o concerto de música antiga
Com o saco bem cheinho de tanta música eletrônica, de tanto tecno-pop e outros papos, Filó resolve (depois de tomar meia dúzia de refrigerantes por causa do calor) ir ao Teatro Municipal para um concerto de música antiga.
Instalado numa confortável e ridícula poltrona de veludo marrom, ele confere o programa: Il Trotto (século XII), Galharda (século XVI), Moteto Allá Psalite Cum Luya (sabe-se lá de quando), entre outras peças de equivalente antiguidade. Agora sim os meus ouvidos terão o merecido descanso – é o que ele pensa, antevendo o espetáculo.
No entanto, no mesmo momento em que os músicos (nada antigos, por sinal) ocupam o palco com suas flautas doces e violas da gambá, com seus alaúdes e tralhas do gênero, um desesperado Filó começa a suar frio por causa dos gases que se debatem em seu interior. Com medo do vexame, ele respira fundo, cobre a boca com as duas mãos mas nada disso é capaz de conter a força da natureza. Após um breve silêncio que parece durar mil anos, o palco é finalmente atingido por um ronco grave e demorado que se libera da terceira fila:
- ARRRRRRRRROOOOOOOOOOUUUUUUTOO!
Depois do intempestivo abalo sísmico, a Filó só resta mesmo uma única saída digna: meter-se embaixo da poltrona. Um dos músicos, porém, longe de se sentir ofendido, outra coisa não faz a não ser puxar os aplausos para a original e desconcertante performance, no que é seguido de perto pelos demais companheiros de ofício e também pela refinada platéia, que agora, refeita do susto, já consegue identificar no deselegante arroto remotos traços de uma sublime intenção musical.
in FILOBÔNIO FILÓ, em breve para o seu deleite
por PARREIRA às 9:59 PM ||||| |
Tem Parreira lá no CRONÓPIOS!
É só clicar na imagem abaixo:
por PARREIRA às 12:48 AM ||||| |
Segunda-feira, Maio 19, 2008
VACAS NO CÉU

Eu e ela deitados na grama. O silêncio das nuvens. Um sol espião, tímido. Eu digo:
- Olha aquela vaca!
- Cadê?
- Entre as nuvens.
- Não tem vaca nenhuma lá.
- Só depende de você.
- Não tem vaca.
- Pode ser um anjo, então.
- Nenhum anjo.
- Eu vejo vacas e anjos. Hipopótamos também.
- No céu?
- Entre as nuvens.
- Você precisa parar com a maconha.
- Não tem maconha. Tem imaginação.
- O céu que você imagina é um absurdo!
- O absurdo não tá no céu. Tá aqui mesmo, na terra.
- O quê?
- Você dizer que não me ama, por exemplo.
Eu e ela deitados na grama. O silêncio das nuvens. O silêncio.
por PARREIRA às 9:07 PM ||||| |
Domingo, Maio 18, 2008
A CAIXA DE SONHOS
Eu cheguei em casa tarde como sempre, o espírito cheio de conhaque, os dedos carregando o mesmo cigarro de ontem. O silêncio gritou à minha chegada: sente saudades de mim.
Ao lado da cama uma caixa, embaixo da caixa o seu bilhete.
Esta é a caixa dos sonhos. Estou aí dentro, à sua espera.
Eu suspiro, olho pela janela: uma paisagem de sombras, mesmo durante o dia é essa escuridão. Qualquer hora de qualquer dia, escuridão. A minha escuridão.
Ligo a TV, que fala numa língua que não consigo entender. Ouço, mas não entendo. Somos estranhos educados: suportamo-nos.
Vou para a cama de roupa e tudo, os sapatos apontados para o teto. Nenhum sentido nisso, eu sei, mas de outra maneira seria a mesma coisa. Não tenho testemunhas aqui, pouco importa o que eu faça, a maneira como durmo, de sapatos ou não. Mesmo pela manhã, quando corto o pão em duas fatias, eu rio: dividir o pão, sim, mas para quem?
A caixa. A caixa dos sonhos. Sonhos de quem? Mas ela está lá dentro, à minha espera. Saio da cama.
