que seja. TEM MAIS AQUI por PARREIRA às 6:55 AM ||||| |
Quarta-feira, Abril 09, 2008
MOVIMENTO "ABRAÇOS GRÁTIS" Hoje, em pleno centro de São Paulo, lugar onde ninguém enxerga ninguém, fui "vítima" do ABRAÇOS GRÁTIS.
Eu não resisti ao abraço, na verdade fui mesmo de encontro a ele - e ainda ganhei um beijo. Uma coisa bacana. Quebra a frieza desta cidade, que só nos oferece espetáculos medonhos no dia-a-dia. Gostei! Mais informações? AQUI! por PARREIRA às 8:51 PM ||||| |
Segunda-feira, Abril 07, 2008
O CAVALO DE LEONARDO Eu ainda não sei direito o que fazer, mas a história da monumental escultura de cavalo que Leonardo da Vinci faria para o duque Ludovico Sforza fica batendo aqui na minha cabeça. Quero pegar esse mote, partir daí, falar de uma outra história paralela a essa. Como disse, ainda não sei. Mas pode virar algo bacana. E agora dá licença. Vou ali assistir isso aqui: por PARREIRA às 7:17 PM ||||| |
Sábado, Abril 05, 2008
ENQUANTO ISSO...
ao som de TOM WAITS - Rain Dogs por PARREIRA às 10:13 AM ||||| |
Quarta-feira, Abril 02, 2008
LULA FLINTSTONE? ![]() por PARREIRA às 8:49 PM ||||| |
PIAUÍ - Pundonoroso Concurso a Vinte Mãos Pois é, o vencedor deste mês fui eu mesmo! Confira abaixo: por PARREIRA às 11:59 AM ||||| |
Terça-feira, Abril 01, 2008
LIVROSES Nos links ali à esquerda, Compendium Universalis e Nacos de Necas para download. E ainda a antologia Contos de Algibeira. Clica! por PARREIRA às 9:26 PM ||||| |
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