Da caixa tiro um par de meias, um frasco de perfume, uma foto amarelada. Na foto estamos felizes, o mar ao fundo, um dia de sol como há muito não vejo.
Vou até o banheiro olhar a minha cara no espelho. Não sou mais o rapaz da foto faz tempo. A minha cara também ela amarelada.
Abro a porta e volto pra noite, a luz do cigarro guiando meus passos. A caixa não me trouxe sonho algum, só lembranças. A caixa não me trouxe você.
por PARREIRA às 10:01 PM ||||| |
Quinta-feira, Maio 15, 2008
1000 LEITURAS!
P O R R A !
por PARREIRA às 7:50 PM ||||| |
O PROFISSIONAL
Engulo o café frio e levanto: o cara está na rua, anda depressa.
Corro atrás, a mão segurando o revólver. É a quinta vez já, ou sexta. Nem sei mais.
Por enquanto vejo o sujeito pelas costas – e ele não é diferente de ninguém, nem de mim. O cabelinho curto, um paletó barato, a calça que não combina. Não carrega pasta, o que vai na sua mão é uma sacola de supermercado. Mais um fudido preu dar cabo.
Na primeira vez o coração me veio na boca, sofri mais que o cara que morreu. Ele se foi de vez, eu fiquei aqui colecionando fantasmas. Passei mal dois dias, nem o conhaque me limpou.
Mas aí botaram mais dinheiro na minha mão, o nome do cara escrito numa folha de caderno. E eu fui de novo. Mais seguro, mais tranqüilo. Agora não me lembro mais da cara do sujeito; a única coisa que lembro é o PLOF que fez a cabeça dele. Um trabalho bonito, disseram depois, não sobrou nem dente para identificar.
Foi assim que eu cresci na profissão. Discreto, objetivo, faço o que me pagam como querem que eu faça, nem mais nem menos. Um profissional. Poucas palavras, porque o silêncio é a melhor propaganda.
A nuca do sujeito vai crescendo enquanto me aproximo. Poderia acabar com tudo de uma vez, de longe, uma bala só. Mas chego perto, quero ver os olhos do cara. Fazer ele me enxergar pela primeira e última vez, levar a minha imagem pro inferno.
Quando tenho o homem ao alcance da mão ele pára, se vira lentamente e me olha nos olhos. Dessa vez não sou eu, é ele que enfia o seu olhar no meu. Não tem medo ali, nem raiva. Ali não tem nada, é um vazio de sombras.
Um outro, tempos atrás, me encarou também. Mas para chorar, implorar mais uma migalha de vida miserável, mais uns poucos anos de sofrimento humano. A história do mundo naquele olhar. E o filho da puta implorando para continuar na merda. Matei esse aí com raiva de tamanha covardia, que fosse chorar lá bem longe.
Diante daquele olhar, portanto, uma outra história. Um pequeno tremor em volta do cabo do revólver. Porque eu sabia que o meu tempo estava chegando. Só não sabia que ele era o cara.
- Toma – eu falei. – Pega aí.
O sujeito pegou minha arma, tirou da sacola de supermercado um silenciador. Um profissional também.
Os olhares. Com os gestos bem medidos ele levantou a arma, encostou na minha têmpora. Não quis fechar os olhos: ia levar a imagem dele pro inferno.
Com um movimento bem rápido ele jogou a arma pra longe. Ficamos ali um diante do outro, as mãos vazias, os olhares. As perguntas não cabiam.
Virei as costas e me afastei lentamente. Não houve tiro mas eu percebi que estava morto. Ele também. Uma rajada de vento levou a sacola de supermercado para o alto, cada vez mais para cima, em direção ao céu.
por PARREIRA às 11:46 AM ||||| |
Quarta-feira, Maio 14, 2008
POEMINHA ECONÔMICO
Vai o dia
Noite vem
Dinheiro na carteira
- Larga mão, Parreira, que não tem!
Uns com tanto
Tantos sem
Cadê o meu, caramba!
- Larga mão, Parreira, que não tem!
Em nome do Banco Central, do ministério da Economia,
dos juros, amém!
Me dá um trocado aí, doutor!
- Larga mão, Parreira, que não tem!
Nunca de táxi
Só vou de trem
Um troquinho aí pro ônibus, patrão!
- Larga mão, Parreira, que não tem!
Economia
Eu faço à força
Forçado pelos economistas
Que, sem esforço algum,
Transformam o meu minguado pouco
Em nenhum
Minha alma baratinho
Por bem menos de cem
- Tá a fim, capeta?
- Larga mão, Parreira, tenta no céu, que no inferno já num tem!!!
por PARREIRA às 9:23 PM ||||| |
drumão, bandera, bodelé
li tudim elis
mais inda num passu di mané
por PARREIRA às 9:04 PM ||||| |
Segunda-feira, Maio 12, 2008
ENCANTAMENTO
Pecado. Essa gente que não tem mais o que fazer.
Não vejo. Porque sou dono do meu nariz desde pequeno. Que me importa se é isso ou aquilo? Vale é o que vai por dentro, o calor.
Muitos problemas, desde o começo. Lá bem antes, quando eu ainda usava calção na escola, botinha ortopédica. A botinha, por exemplo, foi presente do prefeito, que minha mãe mal ganhava pra comer. De botinha e calção, portanto, foi que eu me encantei pela primeira vez. Encantei, sim, porque gosto da palavra. E a cadeira era todo o meu encantamento. Não sentava em outra, e na escola armava barraco por causa dela. Tapa na orelha dos outros meninos. Tapa na minha orelha também, eles eram muitos e eu um só. Até que um dia, depois de muitos tapas, levaram a cadeira embora. A primeira dor.
Aí que eu fui me sentido meio lobisomem. A mãe tinha paciência mas não sabia tratar do assunto. Não via os meus olhos. Pra ela era o preto no branco, o certo das coisas. Eu desviava. Era desgosto pra ela.
Cresci assim, no desvio. Não esse de gostar de menino, gostar de homem. Mas de mulher também não. Eu era de um vazio maior do mundo.
Conheci o inferno quando me nasceram os pelos e a voz engrossou. Eu não queria ninguém mas o meu corpo pedia coisas. Daí que a cadeira voltou, mas voltou diferente. O que era encantamento no começo virou putaria, a cadeira no centro das minhas punhetagens.
Foi então que eu aprendi o silêncio. Não tinha como dizer da cadeira, não tinha como. Os segredos.
Um dia, cansado de calar, botei nome na cadeira: Marília. E falei pra todo mundo da minha Marília, o que a gente fazia no escondido da noite. Acreditaram no começo, mas depois me cobraram a menina:
- Traz ela pra gente ver!
Voltei pro silêncio, os segredos. A ignorância desse povo é do tamanho de um bonde.
Então fiz de tudo pra fugir de mim: desviei pras outras coisas, os armários, a cama, um pinico velho. Mas não era a mesma coisa, não era Marília, não era cadeira. A paixão é uma marca, dói mesmo depois da ferida fechada.
Me botei homem com a cadeira na cabeça. E a boca fechada. Porque se é ruim prum menino, prum homem é desavergonhamento. Onde é que já se viu?
Isso foi me comendo, esse silêncio, esse sentir não fazer parte do resto. Porque lá no fundo eu queria, sim, ser igual. Ou pelo menos livre pros meus desejos. Mas não, o meu querer era uma gaiola.
- A tua tristeza é de dar dó. Por que você não vai na igreja? Os santos ajudam a carregar o fardo.
Isso eu ouvi lá pelos 40 anos. E fui na igreja, o alívio poderia estar lá.
Aqueles bancos todos não me chamaram a atenção. Mas no altar eu vi uma cadeira – e o coração reagiu. Aí eu vi os olhos dos santos todos em cima de mim, um medo. Quis fugir, mas meus olhos voltaram pra cadeira, uma última espiada, eu pensei, e foi aí que eu vi sobre a cadeira a santa.
O encantamento que eu sentia lá atrás quando era menino voltou. E não era mais pela cadeira, era pelo que estava em cima da cadeira, a santa.
No meio daquele povo todo eu me aproximei e beijei a santa. Novamente os tapas na cabeça, os homens todos gritando comigo, mas novamente também o calor, como antes.
Hoje fecho os olhos de noite e não vejo mais a cadeira. A santa me ocupa todos os dedos da mão. Essa gente que não tem mais o que fazer diz que é pecado. Eu sei que é milagre.
por PARREIRA às 8:38 PM ||||| |
Domingo, Maio 11, 2008
JÁ QUE O ASSUNTO HOJE É ESSE...
MÃE
A minha mãe vem da morte pra me visitar.
Diz que estou magro, que só engordo palavras,
solitário demais neste mundo que se faz a dois;
que sabe dos meus cigarros
e que lamenta as minhas garrafas.
Essa aí a minha mãe,
que ocupa a sua morte com a minha vida.
Você encontra a
versão em áudio aqui.
por PARREIRA às 8:51 AM ||||| |
Sábado, Maio 10, 2008
CARREGADORES
Havia um carregador para cada letra. 26 ao todo, e com eles todas as combinações eram possíveis.
O escritor sabia muito bem disso. Tanto que se utilizava dos serviços dos carregadores todos os dias, várias vezes por dia.
Contos, poemas, ensaios. Romances. Explorava os carregadores. Nunca um agradecimento sequer.
Os carregadores estão à minha disposição, pensava o escritor, e com isso mais contos mais poemas mais ensaios. Mais romances.
Premiado, o escritor desprezava cada vez mais os carregadores. Subalternos, pensava, escravos da minha genialidade. Tão aí pra isso mesmo: me servirem.
O conto um dia deixou de ser escrito por falta de letras. O escritor as tinha todas na cabeça, é claro – mas faltava quem as carregasse. Quem as transportasse da sua criatividade para o papel. Tento então com os poemas, pensou ele.
Mas os poemas também não vieram. As letras todas, de repente nenhuma. O vazio em branco. Assim também com os ensaios.
O romance, calado. O escritor mais calado ainda. Subitamente desconhecia-se: a sua genialidade, aonde? Desespero.
Tempos depois o escritor era apenas uma sombra. Vazio de palavras. Um homenzinho triste que sonhava, noite após noite, com a volta dos carregadores.
E um dia então eles voltaram, os carregadores. Mas apenas 8 deles.
O escritor sorriu, chorou, e imediatamente tentou escrever. Mas não conseguiu. Tentou novamente. Em vão.
Mas eu tenho carregadores, pensou. Acho que o que falta é organizar o pensamento.
O escritor percebeu então que, por mais que pensasse contos poemas romances, a única palavra que os carregadores conseguiam formar era SILÊNCIO.
por PARREIRA às 10:23 PM ||||| |
O DESEJO I
Achavam que ele buscava a Iluminação, o Nirvana, atingir o Sagrado.
Anos sentado no mesmo lugar, imóvel, o ninho de pássaros plantado no meio do cabelo enorme.
Os homens todos consideravam-no já um santo. Os presidentes, ao visitá-lo, curvavam-se em oração.
Em silêncio, e longe das opiniões do mundo a seu respeito, ele apenas se lamentava: seu único desejo na vida era não desejar. E isso ele não conseguia.
por PARREIRA às 8:04 PM ||||| |
Sexta-feira, Maio 09, 2008
HISTÓRIA DE AMOR
Te fiz o presente mais belo. Um embrulho de sílabas cintilantes, dentro dele uma caixa, dentro da caixa todo o meu amor.
Mas você não viu. Preferiu declamar horizontes distantes e desconhecidos, saltitar conhaques como quem filosofa todo o entendimento do mundo.
De minha parte apunhalei margaridas em teu nome. Chicoteei borboletas. Mas teus olhos surdos jamais sentiram o perfume dos meus sentimentos.
Loucura, eu sei. Porque você não vale poemas nem desmaios. Você não vale nada.
Os laços da paixão em volta do meu pescoço, asfixia. Teu nome que a minha língua insiste em não esquecer. Minhas mãos cheias de nada.
As meninas sorriem pra mim na rua. Outras chovem beijos e intenções. Besta, dispenso a todas com a polidez das açucenas. Fidelidade é um tronco atravessado na garganta.
Um dia hei de me vingar pelos meus desvarios em tua homenagem. E será um gozo enfim, o último gozo: vais receber pelo correio o meu coração ensangüentado, arrancado do peito com minhas próprias mãos, prova mais-que-perfeita dessa história de amor que jamais aconteceu.
por PARREIRA às 8:49 PM ||||| |
Quinta-feira, Maio 08, 2008
BRINCAR DE ESCREVER
Neste sábado, Marianna e eu vamos brincar de escrever contos.
Acho que vai ser bacana.
por PARREIRA às 7:54 PM ||||| |
Quarta-feira, Maio 07, 2008
CPOFT651108 (trecho)
É claro que eu achei estranho. E não há nada estranho num arquivo de repartição pública, eu sei. Ainda mais esse arquivo, que está aqui desde sempre, desde quando cheguei. Acho mesmo que toda a repartição foi erguida em volta dele, que pelos meus cálculos deve ter uns duzentos anos.
O que eu achei estranho, portanto, não foi o arquivo em si, porque ele, como a máquina de protocolo e os carimbos, faz parte da paisagem burocrática. O que eu achei estranho foi o que o arquivo, de uma hora pra outra, resolveu me mostrar pralém dos ofícios e memorandos.
Numa determinada manhã, depois do café e das sagradas cerimônias de cuidar da vida alheia, voltei à minha ingrata função de faz-tudo. Faz-tudo, aliás, que se tornou parte do meu nome: Osvaldo Faz-Tudo ao seu dispor. Arquiva, desarquiva, carimba, protocola, serve café, compra lanche no buteco (e aproveita e manda um conhaque com limão, que ninguém é de ferro), et cetera, et cetera. E no et cetera, embora muitos aí possam pensar, não cabe a antiqüíssima função de puxa-saco, que isso não é a minha cara graças a Deus. Fosse assim eu certamente não seria mais um faz-tudo. Sei muito bem como é que funciona essa máquina do Estado. Estou na merda mas mantenho a dignidade sim senhor.
O arquivo então, como eu ia dizendo, resolveu na determinada manhã me mostrar algo mais. Algo assim como a velha esposa que de repente te surpreende com uma calcinha nova e sexy. Uma porta no fundo da última gaveta, era isso. Sem mais nem menos, assim, o arquivo me exibiu uma pequena porta no fundo da última gaveta. No começo pensei se tratar de uma fotografia esquecida, essas coisas. E não dei bola. O trabalho, enfim. Arquiva & desarquiva feito um cão.
Uma porta, eu disse. E aí que o arquivo passou a me tentar como o diabo. Não dei bola no princípio, como já falei, mas a voz do arquivo passou a me infernar os dias, primeiro as manhãs, depois as tardes:
- Vem – ela repetia, e eu via o arquivo me mostrando a língua cheia de lascívia. – Vem!
Eu olhava pro povo da repartição, cada um cuidando dos seus afazeres, ou não, que as cerimônias fofoquentas ocupam consideráveis parcelas de verba e de tempo. Um medo filodaputa de que me considerassem mais maluco do que o necessário, porque não sou ingênuo e sei que o povo fala mesmo. Só temo duas coisas neste mundo: o dia do Juízo Final, Dies irae , pra soar mais chique, e a língua dos colegas. A última mata muito mais que a primeira, mas não é bem disso que estou falando.
Que o arquivo passou, sim, a me aporrinhar de tal maneira que um dia me peguei mandando ele à merda.
- Dá-lhe conhaque! – espetaram. – Agora deu pra falar com arquivo, é?
Fiquei na minha. Uma coisa boa na porra vida é a tal da experiência: na maioria das vezes calar é mais prudente; retrucar a ignorância alheia só acrescenta dissabores ao espírito e, de quebra, hematomas ao rosto.
Mas o arquivo continuou chamando, um ritual diário que acabou me dando no saco. A voz sensual do começo se transformou num guincho estridente, volta e meia eu levava as mãos aos ouvidos, os olhos da galera fiscalizando o meu comportamento e certamente acrescentando copos ao meu prontuário etílico.
- Tá bom, porra! – eu falei finalmente.
- Tá bom o quê? – quis saber a Verônica, a gostosa da repartição.
- Não é com você – eu disse. – Falei com o arquivo.
A mulher arregalou os olhos, os outros também. Mandei a experiência para o caralho e já ia falar um monte quando ouvi, feito carícia nos ouvidos:
- Fica na sua. Essa conversa é só entre a gente.
Eu sabia que era a voz do arquivo, mas preferi desentender. Fazer de conta que não. Porque o chamado da loucura começa assim, manso, uma brisa de estrelas.
Mas o chamado era convincente, sedutor. E eu sou chegado às seduções e patifarias de todos os tipos. Mesmo aquela vinda de um arquivo, vá lá, porque o sublime às vezes vem de onde menos se espera.
(continua?)
por PARREIRA às 7:45 PM ||||| |
Segunda-feira, Maio 05, 2008
Clica!
por PARREIRA às 8:38 PM ||||| |
Domingo, Maio 04, 2008
O QUE MOVE UM ESCRITOR?
(texto muito curioso encontrado na minha papelada...)
- o que move um escritor?
Antiqüíssima pergunta, que aceita diversas respostas mas não se satisfaz com nenhuma delas.
A perplexidade talvez.
Talvez a paixão.
Talvez a incerteza.
A incerteza é, talvez, a única constante nesse oficio de loucos.
No que diz respeito a mim, o que me move é a falta de algo melhor pra fazer. Fosse eu encantado pelas coisas do mundo e as palavras não me fariam a menor falta.
Acho que escrevo em busca de algo que não podem me dar.
Esta febre de escrever. Desde então tudo é escuro.
Este labirinto de palavras, a floresta úmida da gramática.
Um caminho de facas.
Deliciosas facas.
Não sei. Mas vou.
Tenho ido desde sempre.
Já cancelei amores.
Viagens.
Passeios sob o sol.
Às vezes volto pra casa desesperado e mudo. Tudo em nome de um a pista falsa. Tudo em nome de um ofício cujo salário é a solidão.
Mesmo assim, como esconder esse prazer tátil, esse ardor dos dedos sobre a caneta?
Dialogo com o silêncio.
Cigarros e café.
Bebi muito em busca de inspiração. Da frase perfeita.
Besteira. Tudo virava ressaca. Ou vômito.
Agora já estou bem crescidinho pra saber das coisas.
E sei.
Sei que o mundo a minha volta mudou muito pouco, apesar da velocidade.
E sei que os meus cabelos estão ficando brancos.
Que o cigarro alivia mas entope.
Sei?
Hoje é sábado, vi as pessoas na rua e tentei adivinhar suas vidas, seus comportamentos. O próximo passo. A mão escondida no bolso antecipando o afago ou a porrada.
As pessoas vivendo e eu tentando adivinhar. Ora essa!
Estas palavras que não sei pra quê.
Quantas anos polindo palavras?
Pescando sentidos?
Isso de escrever: paixão ou vício ruim?
Tenho saudade dos beijos de uma mulher.
Do corpo de uma mulher.
Passei o último ano com mulheres de papel, literárias. Nada de calor.
Mesmo assim, escrevi muito sobre elas. Sonhei, até.
Um consolo precário pra minha fome.
Olho a minha parede decorada de livros.
Meus únicos bens não me pertencem, não foram escritos pela minha caneta.
Mas repito o gesto, dou seguimento à tradição.
Algum dia o ato de escrever fará sentido?
De silêncios e vazios.
De sombras e esquecimento.
Paciência e sorte.
Dizem que é assim que se faz um escritor.
Eu acrescento a dúvida.
Ai eu me pergunto sobre o pagamento da minha obstinação.
O tempo não se negocia.
Dane-se o que passou.
É sempre pra frente, amanhã é outro dia e só é possível escrever agora. Escrevo.
Mas e a vida?
O salto no escuro, o meu rosto diante do espelho.
É preciso encarar a face horrível.
Quanto mais vejo, mais me espanto.
Mas não há retorno e é preciso conforto na dor.
Abrir uma clareira nas facas.
Vasto é o vocabulário de quem conversa só.
O silêncio é multilingüe e se reconhece em toda parte.
Aqui as minhas palavras gritam alto.
Mas ainda é silêncio.
Irremediável silêncio.
Eu ando pela cidade incógnito feito um pássaro.
Não tenho carro, vou a pé.
Que meu natural é andar.
Andando e pensando.
Os meus textos se medem em quilômetros.
E eis que de repente vejo dois escritores numa mesa de bar.
Ó!
Mas não me aproximo. Temo uma contaminação irreparável.
Esta cidade tem muito de cinema alemão. Uma fotografia que ainda não fiz. Uma geografia que descrevo sem nome.
No mais é só isso: vivo o angustiante exercício de emprestar sentido àquilo que não é da minha conta.
por PARREIRA às 8:35 PM ||||| |
O CASTELO
Comenta-se que em algum lugar do mundo há um castelo onde o tempo permanece estático. Diz-se também que entre os muros do referido castelo acontece uma festa de início ignorado e sem previsão de término, uma festa que acolhe a todos, nobres e plebeus, regada pelo mais puro vinho e pelas mais variadas iguarias.
Confiantes nesses comentários, muitos homens, ansiosos, partem em busca do castelo. Todos esperam encontrá-lo, pelo menos, ainda na juventude, podendo assim desfrutar para todo o sempre da companhia das donzelas e do fulgor da festa. Muitos desses homens, no entanto, acabam descobrindo pelo caminho cidades mais belas que as suas e lá se estabelecem. À outra parte desses homens é dado o privilégio de encontrar mulheres nunca antes imaginadas e a paixão abrupta que os acomete cancela os seus projetos. A grande maioria dos homens, porém, talvez devido a sua pouca idade, acaba em verdade por se perder nos desertos e florestas, sem ter ninguém a quem recorrer, e só mesmo os que têm sorte, muita sorte, é que retomam para seus antigos lares, mas ainda assim marcados até a morte pelo peso do fracasso e da vergonha.
Os poucos homens que por fim alcançam o castelo, ao divisar seus altos muros não acreditam no que vêem. Trazem ainda consigo imagens antigas, histórias de província, e inúteis são os apelos das donzelas que acenam e convidam com lenços coloridos e sorrisos. Nem mesmo o cheiro de assado que paira no ar e o som dos instrumentos de corda são capazes de convencê-los de que a viagem chegou ao fim. Indignados, certos de que estão sendo vitimas de alguma espécie de engano, os homens preferem mudar de direção, buscar um outro castelo que corresponda aos comentários de outrora, um castelo mais distante que caiba em seus sonhos.
por PARREIRA às 7:04 PM ||||| |
SEM TÍTULO 98
clique na imagem para ampliar
por PARREIRA às 5:54 PM ||||| |
Mais uma devolução!
clique na imagem para ampliar
E a mulher não se deu nem ao trabalho de assinar. Pra que, né?
por PARREIRA às 5:01 PM ||||| |
MANUSCRITO SIMPÁTICO, 1998
Dá pra ler essa letra horrível?
Se não conseguir, clica na imagem!
por PARREIRA às 4:49 PM ||||| |
JORNAL CORREIO DOS ANJOS, CAMPINAS, 1998
Sim, eu era O ANJO EXTERMINADOR hehehehehe
por PARREIRA às 4:38 PM ||||| |
O PRIMEIRO LIVRO
Por Um Laço Visível, 1983
Conclusão, tantos anos depois: deste livro só se salva a capa - que aliás não foi feita por mim...
por PARREIRA às 4:22 PM ||||| |
Às vezes eu encontro cada uma que fico até surpreso...!
por PARREIRA às 3:24 PM ||||| |
Sábado, Maio 03, 2008
RECUERDOS
Em família, 1992
Febres de Setembro, 1997
por PARREIRA às 6:40 PM ||||| |
Quinta-feira, Maio 01, 2008
ENQUANTO ISSO, EM PORTUGAL...
Aqui, no site da
MINGUANTE, que é um espaço dedicado à micronarrativa.
por PARREIRA às 1:53 PM ||||| |